Ministra da Igualdade Racial desabafa com “indignação e revolta” após prisão de homens em cargos de responsabilidade que supostamente ordenaram a morte de sua irmã, Marielle Franco – ASSISTA
“Eu tô indignada, eu tô triste, eu tô chateada. Eu tô com raiva! Gente! Após assistir a coletiva e ter acesso a alguns pedaços da investigação, com o sigilo sendo quebrado, a gente tá aqui, com algumas reflexões importantes nesse momento difícil pra família, de indignação, de raiva, de revolta“, diz, nas redes sociais, a ministra da ‘Igualdade Racial‘, Anielle Franco, referindo-se à sua irmã, Marielle, assassinada em 2018.
Na plataforma de microblogging ‘X‘, Anielle postou um vídeo (assista no final) em que fala demonstrando surpresa com o motivo que levou à morte de sua irmã: “A gente não tá surpresa como a maneira que esse crime se deu, mas a gente tá surpresa como que isso foi arquitetado“, disse. “É inadmissível uma vereadora ser assassinada com cinco tiros na cabeça, porque defendia uma justiça social de qualidade”.
“Defendia interesses coletivos”, e que contrastantemente, foi “assassinada por uma pessoa que pensava em seu benefício próprio, apenas, e não tá nem aí para o coletivo“, afirmou a ministra de Estado do Governo Lula.
O que diz as investigações
A morte de Marielle foi encomendada pelos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, presos pela Polícia Federal neste domingo (24/3). Na época do crime, Chiquinho era vereador ao lado de Marielle, conforme lembra ‘O Globo‘. Ao determinar a prisão da dupla, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes, citou “fortes indícios de materialidade e autoria” dos irmãos Brazão.
De acordo com a PF, o delegado Rivaldo Barbosa, também preso neste domingo, tinha um acordo com os irmãos Brazão para evitar que eles fossem responsabilizados. O acerto estaria valendo desde o segundo semestre de 2017, quando o crime começou a ser discutido. Barbosa exigiu que o crime não ocorresse no trajeto para a Câmara para evitar “conotação política“.
Em delação, Ronnie Lessa afirmou que Barbosa colaborou “ativamente na construção do plano de execução” de Marielle e assegurou “que não haveria atuação repressiva por parte da Polícia Civil“.
A PF investigou ainda a atuação do ex-titular da Delegacia de Homicídios, Giniton Lages, e o policial Marco Antonio de Barros Pinto. Segundo os investigadores, a dupla desviou “deliberadamente o curso das investigações“, protegendo os mandantes, ao apresentar a tese de que Ronnie Lessa e Elcio de Queiroz teriam cometido um crime de “ódio“, por discordarem da atuação política de Marielle.
O crime foi cometido pelo ex-PM Ronnie Lessa, preso em março de 2019. Ele foi expulso da PM e condenado, em 2021, a quatro anos e meio de prisão pela ocultação das armas que teriam sido usadas no crime. Lessa fez a delação que apontou os irmãos Brazão como mandantes.
Ex-sargento da PM, Élcio de Queiroz, dirigiu o carro em que estava Lessa. Preso desde 2019, ele fez delação premiada. Outro envolvido no caso é o ex-sargento do Corpo de Bombeiros, Maxwell Simões Corrêa, o Suel, acusado de ter cedido um carro para a quadrilha, esconder as armas após o crime e auxiliar no descarte delas.
Em delação, Lessa afirmou que foi contratado por outro ex-PM, Edmilson da Silva de Oliveira, o Macalé. Miliciano com atuação em bairros da Zona Oeste sob influência política dos Brazão, Macalé foi procurado pela dupla de mandantes no segundo semestre de 2017, afirma a PF. Ao notar que precisava de um matador profissional, foi atrás de Lessa. Macalé foi morto em 2021.
Autor dos disparos, Ronnie Lessa contou, em delação premiada, que no segundo trimestre de 2017 Chiquinho Brazão demonstrava “descontrolada reação” à atuação de Marielle para “apertada votação do projeto de Lei à Câmara número 174/2016“.
Com o projeto, os mandantes buscariam a regularização de um condomínio inteiro na região de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, sem respeitar o critério de área de interesse social. O objetivo seria obter o título de propriedade para especulação imobiliária.
O relatório da investigação da PF diz que “inexistem dúvidas” sobre motivação dos irmãos Brazão para assassinato de vereadora. No despacho que autorizou a prisão da dupla, Moraes afirmou que a “divergência política em relação à regularização fundiária de condomínios da Zona Oeste do Rio” está pro trás do crime.
A indignação da Ministra da Igualdade Racial
Anielle Franco disse ainda que “a gente não pode banalizar, nem normalizar, a perversidade que é esse momento que é como se dá esse crime”.
“É por isso que é tão importante falar e defender uma democracia robusta, firme, de qualidade, porque são em lugares onde as pessoas deveriam estar cuidando da população, cuidando dos interesses coletivos, e não cuidando de mandar matar ou zombar de uma mulher que foi assassinada ou fazer falas como a que eu ouvi de um deputado”, afirmou, podendo ter se referido a mais de um parlamentar.
“… eu defendo O coletivo Justiça Social e os mais vulneráveis desse país. É inadmissível. E eu queria trazer esse ponto de reflexão aqui. Porque pra onde a gente quer que esse país caminhe, quem a gente quer defender os nossos interesses?“, disse a ministra.
“Uma pessoa que coloca o seu próprio umbigo em interesse próprio, manda matar outra. Ou manda zombar. Ou desqualifica uma mulher que foi eleita ou as pessoas que de fato trabalham pra um bem coletivo pra justiça social. Um país democrático, onde a gente possa ser a voz do povo, representar o povo e fazer política com o povo”, justificou seu estarrecimento.
“Eu tô indignada, eu tô triste, eu tô chateada, eu tô com raiva. Tô surpresa com muitas das informações que saíram hoje, mas também tô cada vez mais certa de que a gente tá no caminho correto, no lado certo da história, lutando por esse país, lutando por quem mais precisa, e sim defendendo o legado e a memória de Marielle, que não merecia, assim como ninguém, ser assassinada da maneira que foi”.
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