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Intercept bomba na madrugada desta quinta (29) ā€˜VAZAMENTO SELETIVO … šŸ™ˆā€™ Dallagnol mentiu: Lava Jato vazou sim informaƧƵes das investigaƧƵes para a imprensa — Ć s vezes para intimidar suspeitos e manipular delaƧƵes


    A nova publicação do The Intercept Brasil desta quinta (29) traz diÔlogos que comprovam que Deltan Dallagnol é um mentiroso. O procurador negou, mas a Lava Jato vazou informações das investigações para a imprensa com a finalidade de intimidação de suspeitos e manipulação das delações. Leia a transcrição a seguir:


    via The Intercept Brasil


    Procuradores da força-tarefa da Lava Jato usaram vazamentos com o objetivo de manipular suspeitos, fazendo-os acreditar que sua denúncia era inevitÔvel, mesmo quando não era. O intuito, eles disseram explicitamente em chats do Telegram, era intimidar seus alvos para que eles fizessem delações.


    Além de ética questionÔvel, esse tipo de vazamento prova que o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, mentiu ao público ao negar categoricamente que agentes públicos passassem informações da operação. Dallagnol participou de grupos nos quais os vazamentos foram planejados, discutidos e realizados. Em um deles, o próprio coordenador efetuou o tipo exato de vazamento que ele negou publicamente que partisse da força-tarefa.

    Um exemplo ilustrativo desse mĆ©todo ocorreu relativamente cedo nas operaƧƵes. Em 21 de junho de 2015, o procurador da Lava Jato Orlando Martello enviou a seguinte pergunta ao colega Carlos Fernando Santos Lima, no grupo FT MPF Curitiba 2, que reĆŗne membros da forƧa-tarefa: ā€œqual foi a estratĆ©gia de revelar os próximos passos na EletrobrĆ”s etc?ā€. Santos Lima disse nĆ£o saber do que Martello estava falando, mas, com escancarada franqueza, afirmou: ā€œmeus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigaƧƵes sĆ£o inevitĆ”veis e incentivar a colaboração.ā€

    PelaĀ lei das organizaƧƵes criminosasĀ (que estipulou regras para as delaƧƵes premiadas), o acordo só pode ser aceito caso a pessoa tenha colaborado ā€œefetiva e voluntariamenteā€. Mas o procurador confessou aos colegas que usava a imprensa para forjar um ambiente hostil e, com isso, conseguir delaƧƵes por meio de manipulação — o que interfere em seu carĆ”ter voluntĆ”rio.


    21 de junho de 2015 – Grupo FT MPF Curitiba 2
    Orlando Martello ā€“ 09:03:04 – CF(leaks) qual foi a estratĆ©gia de revelar os próximos passos na EletrobrĆ”s etc?
    Carlos Fernando dos Santos Lima ā€“ 09:10:08 –http://m.politica.estadao.com.br/noticias/geral,na-mira-do-chefe-,1710379
    Santos Lima – 09:12:21 – Nem sei do que estĆ” falando, mas meus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigaƧƵes sĆ£o inevitĆ”veis e incentivar a colaboração.
    Santos Lima – 09:15:37 – Li a notĆ­cia do Flores na outra lista. Apenas noticia requentada.
    Santos Lima – 09:18:16 – AliĆ”s, o Moro me disse que vai ter que usar esta semana o termo do Avancini sobre Angra
    Martello – 09:25:33 – CFleaks, nĆ£o queremos fazer baem Angra e EletrobrĆ”s? Pq alertou para este fato na coletiva?
    Martello – 09:26:00 – Para nĆ£o perder o costume?

    A conversa ocorreu dois dias depois da 14ĀŖ fase da Lava Jato (voltada Ć s empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez). Os procuradores estavam debatendo estratĆ©gias para conseguir um acordo de delação com Bernardo Freiburghaus, apontado como operador de propinas da Odebrecht. Freiburghaus escapou da operação, porque havia se mudado para a SuƭƧa em 2014 e jĆ” havia contra ele uma ordem de prisĆ£o preventiva com alerta da Interpol.

    No chat, Santos Lima assume, sem qualquer constrangimento, que vazava informaƧƵes para a imprensa. AlĆ©m disso, o seu próprio comentĆ”rio, insinua que se tratava de uma prĆ”tica habitual, dado que ele se refere aos vazamentos no plural — ā€œmeus vazamentosā€. E o procurador afirma com aparente orgulho e convicção que agia assim com objetivos bem definidos: induzir os suspeitos a agirem de acordo com seus interesses.


