A nova publicação do The Intercept Brasil desta quinta (29) traz diÔlogos que comprovam que Deltan Dallagnol é um mentiroso. O procurador negou, mas a Lava Jato vazou informações das investigações para a imprensa com a finalidade de intimidação de suspeitos e manipulação das delações. Leia a transcrição a seguir:

Procuradores da força-tarefa da Lava Jato usaram vazamentos com o objetivo de manipular suspeitos, fazendo-os acreditar que sua denúncia era inevitÔvel, mesmo quando não era. O intuito, eles disseram explicitamente em chats do Telegram, era intimidar seus alvos para que eles fizessem delações.
Além de ética questionÔvel, esse tipo de vazamento prova que o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, mentiu ao público ao negar categoricamente que agentes públicos passassem informações da operação. Dallagnol participou de grupos nos quais os vazamentos foram planejados, discutidos e realizados. Em um deles, o próprio coordenador efetuou o tipo exato de vazamento que ele negou publicamente que partisse da força-tarefa.
Um exemplo ilustrativo desse mĆ©todo ocorreu relativamente cedo nas operaƧƵes. Em 21 de junho de 2015, o procurador da Lava Jato Orlando Martello enviou a seguinte pergunta ao colega Carlos Fernando Santos Lima, no grupo FT MPF Curitiba 2, que reĆŗne membros da forƧa-tarefa: āqual foi a estratĆ©gia de revelar os próximos passos na EletrobrĆ”s etc?ā. Santos Lima disse nĆ£o saber do que Martello estava falando, mas, com escancarada franqueza, afirmou: āmeus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigaƧƵes sĆ£o inevitĆ”veis e incentivar a colaboração.ā
PelaĀ lei das organizaƧƵes criminosasĀ (que estipulou regras para as delaƧƵes premiadas), o acordo só pode ser aceito caso a pessoa tenha colaborado āefetiva e voluntariamenteā. Mas o procurador confessou aos colegas que usava a imprensa para forjar um ambiente hostil e, com isso, conseguir delaƧƵes por meio de manipulação ā o que interfere em seu carĆ”ter voluntĆ”rio.
21 de junho de 2015 ā Grupo FT MPF Curitiba 2

Orlando Martello ā 09:03:04 ā CF(leaks) qual foi a estratĆ©gia de revelar os próximos passos na EletrobrĆ”s etc?
Carlos Fernando dos Santos Lima ā 09:10:08 āhttp://m.politica.estadao.com.br/noticias/geral,na-mira-do-chefe-,1710379
Santos Lima ā 09:12:21 ā Nem sei do que estĆ” falando, mas meus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigaƧƵes sĆ£o inevitĆ”veis e incentivar a colaboração.
Santos Lima ā 09:15:37 ā Li a notĆcia do Flores na outra lista. Apenas noticia requentada.
Santos Lima ā 09:18:16 ā AliĆ”s, o Moro me disse que vai ter que usar esta semana o termo do Avancini sobre Angra
Martello ā 09:25:33 ā CFleaks, nĆ£o queremos fazer baem Angra e EletrobrĆ”s? Pq alertou para este fato na coletiva?
Martello ā 09:26:00 ā Para nĆ£o perder o costume?
A conversa ocorreu dois dias depois da 14ĀŖ fase da Lava Jato (voltada Ć s empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez). Os procuradores estavam debatendo estratĆ©gias para conseguir um acordo de delação com Bernardo Freiburghaus, apontado como operador de propinas da Odebrecht. Freiburghaus escapou da operação, porque havia se mudado para a SuĆƧa em 2014 e jĆ” havia contra ele uma ordem de prisĆ£o preventiva com alerta da Interpol.
No chat, Santos Lima assume, sem qualquer constrangimento, que vazava informaƧƵes para a imprensa. AlĆ©m disso, o seu próprio comentĆ”rio, insinua que se tratava de uma prĆ”tica habitual, dado que ele se refere aos vazamentos no plural ā āmeus vazamentosā. E o procurador afirma com aparente orgulho e convicção que agia assim com objetivos bem definidos: induzir os suspeitos a agirem de acordo com seus interesses.

