Lula-Alckmin é revolução republicana e modelo da esquerda que deu certo, diz cientista político

Geraldo Alckmin, então filiado ao PSDB, e LULA, durante debate na eleição presidencial de 2006, em foto de Marcelo Sayão/EFE. Em preto e branco, o cientista político e colunista da Folha de São Paulo, Mathias Alencastro | Sobreposição de imagens


PROGRESSISTAS POR UM BRASIL SOBERANO

Mathias Alencastro atribui à “esquerda de ruptura” o fracasso da estratégia dos últimos anos e mostra que a “esquerda de coalizão” tem se viabilizado no mundo contra a extrema direita

O cientista político Mathias Alencastro – doutor pela Universidade de Oxford e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que foi diretor de Relações Internacionais do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2015, afirma em extenso artigo no jornal Folha de S. Paulo, que foi ao ar neste domingo (19/12), que a chapa Lula-Alckmin é sinônimo de revolução republicana e acrescenta que ela é um modelo da esquerda que deu certo.

Alencastro inicia sua análise afirmando que a esquerda global está mergulhada em uma longa travessia experimentalista desde a crise de 2008, quando iniciou-se a ascensão da extrema-direita no mundo.

Para o cientista, os dois modelos – “esquerda de ruptura” e “esquerda de coalizão” – “competiram eleitoralmente e conheceram destinos diferentes”. Ele lembra que, na França, “Jean-Luc Mélenchon“, e no Reino Unido, “Jeremy Corbyn, seguiram o caminho trilhado por Pablo Iglesias, líder do Podemos na Espanha, e apoiaram-se nas teses de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, que caracterizam o embate político como a oposição entre o povo e a elite”.

A partir disso, Mélenchon quase chegou ao segundo turno das eleições em 2017 e Corbyn assumiu a liderança do partido trabalhista britânico, chegando a “ameaçar a hegemonia conservadora nas eleições”, escreve Alencastro.

O projeto da ‘esquerda de ruptura’ não sobreviveu a um ciclo eleitoral. Mélenchon naufragou, assim como Corbyn e, ao fim e ao cabo, o Podemos“, avalia o cientista político. 

Já a “esquerda de coalizão” seguiu como contraponto à “esquerda de ruptura“, com a premissa de que “a radicalização da direita deve ser combatida pela afirmação dos valores tradicionais da social-democracia”, escreve Alencastro.

Os partidos do mesmo campo ideológico devem trabalhar juntos para manter suas maiorias eleitorais, em vez de competir entre eles”, acrescenta o cientista.

Mais recentemente, o grande símbolo do sucesso da alternativa de coalizão foi a “geringonça” em Portugal e, há pouco mais de um mês, a vitória do SPD [partido social-democrata da Alemanha] do atual chanceler Olaf Scholz, que “passou grande parte da última década disputando o eleitorado de esquerda com o Die Linke, terceira maior força política do país depois da eleição de 2013. Na eleição deste ano, o partido fundado em 2007 e considerado um predecessor do Podemos nem conseguiu entrar no parlamento”.

O processo europeu teve repercussão entre os “líderes da esquerda nas Américas” e o atual senador americano Bernie Sanders, que seguiram a linha da “esquerda de ruptura” e acabou fracassando.

No Brasil, avalia Alencastro, uma ala do Partido dos Trabalhadores e outros segmentos de esquerda “assumiram abertamente a sua preferência pela esquerda de ruptura”. Um artigo sobre as experiências de Mélenchon e Corbyn, escrito em 2018 pelo hoje vereador carioca Lindbergh Farias (PT-RJ), é mencionado pelo cientista político como “referenciais“. 

A escolha de Fernando Haddad como candidato a presente em 2018 “foi a primeira etapa da disputa entre as duas visões do futuro da esquerda”, que chega a seu momento decisivo agora com o debate sobre a coalizão com o PSB e a escolha de Geraldo Alckmin para companheiro de chapa de Lula.

A experiência de LULA ao longo das últimas décadas o fez ver “com seus próprios olhos, na sua última viagem à Europa, a ruína da esquerda francesa e a reconstrução do SPD na Alemanha”, diz Alencastro.

Conclusivamente, a negociação com Alckmin e as busca de aliança com o PSB, indica, na opinião de Alencastro, que o PT “aposta no modelo da esquerda de coalizão que derrotou a direita e a extrema-direita”. 

Mas a decisão “obriga o PT a abdicar do seu destino hegemônico“, escreve Alencastro, que apesar disso opina que “a experiência europeia dita que o processo de federação com o PSB e o PC do B é tão importante como o acordo individual com Alckmin”.

Do ponto de vista nacional, a composição desenhada por LULA é uma revolução republicana“, conclui Alencastro.

Ela impulsiona a reconstrução do sistema partidário e assegura o regresso dos democratas ao poder. Do ponto de vista global, uma eventual “geringonça brasileira” marcaria a vitória definitiva da esquerda de coalizão sobre a esquerda de ruptura”, pontua.

Novo Temer?

Uma parte do PT repudia a aliança e vê Alckmin como o “novo Temer”, que pode, assim como o vice de Dilma, conspirar para um novo golpe de estado, como o ocorrido em 2016, conforme mostrou a matéria do jornalista José Casado, na revista Veja.

Em manifesto, grupo petista descreve “o famigerado ex-governador Alckmin (SP)“, escreveu o colunista.

Lula e Geraldo Alckmin têm encontro previsto para hoje, em São Paulo, num jantar promovido por advogados.

A torcida pela chapa Lula-Alckmin é grande no Partido dos Trabalhadores. No mundo ideal de parte da cúpula petista, ajudaria o trânsito de Lula “ao centro conservador” e ampliaria as chances de vitória no primeiro turno — algo sem precedentes no histórico do PT.

Uma fração dos dirigentes do partido, por enquanto minoritária, resiste a toda a qualquer possibilidade de união com “forças da direita”, escreve o colunista.

Segundo Casado, o grupo Diálogo e Ação Petistaproduziu um manifesto no qual descreve “o famigerado ex-governador Alckmin (SP)” como “candidato a ser um novo [Michel] Temer” na vice-presidência“.

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