📷 Lee olha para Lula após a leitura de seu registro de entrada no Palácio do Alvorada, com dedicatória à amizade entre Coreia do Sul e Brasil / Imagem reprodução / KTV Imagine |•| URBS MAGNA
| Brasília
27 de julho de 2026
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, está em visita oficial ao Brasil nesta semana, após ter recebido o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Seul em fevereiro deste ano.
As semelhanças entre as trajetórias dos dois líderes são notáveis: ambos emergiram da extrema pobreza e construíram carreiras políticas a partir de movimentos sociais e sindicais.
“O menino de fábrica chegou à presidência”, resumiu um assessor de Lee após sua vitória eleitoral em junho de 2025.
Das fábricas à faculdade de Direito
Nascido em 1964 em Andong, uma cidade rural na província de Gyeongsang do Norte, Lee é o quinto de sete filhos de uma família extremamente pobre.
Seus pais limpavam banheiros públicos para sobreviver.
Após concluir o ensino fundamental, ele se mudou com a família para Seongnam e, aos 12 anos, começou a trabalhar em fábricas para sustentar a casa.
Lee trabalhou em uma fábrica de relógios por 200 wons por dia (cerca de 15 centavos de dólar) e, mais tarde, em uma fábrica de luvas de beisebol, onde sofreu um grave acidente de trabalho que esmagou seu punho e deixou seu braço esquerdo com uma deficiência permanente — o que também o isentou do serviço militar obrigatório.
Mesmo em condições adversas, Lee estudou por conta própria, fez exames de equivalência e, em 1982, ingressou na Universidade Chung-Ang, em Seul, com uma bolsa de estudos integral, graduando-se em Direito.
Em 1986, passou no concorrido exame da ordem dos advogados e tornou-se defensor público.
Advogado trabalhista e ativista social
Influenciado por uma palestra do ex-presidente Roh Moo-hyun, Lee decidiu seguir carreira como advogado de direitos humanos, abrindo um escritório em Seongnam em 1989.
Ele se envolveu em causas trabalhistas e comunitárias, tornando-se um ativista de destaque na região.
Sua atuação mais marcante nesse período foi a campanha pela construção de um hospital público municipal em Seongnam (a cidade ainda não tinha um), que ele liderou em 2004.
Apesar de ter coletado 20 mil assinaturas de apoio, o projeto foi barrado pela Câmara Municipal.
Lee viu nessa derrota o gatilho para sua entrada na política, pois percebeu que a mudança social exigiria poder político.
Trajetória política: prefeito, governador e presidente
Lee filiou-se ao precursor do atual Partido Democrata em 2005 e, após uma primeira tentativa frustrada, elegeu-se prefeito de Seongnam em 2010 — cargo para o qual foi reeleito em 2014.
Durante seus oito anos à frente da cidade, implementou políticas de bem-estar inovadoras, como uniformes escolares gratuitos, auxílio anual de 1 milhão de wons para jovens de 19 a 24 anos (“dividendo jovem”) e assistência pós-parto pública.
Ele também fechou o maior mercado de carne de cachorro do país.
Em 2018, foi eleito governador da província de Gyeonggi (a mais populosa da Coreia do Sul).
Durante seu mandato, introduziu o primeiro auxílio emergencial universal do país durante a pandemia de Covid-19.
Após perder por uma margem de apenas 0,76 ponto percentual para Yoon Suk Yeol na eleição presidencial de 2022, Lee foi eleito para a Assembleia Nacional e, em agosto do mesmo ano, tornou-se líder do Partido Democrata.
Em 2024, sobreviveu a uma tentativa de assassinato em Busan, quando um homem o esfaqueou no pescoço durante um evento público.
O agressor confessou que pretendia matá-lo para impedir que ele se tornasse presidente.
Em junho de 2025, Lee finalmente alcançou a presidência com uma vitória decisiva, obtendo mais de 50% dos votos.
Sua eleição foi convocada antecipadamente após o impeachment de Yoon Suk Yeol, que tentou impor a lei marcial em dezembro de 2024.
Durante aquela noite histórica, Lee transmitiu ao vivo sua escalada sobre as cercas do Parlamento para votar contra o decreto, em um vídeo que se tornou viral. “Foi uma corrida contra o tempo”, lembrou ele.
Paralelos com Lula
Assim como Lula, Lee Jae-myung construiu sua identidade política a partir da experiência da pobreza e do trabalho operário.
A ascensão de Lee da linha de produção à presidência ecoa a trajetória do líder brasileiro, que foi torneiro mecânico e líder sindical antes de chegar ao Planalto.
Ambos são vistos como símbolos de superação e defensores dos trabalhadores.
Durante sua campanha, Lee usou sua história de vida para cultivar uma base de apoio leal e se apresentar como alguém que compreende as dificuldades dos menos privilegiados.
Sua visita ao Brasil consolida essa aproximação. Além de assinar acordos em áreas como minerais críticos, energia, educação e tecnologia, Lee também pode visitar o sindicato de metalúrgicos em São Paulo — um gesto simbólico que reforça sua identidade operária.
Controvérsias e desafios
A trajetória de Lee não é isenta de controvérsias. Ele enfrenta múltiplos processos judiciais, incluindo acusações de corrupção em um escândalo imobiliário, e alegações de violação da lei eleitoral por divulgar informações falsas durante sua campanha de 2022.
Seus oponentes o descrevem como populista e de estilo confrontador.
Ele também prometeu uma agenda trabalhista ousada, incluindo a redução da jornada semanal para 36 horas e a aprovação do controverso “Yellow Envelope Act”, que amplia os direitos de greve e limita ações judiciais contra sindicatos.
Essas propostas, embora populares entre trabalhadores, geram resistência de grandes conglomerados (os chaebols) e de setores empresariais.
Dedicatória
Durante sua visita oficial ao Palácio do Planalto, o presidente da Coreia do Sul deixou sua mensagem registrada no livro de visitas do local.
Lee Jae-myung destacou o desejo de “dar continuidade à amizade eterna entre a Coreia e o Brasil” e reforçou o compromisso com “o futuro próspero que construiremos e abriremos juntos”.
O gesto simboliza o estreitamento dos laços bilaterais e a cooperação mútua entre as nações, com foco no desenvolvimento conjunto e na amizade duradoura.
O presidente Lee Jae-myung encerrará sua visita oficial ao Brasil na quarta-feira (29), após reuniões em Brasília e São Paulo.
A viagem de Estado reforça a parceria estratégica entre os dois países, com foco em comércio, tecnologia e transição energética.
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