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress
à relevante ressaltar que o comentÔrio do procurador não suscitou qualquer manifestação dos outros membros da Lava Jato. No decorrer das conversas, os demais membros do grupo permaneceram calados.
No mesmo dia, Deltan e Orlando anunciaram no chat terem vazado a informação de que os Estados Unidos iriam ajudar a investigar Bernardo para repórteres do Estadão, como forma de pressionar o investigado. Eles estavam antecipando a um jornalista uma movimentação da investigação. Foi Dallagnol o responsÔvel pelo vazamento, como mostra sua conversa como o repórter do jornal.
21 de junho de 2015 ā Chat privado

Deltan Dallagnol ā 11:43:49 ā O operador da Odebrecht era o Bernardo, que estĆ” na SuĆƧa. Os EUA atuarĆ£o a nosso pedido, porque as transaƧƵes passaram pelos EUA. JĆ” atĆ© fizemos um pedido de cooperação pros EUA relacionado aos depósitos recebidos por PRC. Isso Ć© novidade. Vc tem interesse de publicar isso hoje ou amanhĆ£,SUPRIMIDO, mantendo meu nome em off? Pode falar fonte no MPF. Na coletiva, o Igor disse que hĆ” difusĆ£o vermelha para prendĆŖ-lo, e hĆ” mesmo. Pode ser preso em qualquer lugar do mundo. Agora com os EUA em ação, o que Ć© novidade, vamos ver se conseguimos fazer como caso FIFA com o Bernardo, o que nos inspirou.
SUPRIMIDO ā 11:45:44 ā Putz sensacional! !!!! Publico hj!!!!!!!
A conversa prossegue, e o repórter avisa que a matéria sobre a ajuda dos americanos no caso Odebrecht (que não estava formalizada à época) seria manchete do Estadão no dia seguinte.
De volta ao grupo FT MPF Curitiba 2, uma conversa entre os dias 21 e 22 detalha as intenções da força-tarefa em relação a Bernardo:
21 de junho de 2015 ā Grupo FT MPF Curitiba 2

Deltan Dallagnol ā 20:33:52 ā AmanhĆ£ cooperação com EUA pro Bernardo Ć© manchete do EstadĆ£o
Dallagnol ā 20:34:00 ā Confirmado
Carlos Fernando dos Santos Lima ā 20:55:16 ā Tentei ler, mas nĆ£o deu. AmanhĆ£ vejo. Vamos controlar a mĆdia de perto. Tenho um espaƧo na FSP, quem sabe possamos usar se precisar.
A informação vazada pela força-tarefa de fato virou manchete do jornal, e os métodos de pressão sobre o delator são retomados pouco depois, no mesmo chat:
22 de junho de 2015 ā Grupo FT MPF Curitiba 2