    Carlos Santos Lima no seminĆ”rio sobre Ɖtica, MĆ­dia e TransparĆŖncia
    Carlos Fernando dos Santos Lima, quando era membro da Lava Jato: ā€˜meus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigaƧƵes sĆ£o inevitĆ”veis e incentivar a colaboração’.
    Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

    Ɖ relevante ressaltar que o comentĆ”rio do procurador nĆ£o suscitou qualquer manifestação dos outros membros da Lava Jato. No decorrer das conversas, os demais membros do grupo permaneceram calados.

    No mesmo dia, Deltan e Orlando anunciaram no chat terem vazado a informação de que os Estados Unidos iriam ajudar a investigar Bernardo para repórteres do Estadão, como forma de pressionar o investigado. Eles estavam antecipando a um jornalista uma movimentação da investigação. Foi Dallagnol o responsÔvel pelo vazamento, como mostra sua conversa como o repórter do jornal.


    21 de junho de 2015 – Chat privado
    Deltan Dallagnol ā€“ 11:43:49 – O operador da Odebrecht era o Bernardo, que estĆ” na SuƭƧa. Os EUA atuarĆ£o a nosso pedido, porque as transaƧƵes passaram pelos EUA. JĆ” atĆ© fizemos um pedido de cooperação pros EUA relacionado aos depósitos recebidos por PRC. Isso Ć© novidade. Vc tem interesse de publicar isso hoje ou amanhĆ£,SUPRIMIDO, mantendo meu nome em off? Pode falar fonte no MPF. Na coletiva, o Igor disse que hĆ” difusĆ£o vermelha para prendĆŖ-lo, e hĆ” mesmo. Pode ser preso em qualquer lugar do mundo. Agora com os EUA em ação, o que Ć© novidade, vamos ver se conseguimos fazer como caso FIFA com o Bernardo, o que nos inspirou.
    SUPRIMIDO ā€“ 11:45:44 – Putz sensacional! !!!! Publico hj!!!!!!!

    A conversa prossegue, e o repórter avisa que a matéria sobre a ajuda dos americanos no caso Odebrecht (que não estava formalizada à época) seria manchete do Estadão no dia seguinte.

    De volta ao grupo FT MPF Curitiba 2, uma conversa entre os dias 21 e 22 detalha as intenções da força-tarefa em relação a Bernardo:


    21 de junho de 2015 – Grupo FT MPF Curitiba 2
    Deltan Dallagnol – 20:33:52 – AmanhĆ£ cooperação com EUA pro Bernardo Ć© manchete do EstadĆ£o
    Dallagnol – 20:34:00 – Confirmado
    Carlos Fernando dos Santos Lima – 20:55:16 – Tentei ler, mas nĆ£o deu. AmanhĆ£ vejo. Vamos controlar a mĆ­dia de perto. Tenho um espaƧo na FSP, quem sabe possamos usar se precisar.

    informação vazada pela forƧa-tarefa de fato virou manchete do jornal, e os mĆ©todos de pressĆ£o sobre o delator sĆ£o retomados pouco depois, no mesmo chat:


    22 de junho de 2015 – Grupo FT MPF Curitiba 2
    Deltan Dallagnol – 01:56:40 – Acho que temos que aditar para bloquear os bens dele na SuƭƧa
    Dallagnol – 01:56:48 – Conta, Imóvel e outros ativos
    Dallagnol – 01:57:00 – Ir lĆ” e dizer que ele perderĆ” tudo
    Dallagnol – 01:57:20 – Colocar ele de joelhos e oferecer redenção. NĆ£o tem como ele nĆ£o pegar

    Capa do jornal Estado de S. Paulo em 22 de junho de 2015.

    No fim das contas, a estratégia fracassou, e Bernardo Freiburghaus não delatou.

    O que faz disso ainda mais relevante Ć© que Dallagnol tem negado publicamente que os membros da Lava Jato tenham feito qualquer vazamento. Numa entrevista para a BBC Brasil, após um discurso que ele proferiu em Harvard, em abril de 2017, Dallagnol ā€œdisse que agentes pĆŗblicos nĆ£o vazam informaƧƵes — a brecha estaria no acesso inevitĆ”vel a dados secretos por rĆ©us e seus defensoresā€. Quando perguntado diretamente se a forƧa-tarefa havia cometido vazamentos, o procurador respondeu: ā€œNos casos em que apenas os agentes pĆŗblicos tinham acesso aos dados, as informaƧƵes nĆ£o vazaramā€.

