Ela foi deposta por incapacidade para combater o crime organizado e por acusações de corrupção – José Jerí é o oitavo presidente do país nos últimos 10 anos – Entenda a turbulenta história recente da nação andina
Brasília, 10 de outubro 2025
O impeachment de Dina Boluarte culminou na noite de quinta-feira (10/out), quando o Congresso do Peru aprovou sua vacância com 122 votos a favor, sob a mesma causal de incapacidade moral, após ela não comparecer a uma sessão convocada.
Boluarte, ausente e sem vice-presidentes, foi removida por maioria esmagadora, em um processo expresso impulsionado por denúncias de corrupção, repressão a protestos e baixa popularidade (abaixo de 10%).
Como determina o artigo 115 da Constituição peruana, o presidente do Congresso, José Jerí Oré, 38, do partido Somos Peru, jurou como presidente interino até julho de 2026, tornando-se o oitavo líder em uma década.
Em seu discurso inicial, Jerí prometeu um “governo de transição, de empatia e de reconciliação nacional de ampla base“, declarando “guerra” às bandas criminosas que assolam o país – o principal problema de segurança, com alta de homicídios em Lima e províncias.
O Peru vive uma urgência de reformas institucionais, onde a vacância se tornou ferramenta política recorrente, erodindo a confiança pública – apenas 7% confiam no Congresso, segundo pesquisas.
Para os brasileiros, que acompanham de perto a vizinhança andina, essa crise ecoa lições sobre polarização e instituições frágeis – um lembrete de que a democracia sul-americana exige vigilância constante.
Para entender esta nova bomba no Peru, é essencial voltar aos últimos 10 anos de uma das democracias mais instáveis da América Latina.
RECEBA NOSSAS ÚLTIMAS NOTÍCIAS EM SEU E-MAIL
Desde 2016, o país andino registrou sete presidentes – um recorde de rotatividade impulsionado por escândalos de corrupção, vacâncias constitucionais e protestos violentos.
Tudo começou com a renúncia de Pedro Pablo Kuczynski em 2018, acusado de suborno pela Odebrecht, seguido pela ascensão de Martín Vizcarra, que dissolveu o Congresso em 2019 para combater a corrupção, mas foi vacado em 2020 por “incapacidade moral“.
Em seguida, veio o breve e controverso mandato de Manuel Merino, que permaneceu no poder por apenas cinco dias, tendo sido derrubado por protestos. Na sequência, foi a vez do interino Francisco Sagasti (2020-2021), e as eleições de 2021 que elegeram Pedro Castillo, um professor rural de esquerda.
O governo Castillo também durou pouco: em dezembro de 2022, ele tentou um autogolpe ao dissolver o Congresso, resultando em sua prisão por rebelião. Dina Boluarte, que era sua vice, assumiu, mas enfrentou ondas de protestos em 2022-2023 com mais de 60 mortes, acusações de repressão excessiva e denúncias de corrupção, como o “caso Rolex“.
Essa sucessão de crises, alimentada pela fragmentação partidária e pela cláusula constitucional de vacância por “incapacidade moral permanente” (artigo 113), transformou o Peru em um ciclo vicioso de instabilidade, com o Congresso – dominado por bancadas conservadoras – atuando como árbitro supremo.
Apesar do otimismo do novo presidente do Peru, sua ascensão é polêmica: José Jerí é investigado por denúncias de violação sexual em Canta (2025), enriquecimento ilícito e desobediência judicial.
Jerí enfrenta ceticismo sobre sua capacidade de unir uma nação dividida. A impressão é a de que no Peru não há alguém com moral e disposição o suficiente para comandar o país.
O Congresso rejeitou uma moção de censura contra Jeré (58 contra 34), garantindo estabilidade imediata, mas analistas alertam para riscos de novos protestos.







