“Inicia-se a perda da Amazônia”, diz Janio de Freitas sobre “mentira bruta” contada por Musk/Bolsonaro

“As riquezas nacionais estão em jogo” na “trama, ou farsa, Musk-Planalto-empresários”, escreve o jornalista

O jornalista Janio de Freitas escreve, na Folha de São Paulo, na tarde deste sábado (21/5), que está inicada “a perda da Amazônia” sob a “mentira bruta” do encontro entre Elon Musk, Jair Bolsonaro e empresários, colocando nossas “riquesas nacionais em jogo” na “trama, ou farsa” do encontro com o bilionário em São Paulo, na sexta-feira.

A visão geopolítica dos militares está na presumida ambição dos países-potências de apropriar-se da Amazônia. (…) daí vem o descaso pelas questões ambientais amazônicas e pelos indígenas, predominando a concepção de um território protegido por ocupação de pecuária, agricultura extensiva e mineração“, escreve o jornalista.

Os Estados Unidos são o motivo maior da suposição militar, apesar de citados apenas em situações de especial reserva, por conveniência até da sedução que suscitam nos integrantes das Forças Armadas” diz Janio de Freitas.

“Bolsonaro e seu governo levaram a aplicação da proposta militar para a Amazônia ao nunca imaginado. Não só em razão da influência do Exército na composição e na orientação governamentais. Há também as facilidades para exploração criminosa da riqueza natural por garimpeiros ilegais, madeireiros idem, contrabandistas, invasores de terras indígenas e do patrimônio público para fazendeiros e agroindustriais. E, criação no atual governo, a interseção de milícias urbanas nessa criminalidade amazônica. Agora se arma o grande avanço. Ou, mais claro, inicia-se a perda da Amazônia”, escreveu o jornalista.

Fábio Faria, ministro das Comunicações íntimo das transações de Bolsonaro, foi um dos articulares da trama, ou farsa, Musk-Planalto-empresários“, diz Janio. “Musk veio ao Brasil para receber, sob as aparências de um acaso feliz, o que levou para os Estados Unidos. É notória a caça de metais preciosos e outros para inovações nas indústrias americanas de carros elétricos e de exploração espacial privada, por foguetes, satélites e telecomunicações. Três entradas no futuro, nas quais Musk é a figura proeminente no mundo“.

Como se tudo fossem entendimentos ali mesmo descobertos e consumados, em algumas dezenas de minutos, Bolsonaro comunicou ao país acordos de boca pelos quais ficam contratadas empresas de Musk para monitoramento da Amazônia por satélite; para telecomunicações lá e em outras regiões, e a ele concedido o uso explorativo das informações detidas por órgãos brasileiros sobre o território amazônico, natureza, solo e subsolo”, escreve.

O monitoramento é mentira bruta. O país já conta com linhas múltiplas desse serviço. Citações imediatas, o competente Inpe de estudos espaciais, e o Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) entregue por Fernando Henrique, em licitação violentada, à americana Raytheon —a “pedido de Bill Clinton”, como informou sem cerimônia alguma”.

Acordo de boca para empresas de Musk devassarem, por satélite e por meios terrenos, o maior patrimônio natural do território, sobretudo a sua riqueza mineral, de importância decisiva para o amanhã do país. Acordo de boca, de pessoa a pessoa, sem interveniência de qualquer das instituições oficiais ao menos como consulta. Acordo de boca para interesses estrangeiros fazerem na e da Amazônia o que quiserem, como se o território deixasse de ser brasileiro, passando ao domínio de fato de poderes externos, situação de território ocupado. As empresas americanas no exterior estão sob o compromisso, compulsório, de sujeitar-se ao alegado interesse nacional dos Estados Unidos.

Tal acordo é ato de lesa-pátria. Implica violação de exigências constitucionais, contraria os interesses nacionais permanentes (expressão da linguagem militar) e configura violação da soberania sobre parte do território. É a transformação, do hipotético à realidade pretendida, da visão que por mais de meio século, foi geradora do chamado pensamento geopolítico das Forças Armadas. Até a quinta, 19 de maio. Desde de aí, as Forças Armadas estão em contradição, entre sua premissa orientadora e, de outra parte, a tolerância, ou apoio, ou comprometimento com ação oposta, cometida pelo ex-capitão com o qual se identificam.

O que emergirá da contradição não se prevê, e não cabem otimismos. Nem se sabe o que esperar dos poderes do Congresso desconsiderado e do Judiciário na guarda da Constituição. Sabe-se, isso sim, que a fortuna excessiva e os meios conhecidos e desconhecidos de Musk estarão muito interessados em vitória de Bolsonaro sobre Lula. Aos golpes militares sobreveio o golpe parlamentar contra Dilma; Moro e Dallagnol deram o golpe eleitoral com incentivos externos, e agora prenuncia-se o golpe financeiro-eleitoral. Sempre disseram que o brasileiro é muito criativo.

E emotivo: saudade da Amazônia.

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