    A assessoria de imprensa da Lava Jato negou que os procuradores tenham vazado informaƧƵes no caso do EstadĆ£o, dizendo ao Intercept que a forƧa-tarefa ā€œjamais vazou informaƧƵes sigilosas para a imprensa, ao contrĆ”rio do que sugere o questionamento recebidoā€. Para justificar essa negativa, a forƧa-tarefa argumenta que uma informação passada Ć  imprensa deve ser ilegal ou violar uma ordem judicial para ser caracterizada como ā€œvazamentoā€. Nesse sentido, a forƧa-tarefa argumenta que o material enviado por Dallagnol ao EstadĆ£o nĆ£o violou, na sua visĆ£o, nem a lei nem ordem judicial, e que por isso nĆ£o pode ser considerado vazamento.

    Entretanto, essa reportagem nĆ£o alega nem sugere que Dallagnol ou Santos Lima tenham cometido o crime de violação do sigilo funcional ou desobedecido ordens judiciais ao vazar para a imprensa informaƧƵes que nĆ£o eram de conhecimento pĆŗblico. O argumento da reportagem Ć© que eles fizeram exatamente o que Dallagnol afirmou Ć  BBC que nunca faziam: vazaram informaƧƵes privilegiadas sobre as investigaƧƵes que o pĆŗblico e a mĆ­dia desconheciam para atingir seus objetivos.ā€˜Alguma chance de soltarmos a notĆ­cia da GOL?’

    Para defender Dallagnol das evidĆŖncias claras de que ele mentiu, a forƧa-tarefa estĆ” tentando inventar uma nova definição de ā€œvazamentoā€, um significado que só considera vazamento o que envolve uma violação da lei ou de uma ordem judicial. Mas nĆ£o Ć© isso que a maioria das pessoas entende como vazamento. Em sua entrevista Ć  BBC Brasil, Dallagnol nĆ£o negou que a forƧa-tarefa realizasse vazamentos ilegais: ele negou que a forƧa-tarefa tenha realizado quaisquer vazamentos: ā€œagentes pĆŗblicos nĆ£o vazam informaƧƵesā€, ele disse, completando: ā€œNos casos em que apenas os agentes pĆŗblicos tinham acesso aos dados, as informaƧƵes nĆ£o vazaramā€.

    A insistĆŖncia da forƧa-tarefa de que nunca realizou nenhum vazamento Ć© especialmente bizarra tendo em vista que o próprio Santos Lima alardeou ter feito exatamente isso, usando a justamente palavra vazamento: ā€œmeus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigaƧƵes sĆ£o inevitĆ”veis e incentivar a colaboraçãoā€, escreveu, o que demonstra que nem os próprios procuradores entendem a palavra ā€œvazamentoā€ da forma que eles agora definem. AlĆ©m disso, em sua conversa com o repórter do EstadĆ£o, Dallagnol descreveu a informação que ele estava enviando, sobre a proposta de colaboração com os EUA, como ā€œnovidadeā€, e por essa razĆ£o insistiu que a informação que ele enviou só poderia ser publicada ā€œmantendo meu nome em offā€. Se a informação jĆ” era pĆŗblica, como defende a Lava Jato por meio de sua assessoria, por que pedir off?

    AlĆ©m disso, a própria nota enviada ao Intercept admite que os procuradores adiantaram uma ação da investigação ao EstadĆ£o – uma informação privilegiada, portanto, ainda que nĆ£o protegida por sigilo judicial formalizado. ā€œO Ćŗnico caso mencionado na consulta Ć  forƧa-tarefa se refere a uma reportagem do EstadĆ£o que combinava dados disponĆ­veis em processos pĆŗblicos e uma informação nova, igualmente sem sigilo, sobre possĆ­veis estratĆ©gias que se cogitavam adotar no futuro, em relação Ć  formulação de pedido de cooperação a ser enviado, o que nĆ£o caracteriza vazamentoā€, diz a nota. De fato, a colaboração com a SuƭƧa citada na reportagem era pĆŗblica, mas a ā€œinformação novaā€ (o pedido de ajuda aos EUA que foi a manchete do jornal) nĆ£o era pĆŗblica porque nem sequer havia sido formalizada atĆ© a publicação do texto.

    Dessa forma, a negativa da forƧa-tarefa de que os procuradores fizeram exatamente o que Deltan falsamente insistiu que nunca fizeram — vazar para a mĆ­dia informaƧƵes que nĆ£o eram de conhecimento pĆŗblico — Ć© desmentida pelas próprias palavras dos procuradores, conforme publicadas no chat acima, em que eles mesmos descrevem suas aƧƵes como ā€œvazamentosā€. Ɖ tambĆ©m desmentida pela insistĆŖncia de Dallagnol ao repórter que as informaƧƵes passadas ao EstadĆ£o nĆ£o fossem atribuĆ­das a ele. Ɖ desmentida ainda pelos repetidos episódios em que os procuradores admitem ter vazado Ć  mĆ­dia informaƧƵes sobre as investigaƧƵes, quase sempre usando especificamente a palavra ā€œvazamentosā€ que eles agora buscam redefinir. E Ć© desmentida, por fim, pela nota enviada ao Intercept.

