Escultura pessoal do presidente virou peça de campanha de desinformação após ex-procurador da extinta lava jato cair em fake news de WhatsApp
Brasília, 06 de novembro 2025
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (`PT), lamentou a morte do economista e amigo José Alberto de Camargo, nesta quinta-feira (6/nov):
“Sentirei sempre muitas saudades de meu amigo José Alberto de Camargo, que nos deixou na manhã de hoje. Estivemos juntos em muitas etapas de nossa jornada pela construção de um Brasil mais justo.
Ele ajudou a dirigir o Instituto Cidadania, onde elaboramos os estudos e conduzimos as discussões que resultaram nos programas de governo de meus dois primeiros mandatos.
E prestou apoio decisivo para a criação do Programa Fome Zero que, em 2003, deu início à trajetória que tirou o Brasil do Mapa da Fome.
Em sua atuação empresarial na Companhia Brasileira de e Metalurgia e Mineração , incentivou a educação, a cultura e as ações voltadas ao bem-estar coletivo.
Tudo isso ao lado da busca constante pelo desenvolvimento nacional e domínio das tecnologias de que tanto precisamos.
Foi com carinho que, há mais de vinte anos, José Alberto de Camargo me presenteou com uma escultura de Cristo crucificado que ainda hoje me acompanha e me abençoa no gabinete presidencial.
Esta é mais uma lembrança que sempre guardarei desse grande homem. Aos seus familiares e amigos, deixo os meus mais profundos sentimentos”.
O Cristo Crucificado é um dos objetos mais simbólicos e controversos de seus mandatos, pois ele se tornou um pilar de acusações infundadas, fake news e até mesmo um objetivo obsessivo da Operação Lava Jato.
José Alberto de Camargo foi uma figura essencial na jornada política de Lula.
Conforme a nota do presidente, Camargo foi um colaborador fundamental na direção do Instituto Cidadania, onde foram elaborados os alicerces dos programas de governo de seus primeiros mandatos, incluindo o emblemático Programa Fome Zero.
Em 2002, Camargo selou essa amizade com um presente de valor inestimável: um Cristo Crucificado esculpido em madeira por um artista europeu do século XVI, adquirido do bispo Mauro Morelli, de Duque de Caxias.
Por sugestão de Frei Betto, a obra foi entregue a Lula e, desde então, tem sido parte da mobília de seu gabinete, inclusive retornando ao local após a posse em 2023, sendo restaurado pelo Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais (Cecor) da UFMG.
A peça religiosa, de natureza pessoal e presente entre os mais de 8.500 recebidos pelo ex-presidente, viu sua paz ser perturbada em 2011. Com a saída de Lula e a posse de Dilma Rousseff, o crucifixo foi removido, como todos os demais pertences pessoais do ex-presidente.
Rapidamente, a mídia e blogueiros antipetistas inflamaram um boato de que a remoção teria sido ordem de Dilma “por ser ateia”.
A acusação evoluiu para uma campanha de difamação ainda mais grave: a “Devolve, Lula”, alegando que o crucifixo seria um bem do Palácio do Planalto “roubado” por Lula.
A Tática da Fotografia Anacrônica:
Para dar sustentação ao boato, foi usada uma foto do ex-presidente Itamar Franco no gabinete presidencial com o crucifixo ao fundo.

A grande mídia alegou que a imagem provava que o objeto era patrimônio público desde os anos 90.
No entanto, a foto, embora verdadeira, foi tirada durante uma visita de Itamar ao Planalto em 2006, durante o primeiro mandato de Lula, fato já esclarecido pela revista Época em 2011.
A “Turbo” da Acusação:
A revista Veja intensificou a campanha, não apenas recorrendo à foto anacrônica, mas também elevando o valor e o status da peça, transformando o trabalho de um escultor anônimo europeu em uma obra de Aleijadinho.
Esse salto atributivo visava aumentar a percepção do suposto roubo e a criminalização de Lula e do PT.
O boato midiático não apenas persistiu, mas foi incorporado como justificativa para a guerra jurídica movida contra o PT pela Lava Jato.
A busca pelo crucifixo “roubado” se tornou uma obsessão para o procurador Deltan Dallagnol e a Polícia Federal.
A Operação Aletheia:
Em março de 2016, durante a Operação Aletheia, policiais federais vasculharam o apartamento de Lula em busca de “pistas”.
Os documentos encontrados indicavam que o acervo pessoal do ex-presidente estava guardado em um cofre no Banco do Brasil (BB), em São Paulo.
O “Achado” Espetaculoso:

A PF divulgou, com grande estardalhaço midiático, ter encontrado 23 caixas com os presentes de Lula no cofre do BB — incluindo o crucifixo.
A mídia celebrou o fato como “prova do crime”. O colunista Reinaldo Azevedo, em texto para a Veja sob o título “Passaram a mão no nosso Cristo, Jesus! Estava num cofre de Lula“, se apressou em acusar Lula de “passar a mão” em um “crucifixo entalhado em madeira, datado do século XVI, que pertence ao estado brasileiro”.
O estardalhaço reverberou globalmente, com notícias em Portugal, por exemplo, de que Lula havia “surrupiado” um Aleijadinho.
A Queda da Fake News:
As mensagens da Lava Jato reveladas pelo The Intercept Brasil (Lava Jato tentou prender Lula por roubar Cristo que era dele) confirmam o êxtase do procurador Deltan Dallagnol ao ser informado do “achado” do Cristo de Aleijadinho.
O procurador e sua equipe viam na prisão em flagrante por roubo de um objeto tão simbólico a apoteose para destruir Lula e o PT.
A alegria, no entanto, durou pouco. Apenas cinco dias após o “achado”, Deltan foi informado pelo procurador Januário Paludo que a Lava Jato havia caído em uma fake news de Whatsapp.
O crucifixo era de Lula, o que podia ser confirmado com uma simples pesquisa. Somente após essa constatação, os procuradores se deram ao trabalho de consultar a legislação que rege os bens de ex-presidentes da República.
O Esclarecimento Legal e o Legado da Desinformação
A investigação oficial e o Tribunal de Contas da União (TCU) confirmaram posteriormente que Lula não havia cometido nenhuma irregularidade.
Os itens em cofre eram de caráter personalíssimo, e o crucifixo, um presente, integrava seu acervo pessoal (Fonte: Estadão – Vídeos enganam ao sugerir que Lula e Dilma furtaram itens do Palácio do Planalto).
A despeito da frustração da Lava Jato e do desmentido das alegações de roubo, a narrativa midiática permaneceu.
O episódio serviu ao seu objetivo de atacar a imagem pública de Lula e criminalizar o PT.
Mesmo o retorno do Cristo Crucificado ao gabinete em 2023, após restauração, serve como um lembrete vivo de como fake news e distorções da imprensa podem ser instrumentalizadas para a perseguição política, transformando a memória e os bens pessoais em munição para o conflito ideológico.
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