Deltan Dallagnol ā 01:56:40 ā Acho que temos que aditar para bloquear os bens dele na SuĆƧa
Dallagnol ā 01:56:48 ā Conta, Imóvel e outros ativos
Dallagnol ā 01:57:00 ā Ir lĆ” e dizer que ele perderĆ” tudo
Dallagnol ā 01:57:20 ā Colocar ele de joelhos e oferecer redenção. NĆ£o tem como ele nĆ£o pegar
No fim das contas, a estratégia fracassou, e Bernardo Freiburghaus não delatou.
O que faz disso ainda mais relevante Ć© que Dallagnol tem negado publicamente que os membros da Lava Jato tenham feito qualquer vazamento. Numa entrevista para a BBC Brasil, após um discurso que ele proferiu em Harvard, em abril de 2017, Dallagnol ādisse que agentes pĆŗblicos nĆ£o vazam informaƧƵes ā a brecha estaria no acesso inevitĆ”vel a dados secretos por rĆ©us e seus defensoresā. Quando perguntado diretamente se a forƧa-tarefa havia cometido vazamentos, o procurador respondeu: āNos casos em que apenas os agentes pĆŗblicos tinham acesso aos dados, as informaƧƵes nĆ£o vazaramā.
A assessoria de imprensa da Lava Jato negou que os procuradores tenham vazado informaƧƵes no caso do EstadĆ£o, dizendo ao Intercept que a forƧa-tarefa ājamais vazou informaƧƵes sigilosas para a imprensa, ao contrĆ”rio do que sugere o questionamento recebidoā. Para justificar essa negativa, a forƧa-tarefa argumenta que uma informação passada Ć imprensa deve ser ilegal ou violar uma ordem judicial para ser caracterizada como āvazamentoā. Nesse sentido, a forƧa-tarefa argumenta que o material enviado por Dallagnol ao EstadĆ£o nĆ£o violou, na sua visĆ£o, nem a lei nem ordem judicial, e que por isso nĆ£o pode ser considerado vazamento.
Entretanto, essa reportagem nĆ£o alega nem sugere que Dallagnol ou Santos Lima tenham cometido o crime de violação do sigilo funcional ou desobedecido ordens judiciais ao vazar para a imprensa informaƧƵes que nĆ£o eram de conhecimento pĆŗblico. O argumento da reportagem Ć© que eles fizeram exatamente o que Dallagnol afirmou Ć BBC que nunca faziam: vazaram informaƧƵes privilegiadas sobre as investigaƧƵes que o pĆŗblico e a mĆdia desconheciam para atingir seus objetivos.āAlguma chance de soltarmos a notĆcia da GOL?ā
Para defender Dallagnol das evidĆŖncias claras de que ele mentiu, a forƧa-tarefa estĆ” tentando inventar uma nova definição de āvazamentoā, um significado que só considera vazamento o que envolve uma violação da lei ou de uma ordem judicial. Mas nĆ£o Ć© isso que a maioria das pessoas entende como vazamento. Em sua entrevista Ć BBC Brasil, Dallagnol nĆ£o negou que a forƧa-tarefa realizasse vazamentos ilegais: ele negou que a forƧa-tarefa tenha realizado quaisquer vazamentos: āagentes pĆŗblicos nĆ£o vazam informaƧƵesā, ele disse, completando: āNos casos em que apenas os agentes pĆŗblicos tinham acesso aos dados, as informaƧƵes nĆ£o vazaramā.
A insistĆŖncia da forƧa-tarefa de que nunca realizou nenhum vazamento Ć© especialmente bizarra tendo em vista que o próprio Santos Lima alardeou ter feito exatamente isso, usando a justamente palavra vazamento: āmeus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigaƧƵes sĆ£o inevitĆ”veis e incentivar a colaboraçãoā, escreveu, o que demonstra que nem os próprios procuradores entendem a palavra āvazamentoā da forma que eles agora definem. AlĆ©m disso, em sua conversa com o repórter do EstadĆ£o, Dallagnol descreveu a informação que ele estava enviando, sobre a proposta de colaboração com os EUA, como ānovidadeā, e por essa razĆ£o insistiu que a informação que ele enviou só poderia ser publicada āmantendo meu nome em offā. Se a informação jĆ” era pĆŗblica, como defende a Lava Jato por meio de sua assessoria, por que pedir off?
AlĆ©m disso, a própria nota enviada ao Intercept admite que os procuradores adiantaram uma ação da investigação ao EstadĆ£o ā uma informação privilegiada, portanto, ainda que nĆ£o protegida por sigilo judicial formalizado. āO Ćŗnico caso mencionado na consulta Ć forƧa-tarefa se refere a uma reportagem do EstadĆ£o que combinava dados disponĆveis em processos pĆŗblicos e uma informação nova, igualmente sem sigilo, sobre possĆveis estratĆ©gias que se cogitavam adotar no futuro, em relação Ć formulação de pedido de cooperação a ser enviado, o que nĆ£o caracteriza vazamentoā, diz a nota. De fato, a colaboração com a SuĆƧa citada na reportagem era pĆŗblica, mas a āinformação novaā (o pedido de ajuda aos EUA que foi a manchete do jornal) nĆ£o era pĆŗblica porque nem sequer havia sido formalizada atĆ© a publicação do texto.
Dessa forma, a negativa da forƧa-tarefa de que os procuradores fizeram exatamente o que Deltan falsamente insistiu que nunca fizeram ā vazar para a mĆdia informaƧƵes que nĆ£o eram de conhecimento pĆŗblico ā Ć© desmentida pelas próprias palavras dos procuradores, conforme publicadas no chat acima, em que eles mesmos descrevem suas aƧƵes como āvazamentosā. Ć tambĆ©m desmentida pela insistĆŖncia de Dallagnol ao repórter que as informaƧƵes passadas ao EstadĆ£o nĆ£o fossem atribuĆdas a ele. Ć desmentida ainda pelos repetidos episódios em que os procuradores admitem ter vazado Ć mĆdia informaƧƵes sobre as investigaƧƵes, quase sempre usando especificamente a palavra āvazamentosā que eles agora buscam redefinir. E Ć© desmentida, por fim, pela nota enviada ao Intercept.
VAZAMENTO SELETIVO

