Ativista brasileira assassinada em 2018 é homenageada em distinção que destaca contribuições afrodescendentes e justiça social na América Latina
Brasília, 04 de novembro 2025
A prestigiada Universidade de Harvard concedeu nesta terça-feira (4/nov) a Medalha W.E.B. Du Bois póstuma à ex-vereadora Marielle Franco, assassinada há sete anos no Rio de Janeiro.
A honraria, a mais elevada da instituição no âmbito dos estudos africanos e afro-americanos, posiciona Marielle como a primeira brasileira e apenas a segunda latino-americana a receber tal distinção – precedida pela vice-presidente colombiana Francia Márquez, em 2024.
O prêmio, outorgado pelo Instituto de Pesquisas Afrolatino-Americanas (Alari), celebra trajetórias que fortalecem o legado intelectual e cultural das populações afrodescendentes globalmente, ao lado de nomes como o congressista James E. Clyburn e o cineasta Spike Lee.
Alejandro de la Fuente, diretor fundador do Alari, resumiu o impacto de Marielle em declaração impactante: “Mulheres como ela desafiaram e transformaram as estruturas de poder, enfrentando o racismo, o sexismo e a LGBTQIA+fobia”, afirmou, segundo transcrição na Folha de S. Paulo.
!Sua preciosa vida foi tirada, mas o que quero enfatizar aqui é que eles fracassaram. Marielle esteve conosco durante o simpósio; eles não conseguiram apagá-la. Marielle veio ao ALARI, e depois disso, nunca mais saiu daqui“, concluiu la Fuente.
Essa afirmação não é mera retórica: o legado de Marielle, nascida em 1979 no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, transcende sua breve passagem pela Câmara Municipal – eleita em 2016 com 46.502 votos pelo PSOL – para se tornar um farol na defesa das periferias, das mulheres negras e contra a violência estatal.
A notícia reverberou em veículos nacionais e internacionais, destacando o pioneirismo da premiação e enfatizando sua trajetória como voz contra a brutalidade policial.
O tributo é um contraponto à impunidade persistente no caso e reforça o apelo global por justiça.
Para compreender a profundidade dessa homenagem, é essencial revisitar o contexto histórico do crime que ceifou a vida de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018.
Naquela noite, no bairro do Estácio, o veículo oficial da vereadora foi alvejado por 13 tiros de um carro prata, que a seguia após um evento sobre empoderamento de mulheres negras. A assessora Fernanda Chaves, presente no banco de trás, escapou por pouco.
O atentado, amplamente visto como político, chocou o mundo e mobilizou protestos em dezenas de países, com cobertura de outlets como The New York Times e BBC, que o enquadraram como símbolo do genocídio negro no Brasil.
A investigação, inicialmente conduzida pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, enfrentou acusações de obstrução e demora, culminando na transferência para a Polícia Federal em 2023.
Avanços cruciais ocorreram em 2024: em outubro, os executores confessos, ex-policiais militares Ronnie Lessa (condenado a 78 anos, 9 meses e 30 dias por disparar as armas) e Élcio de Queiroz (59 anos, 8 meses e 10 dias, por dirigir o veículo), foram sentenciados pela Justiça fluminense.
Lessa, assassino de aluguel ligado a milícias, e Queiroz, que monitorava a rotina de Marielle via redes sociais, apontaram em delação os irmãos Domingos Brazão (conselheiro do TCE-RJ) e Chiquinho Brazão (deputado federal) como mandantes, motivados por embates com a vereadora contra a grilagem de terras em áreas milicianas na Zona Oeste carioca.
Em março de 2024, a PF prendeu os irmãos Brazão e o ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa, acusado de planejar o crime e sabotar as apurações iniciais – ele assumira o cargo um dia antes do atentado.
As prisões foram autorizadas pelo STF e envolveu figuras como o major Ronald Paulo Alves Pereira (por monitoramento) e Edilson Barbosa dos Santos (“Orelha“, condenado por destruir o carro usado no crime).
O Instituto Marielle Franco, em nota de outubro, cobra “responsabilização completa“, alertando que a impunidade perpetua a violência política.
O histórico de reconhecimentos internacionais a Marielle ilustra como seu ativismo – forjado na favela da Maré, com formação em Sociologia pela PUC-Rio e militância no PSOL – transcendeu fronteiras.
Em 2018, a Anistia Internacional a incluiu em sua campanha de defensores dos direitos humanos mortos em dever de ofício.
Nos EUA, a Universidade Johns Hopkins criou a Bolsa Marielle Franco para estudos em relações internacionais focados na América Latina.
Em Portugal, o Prêmio Marielle Franco Community-Design Award, de 10 mil euros, incentiva arquitetos em projetos para favelas, segundo o Baobá.
No Brasil, o “Dia Marielle Franco – Luta contra o Genocídio da Mulher Negra” foi instituído pela Lei 8054/2018 na ALERJ, e o movimento “Ele Não” de 2018 invocou seu nome contra o avanço bolsonarista.
Sete anos após o crime, essa medalha de Harvard não é apenas um troféu acadêmico, mas um lembrete incisivo: o silenciamento de vozes como a de Marielle falha quando o legado ressoa globalmente.
Como disse de la Fuente, “Marielle Franco é vida“.
Em tempos de retrocessos democráticos, sua história impulsiona não só justiça, mas a ampliação de pautas interseccionais – das favelas ao Capitólio.
O julgamento dos mandantes, iminente, pode selar esse capítulo, mas o ativismo inspirado por ela, das ruas do Rio às salas de aula em Cambridge, garante que Marielle continue a transformar realidades.
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