Presidente aponta falhas no multilateralismo e pede mudanças no Conselho de Segurança durante discurso que antecede as reuniões do bloco
RESUMO <<Em discurso de abertura da Cúpula do BRICS, Lula afirmou que a ONU “fracassou” e criticou a paralisia do Conselho de Segurança. Ele defendeu uma ordem global mais justa, condenou guerras e propôs a inclusão de novos membros permanentes no órgão>>
Brasília, 06 de julho de 2025
Em discurso de abertura da Cúpula do BRICS, no Rio de Janeiro, neste domingo (6.7.2025), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a ONU fracassou em sua missão de manter a paz global e defendeu uma reforma urgente no Conselho de Segurança.
Lula destacou que o mundo vive o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra e acusou potências de priorizarem gastos militares em vez de desenvolvimento.
O estadista afirmou que o multilateralismo está em colapso, citando a invasão da Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e a crise no Sahel como exemplos de falhas da governança global.
Ele criticou a OTAN por alimentar uma corrida armamentista e lamentou que o Conselho de Segurança da ONU seja “paralisado” e ignorado antes de ações militares.
Guerra em Gaza e tensões nucleares
O chefe do Executivo condenou os ataques do Hamas, mas classificou a ação de Israel em Gaza como “genocídio”, defendendo a criação de um Estado Palestino soberano. Também alertou para o risco de catástrofe nuclear devido à proliferação de armas e violações de fronteiras.
Reforma da ONU e papel dos BRICS
Lula defendeu que os BRICS (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) podem liderar uma nova governança global, incluindo a entrada de novos membros permanentes no Conselho de Segurança – como países da África, Ásia e América Latina.
Ele citou a iniciativa de paz proposta por Brasil e China para a Ucrânia como exemplo de ação alternativa.
O discurso reforça o posicionamento do Brasil como mediador em conflitos, mas também evidencia as divisões geopolíticas atuais, com o ocidente e o eixo BRICS em lados opostos sobre o futuro da ordem internacional.
Leia a íntegra do discurso, a seguir
“Pela quarta vez, o Brasil sediou uma cúpula dos BRICS. De todas estas, de todas, esta é a que ocorre em cenário global mais adverso. A ONU completou 80 anos no último dia 26/06 e presenciamos colapso em paralelo do multilateralismo. O advento da ONU marcou a derrota do nazifascismo e o nascimento de uma esperança coletiva. A grande maioria dos países que hoje integram os BRICS foram os seus membros fundadores.
Anos depois, a Conferência de Bandung refutou a divisão do mundo em zonas de influência e avançou na luta por uma ordem internacional multipolar. Os BRICS são herdeiros do movimento não alinhado.
Multilateralismo sob ataque, nossa autonomia está novamente em xeque. Avanços arduamente conquistados, como os regimes de clima e comércio, estão ameaçados. Na esteira da pior crise sanitária em décadas, o sistema de saúde global é alvo de investidas sem precedentes. Exigências absurdas sobre propriedade intelectual ainda restringem o acesso a medicamentos.
O direito internacional se tornou letra morta, juntamente com a solução pacífica de controvérsias. Enfrentamos um número inédito de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. A recente decisão da OTAN alimenta a corrida armamentista. É mais fácil destinar cinco por cento do PIB para gastos militares do que alocar os 7% prometidos para assistência oficial ao desenvolvimento. Isso evidencia que os recursos para implementar a Agenda 2030 existem, mas não estão disponíveis por falta de prioridade política.
É sempre mais fácil investir na guerra do que na paz. As reuniões do Conselho de Segurança da ONU reproduzem um enredo cujo desfecho todos conhecemos: perda de credibilidade e paralisia. Ultimamente, sequer é consultado antes do início das ações bélicas.
Velhas manobras retóricas são recicladas para justificar intervenções ilegais, assim como ocorreu no passado com a Organização para a Proibição de Armas Químicas. A instrumentalização dos trabalhos da Agência Internacional de Energia Atômica coloca em jogo a reputação de um órgão fundamental para a paz.