    VAZAMENTO SELETIVO

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    Deltan Dallagnol Ć  BBC: ā€˜Nos casos em que apenas os agentes pĆŗblicos tinham acesso aos dados, as informaƧƵes nĆ£o vazaram’.
    Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

    Esses vazamentos nĆ£o eramĀ casos isolados. Em 2016, procuradores da Lava Jato falavam abertamente sobre o uso de ā€œvazamento seletivoā€ para mĆ­dia com a intenção de influenciar e manipular um suposto pedido de liberdade para o ex-presidente da CĆ¢mara Eduardo Cunha:


    12 de dezembro de 2016 – Grupo Filhos do Januario 1
    Carlos Fernando dos Santos Lima – 18:45:31 – Recebi do russo : Off recebi uma notĆ­cia que nĆ£o sei se Ć© verdadeira que haveria uma articulação no STF para soltura do Cunha amanhĆ£
    Roberson Pozzobon ā€“ 18:51:49 – Essa info estĆ” circulando aqui a PGR tb
    Paulo Roberto GalvĆ£o ā€“ 18:57:24 – O Stf seria depredado. NĆ£o acredito
    Athayde Ribeiro Costa ā€“ 18:57:40 –toffi, lewa e gm. nao duvido
    Santos Lima – 18:58:37 – Ć‰ preciso ver quem vai fazer a sessĆ£o.
    Jerusa Viecilli ā€“ 18:58:39 – Pqp
    Santos Lima –19:00:58 – Alguma chance de soltarmos a notĆ­cia da GOL?
    Costa – 19:01:35 – vazamento seletivo … 

    Os diĆ”logos provam que ele mentiu Ć  BBC. A negativa aconteceu depois de Dallagnol ter participado de vĆ”rias conversas nas quais seus colegas de forƧa-tarefa discutiram explicitamente fazer aquilo que ele negava publicamente. Isto Ć©, promover vazamentos e usar a mĆ­dia para seus próprios interesses. Ironicamente, o próprio Dallagnol observou Ć  BBC o quĆ£o complexa Ć© a tarefa de provar que houve vazamentos, pois, segundo ele, os envolvidos sempre negam: ā€œĆ‰ muito difĆ­cil identificar qual Ć© o ponto (de origem do vazamento), porque se vocĆŖ ouvir essas pessoas, elas vĆ£o negarā€, afirmou.

    Leia Nossa Cobertura CompletaAs mensagens secretas da Lava Jato

    As conversas fazem parte de um pacote de mensagens que o Intercept comeƧou a revelar em 9 de junho ā€” sĆ©rie conhecida como Vaza Jato. Os arquivos reĆŗnem chats, fotos, Ć”udios e documentos de procuradores da Lava Jato compartilhados em vĆ”rios grupos e chats privados do aplicativo Telegram. A declaração conjunta dos editores do The Intercept e do Intercept Brasil (clique para ler o texto completo) explica os critĆ©rios editoriais usados para publicar esses materiais.


    2 comentĆ”rios em “Intercept bomba na madrugada desta quinta (29) ā€˜VAZAMENTO SELETIVO … šŸ™ˆā€™ Dallagnol mentiu: Lava Jato vazou sim informaƧƵes das investigaƧƵes para a imprensa — Ć s vezes para intimidar suspeitos e manipular delaƧƵes”

    1. Francisca Barroso

      Achei muita audÔcia dessa corja de psicopatas comandada pelo Chefão da Mafia dos procuradores psicopatas, e muita tristeza pela injustiça e maldade com Lula, Quanto ao Intercept, louvado seja o meu Deus pela vida de todos vocês que com responsabilidade e muita coragem desmascararam esses bandidos transvestidos de homens da lei. Glenn é nosso orgulho por isso nosso MUITO OBRIGADA! Deus vos proteja SEMPRE!

    2. Pingback: Intercept bomba na madrugada desta quinta (29) ā€˜VAZAMENTO SELETIVO … šŸ™ˆā€™ Dallagnol mentiu: Lava Jato vazou sim informaƧƵes das investigaƧƵes para a imprensa — Ć s vezes para intimidar suspeitos e manipular delaƧƵes — | Gustavo Horta

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