
Reunião ministerial de 2020 serviu para demonstrar que já havia uma “preparação de golpe“, diz Eliane Cantanhêde – SAIBA MAIS
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Brasília, 19 de junho de 2025
No dia 22 de abril de 2020, um encontro tenso nos salões do Palácio do Planalto escancarou as entranhas de um governo acusado de distorcer o papel do Estado em benefício próprio. Aquele debate, que antecedeu a saída do então ministro da Justiça Sérgio Moro, revelou um jogo perigoso: a suposta manipulação de órgãos federais para blindar aliados e perseguir desafetos.
Na esteira das investigações da Polícia Federal sobre a chamada ‘Abin Paralela‘, a comentarista da GloboNews, Eliane Cantanhêde, chamou a atenção (assista ao vídeo no final da matéria) para aquele famigerado encontro, que também acabou viralizando nas redes sociais, com memes produzidos por conta das inúmeras palavras de baixo calão proferidas pelo então presidente Jair Bolsonaro.
Naquela manhã, o hoje inelegível até 2030 e réu por tentativa de golpe de Estado, não disfarçou a irritação. Reclamou abertamente que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a Polícia Federal e até as Forças Armadas falhavam em fornecer dados que, em sua visão, protegeriam sua família e correligionários.
Num tom revelador, soltou a frase: “Eu tenho o meu serviço de inteligência particular“. A declaração acendeu o alerta sobre uma possível estrutura clandestina, usada para vasculhar a vida de opositores e coletar munição política.
O ex-presidente deixou claro que não admitiria investigações contra seus filhos—Carlos e Flávio Bolsonaro—ou contra figuras próximas. Fez até ameaças veladas: se não obtivesse o que queria, interviria diretamente em pastas como a da Justiça. Dois dias depois, Moro renunciou, citando pressões indevidas sobre a PF. O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF), sob a relatoria do ministro Celso de Mello.
Carlos Bolsonaro, vereador no Rio e filho do ex-presidente, era apontado como o chefe de um grupo informal batizado de “gabinete do ódio”. Segundo apurações, esse núcleo atuava nos bastidores do Palácio, listando alvos a serem combatidos—deputados, jornalistas, juízes e até ministros do STF, como Alexandre de Moraes. Os nomes eram repassados à Abin, que, sob o comando de Alexandre Ramagem (aliado dos Bolsonaro), usava sistemas como o First Mile para espionar ilegalmente, sem ordem judicial.
A PF apurou que a Abin havia virado um braço político, com relatórios indicando que sua função original foi deturpada. O objetivo era o de criar dossiês, espalhar desinformação e abafar escândalos envolvendo a família presidencial – como as suspeitas de “rachadinha” contra Flávio Bolsonaro e os indícios de tráfico de influência ligados a Jair Renan.
A situação lembrava práticas de regimes autoritários, em que serviços de inteligência viram instrumentos de perseguição. A jornalista Eliane Cantanhêde resumiu o clima: “Se isso não é crime, o que é?“. O paralelo com a ditadura militar era inevitável – afinal, naquela época, o Estado também vigiava e calava vozes dissidentes.
Quando o STF liberou a gravação da reunião, em maio de 2020, o impacto foi imediato. Parlamentares como Joice Hasselmann (PSL-SP) denunciaram que Bolsonaro admitira, ali, querer controlar investigações. Partidos de oposição – PT, PCdoB, PSOL – classificaram o governo como “antidemocrático”, acusando-o de minar as instituições.
As apurações continuam. Em 2024, vazaram áudios de Bolsonaro, Ramagem e o general Augusto Heleno discutindo o uso da Abin para ajudar Flávio Bolsonaro. Cada nova revelação reforça a tese de que houve um projeto sistemático para corromper o Estado.
O episódio da reunião de 2020 não foi um deslize, mas um sintoma. Mostrou como estruturas públicas podem ser torcidas para servir a interesses privados, corroendo a democracia.