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Esses vazamentos nĆ£o eramĀ casos isolados. Em 2016, procuradores da Lava Jato falavam abertamente sobre o uso de āvazamento seletivoā para mĆdia com a intenção de influenciar e manipular um suposto pedido de liberdade para o ex-presidente da CĆ¢mara Eduardo Cunha:
12 de dezembro de 2016 ā Grupo Filhos do Januario 1

Carlos Fernando dos Santos Lima ā 18:45:31 ā Recebi do russo : Off recebi uma notĆcia que nĆ£o sei se Ć© verdadeira que haveria uma articulação no STF para soltura do Cunha amanhĆ£
Roberson Pozzobon ā 18:51:49 ā Essa info estĆ” circulando aqui a PGR tb
Paulo Roberto GalvĆ£o ā 18:57:24 ā O Stf seria depredado. NĆ£o acredito
Athayde Ribeiro Costa ā 18:57:40 ātoffi, lewa e gm. nao duvido
Santos Lima ā 18:58:37 ā Ć preciso ver quem vai fazer a sessĆ£o.
Jerusa Viecilli ā 18:58:39 ā Pqp
Santos Lima ā19:00:58 ā Alguma chance de soltarmos a notĆcia da GOL?
Costa ā 19:01:35 ā vazamento seletivo ā¦
Os diĆ”logos provam que ele mentiu Ć BBC. A negativa aconteceu depois de Dallagnol ter participado de vĆ”rias conversas nas quais seus colegas de forƧa-tarefa discutiram explicitamente fazer aquilo que ele negava publicamente. Isto Ć©, promover vazamentos e usar a mĆdia para seus próprios interesses. Ironicamente, o próprio Dallagnol observou Ć BBC o quĆ£o complexa Ć© a tarefa de provar que houve vazamentos, pois, segundo ele, os envolvidos sempre negam: āĆ muito difĆcil identificar qual Ć© o ponto (de origem do vazamento), porque se vocĆŖ ouvir essas pessoas, elas vĆ£o negarā, afirmou.
Leia Nossa Cobertura CompletaAs mensagens secretas da Lava Jato
As conversas fazem parte de um pacote de mensagens que o Intercept comeƧou a revelar em 9 de junho ā sĆ©rie conhecida como Vaza Jato. Os arquivos reĆŗnem chats, fotos, Ć”udios e documentos de procuradores da Lava Jato compartilhados em vĆ”rios grupos e chats privados do aplicativo Telegram. A declaração conjunta dos editores do The Intercept e do Intercept Brasil (clique para ler o texto completo) explica os critĆ©rios editoriais usados para publicar esses materiais.



Achei muita audÔcia dessa corja de psicopatas comandada pelo Chefão da Mafia dos procuradores psicopatas, e muita tristeza pela injustiça e maldade com Lula, Quanto ao Intercept, louvado seja o meu Deus pela vida de todos vocês que com responsabilidade e muita coragem desmascararam esses bandidos transvestidos de homens da lei. Glenn é nosso orgulho por isso nosso MUITO OBRIGADA! Deus vos proteja SEMPRE!
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