O temor de uma catástrofe nuclear voltou ao cotidiano. As violações recorrentes da integridade territorial dos estados, em detrimento de soluções negociadas, solapam os esforços de não proliferação de armas atômicas. Amparo no direito internacional.
O fracasso das ações no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria tende a se repetir de forma ainda mais grave. Suas consequências para a estabilidade do Oriente Médio e norte da África, em especial no Sahel, foram desastrosas até hoje são sentidas. No vazio dessa crise não solucionadas, o terrorismo encontrou terreno fértil. O temor de uma catástrofe nuclear voltou ao cotidiano.
As violações recorrentes da integridade territorial dos estados, em detrimento de soluções negociadas,solapam os esforços de não proliferação de armas atômicas.amparo no direito internacional.
O fracasso das ações no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria tende a se repetir de forma ainda mais grave. Suas consequências para a estabilidade do Oriente Médio e do Norte da África, em especial no Sahel, foram desastrosas e até hoje são sentidas. No vazio dessas crises não solucionadas, o terrorismo encontrou terreno fértil. A ideologia do ódio não pode ser associada a nenhuma religião ou nacionalidade.
O Brasil repudiou os atentados na Caxemira. Absolutamente nada justifica as ações terroristas perpetradas pelo Hamas, mas não podemos permanecer indiferentes ao genocídio praticado por Israel em Gaza, à matança indiscriminada de civis inocentes e ao uso da fome como arma de guerra. A solução desse conflito só será possível com o fim da ocupação israelense e com o estabelecimento de um Estado Palestino soberano, dentro das fronteiras de 1967.
O governo brasileiro denunciou as violações à integridade territorial do Irã, como já havia feito no caso da Ucrânia. É urgente que as partes envolvidas na guerra na Ucrânia aprofundem o diálogo direto com vistas a um cessar-fogo e a uma paz duradoura. O grupo de amigos para a paz, criado por China e Brasil e que conta com a participação de países do Sul Global, procura identificar possíveis caminhos para o fim das hostilidades.
Gravíssimas crises em outras partes do mundo seguem ignoradas pela comunidade internacional. No Haiti, tivemos a MINUSTAH, mas a comunidade internacional abandonou o país antes da hora. O Brasil apoia a ampliação urgente do papel da missão da ONU no país, que combine ações de segurança e desenvolvimento.
Senhoras e senhores.
Nas oito décadas de funcionamento das Nações Unidas, nem tudo foi fracasso. A organização foi central no processo de descolonização. A proibição do uso de armas biológicas e químicas é exemplo de que o compromisso com o multilateralismo pode alcançar.
O sucesso de missões da ONU no Timor Leste demonstra que é possível promover a paz e a estabilidade. A América Latina fez a opção desde 1968 por ser uma zona livre de armas nucleares. A União Africana também consolida seu protagonismo na prevenção e na resolução de conflitos que aflige aquele continente.
A governança internacional não reflete a nova realidade multipolar do século 21, cabe aos Brics contribuir para a sua atualização. Sua representatividade e diversidade o torna uma força capaz de promover a paz e de prevenir e mediar conflitos. Podemos lançar as bases de uma governança revigorada.
Para superar a crise de confiança que enfrentamos, é preciso transformar profundamente o Conselho de Segurança, torná-lo mais legítimo, representativo, eficaz e democrático. Incluir novos membros permanentes da Ásia, da África, da América Latina e do Caribe é mais do que uma questão de justiça, é garantir a própria sobrevivência da ONU.
Esse é o espírito do chamado. A ação sobre a reforma da governança global, lançada pela Presidência brasileira do G20. Adiar esse processo torna o mundo mais instável e perigoso. Cada dia que passamos com uma estrutura internacional arcaica e excludente, é um dia perdido para solucionar as graves crises que assolam a humanidade”.








