Janio diz que se restos de Bruno e Dom não fossem encontrados por indígenas, estes seriam acusados

“Pressa com que a PF comunicou não haver mandante sinaliza necessidade de fazê-lo”, escreveu o jornalista, na Folha

O “fim trágico” do indigenista Bruno e do colaborador do jornal inglês The Guardian, é a “morte de dois inimigos” e “é um êxito” para o presidente Jair Bolsonaro (PL), escreveu o jornalista Janio de Freitas, no jornal Folha de S. Paulo, completando que a “pressa com que a PF comunicou não haver mandante sinaliza necessidade de fazê-lo. (…) Dom e Bruno foram localizados em seu fim. Não pela busca oficial. Por indígenas, em busca voluntária. Mas não convinha localizá-los. Desaparecidos, permitiriam acusar os indígenas pelo desaparecimento vingativo”.

Um êxito a mais no colar dos êxitos de destruição“, diz o colunista, acrescentando que este “êxito não é só de Bolsonaro. (…) A Amazônia (…) é uma teia de criminalidades diferentes” que “penetra nas instituições do Estado e de governo, em especial no sistema de segurança“.

Freitas afirma que há uma omissão em lugar de tentativas de solucionamento e que “essa omissão encontrou em Bolsonaro a oportunidade e sobretudo os motivos para ser como um plano oficial, comum a várias instâncias do poder político e da administração pública. Nada é ocasional nessa meta. É uma conjugação de condutas e fatores que os assassinatos de Dom e Bruno vieram desnudar como nunca“.

O jornalista lembra que há quase três meses “a emergência da situação conflituosa no Vale do Javari foi informada, por relatórios de procedências sérias, ao Ministério da Justiça/Polícia Federal, ao Ministério Público federal e estadual, às polícias estaduais, ao Ibama e à Funai. Daí, não cabe dúvida, de que as informações logo chegaram às secretarias da Presidência da República com atribuições de segurança. Também não é admissível que o Exército, se não as três forças, tenha recebido as informações. Em vão, ainda“.

Leia os principais trechos do artigo de Janio de Freitas:

Nem um só desses setores da responsabilidade nacional e estadual moveu-se para sustar os desdobramentos previstos da situação e tratar de solucioná-la em tempo. A omissão não foi por coincidência recordista. Foi por utilidade. Foi e é uma prova de que essa enorme parte de governo e representações do Estado segue, por suas direções, uma orientação que as conjuga no mesmo objetivo e na mesma conduta”.

É a teia superior. Resultado da infiltração de dirigentes e influentes selecionados e nomeados por Bolsonaro, em substituição aos alheios às diretrizes desligadas do interesse público. Bruno foi um dos milhares de afastados, ele por destruir balsas do garimpo ilegal. Vive-se uma alucinação coletiva. Quem comunicou a “localização de remanescentes humanos”, de Dom e Bruno, foi o ministro da Justiça, delegado Anderson Torres. E o fez por uma rede social na quarta (15), não por meios oficiais”.

O presidente da Funai, Marcelo Xavier da Silva, delegado da PF depois de nela reprovado em exame psicotécnico, sujeito de boletim de ocorrência por um soco no rosto do pai de 71 anos, foi o segundo a mentir sobre o ocorrido com Bruno e Dom: acusou-os, seguindo o chefe Bolsonaro, do crime de estarem em reserva indígena sem autorização, portanto, invasores. Não estavam nem estiveram na reserva. Mas a mentira, além de ser a própria Funai culpando seu indigenista, foi significativa insinuação do desaparecimento como reação indígena a invasores”.

Superintendente Regional da PF, o delegado Alexandre Fontes é o segundo sucessor do delegado Alexandre Saraiva, destituído por acusar Ricardo Salles, então ministro do Meio Ambiente, de favorecer a retirada ilegal e o contrabando de madeira da Amazônia. Fontes deveria ser o primeiro a agir quando relatada a urgência no Vale do Javari. Ficou nos últimos. Sua explicação dos fatos foi um rol fraudulento de louvações aos infiéis às próprias funções. Fontes tem muito a explicar, de antes, durante e depois do crime recente”.

Por fim, Janio de Freitas afirma que o governo Bolsonaro deve explicações á Justiça sobre “a teia dos gabinetes e dos comandos, a serviço (…) do tráfico de drogas e de armas, garimpo de ouro e vários minerais preciosos, da fauna, da extração de madeira e do contrabando de tudo isso. Por isso a PF não nega mandante ou organização criminosa na tragédia“.

“As primeiras palavras de Bolsonaro pareceram abrir a versão, definindo as duas presenças no Vale do Javari como “aventura perigosa” de “detestados pelos indígenas”, ambos “sem autorização para entrar na reserva”. As teias agiram seguindo Bolsonaro”.

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