Ministro da Fazenda critica crescimento descontrolado das apostas online, associa setor a crimes como lavagem de dinheiro e promete ações para proteger a população
São Paulo, 23 de julho de 2025
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não mediu palavras ao classificar as apostas online, conhecidas como “bets”, como uma “epidemia” que assola o Brasil. Em entrevista ao canal ICL Notícias, ele afirmou que, se dependesse dele, o setor seria proibido.
“Se aparecer um projeto na Câmara Federal para decidir se continua ou para, eu apertaria o botão do ‘para’. Não tem arrecadação que justifique essa roubada que nós chegamos”.
Fernando Haddad (Ministro da Fazenda)
A fala reflete a preocupação do governo com os impactos sociais e econômicos das plataformas de apostas, que movimentam bilhões de reais, mas geram problemas graves, como vício e crimes financeiros.
O Crescimento Descontrolado das Bets
As bets, plataformas de apostas esportivas e jogos de azar online, explodiram no Brasil desde a legalização em 2018, durante o governo de Michel Temer.
No entanto, a ausência de regulamentação por quatro anos, especialmente no governo Bolsonaro, permitiu que o setor operasse sem pagar impostos ou seguir regras claras.
Segundo Haddad, cerca de R$ 40 bilhões foram enviados ao exterior sem qualquer controle fiscal nesse período, um prejuízo significativo para o país.
“Esse dinheiro sumiu do Brasil”.
Fernando Haddad (Ministro da Fazenda)
O ministro apontou que grande parte dos lucros foi transferida por meio de criptomoedas e fintechs não regulamentadas.
Dados do Banco Central, divulgados em 2024, mostram que os brasileiros gastam cerca de R$ 20 bilhões por mês em apostas online, superando a arrecadação das loterias da Caixa Econômica Federal.
Uma pesquisa da Unifesp, com base no Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, estima que quase 11 milhões de brasileiros apresentam uso perigoso dessas plataformas, com 60% dos apostadores tendo até 39 anos.
Esse cenário, segundo Haddad, afeta diretamente a formação educacional e financeira de jovens, além de comprometer orçamentos familiares.
Um Problema de Saúde Pública
Haddad comparou as bets a vícios como cigarro e álcool, defendendo que o setor precisa de restrições rigorosas, especialmente na publicidade.
“A questão da publicidade está completamente fora de controle”, afirmou em entrevista à CBN. Ele relatou casos dramáticos de pessoas que perderam familiares devido ao endividamento causado pelo vício em apostas.
Para combater o problema, o Ministério da Fazenda criou a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA-MF) em 2023, que já publicou portarias para regular o setor, como a proibição do uso de cartões de crédito e do cartão do Bolsa Família em apostas.
Além disso, o governo planeja monitorar o comportamento dos apostadores por meio de CPFs, de forma sigilosa, para identificar sinais de dependência psicológica.
“Quem aposta muito e ganha pouco pode estar com dependência. Quem aposta pouco e ganha muito, em geral, está lavando dinheiro”
Fernando Haddad (Ministro da Fazenda)
O ministro também anunciou que até 600 sites irregulares serão retirados do ar nos próximos dias, com apoio da Anatel, caso não cumpram as novas regras de regulamentação.
Conexão com Crimes e Lavagem de Dinheiro
Outro ponto levantado por Haddad é a associação das bets com atividades ilícitas. Ele revelou que o Ministério da Fazenda já compartilha informações com o Banco Central sobre fintechs usadas para apostas ilegais e lavagem de dinheiro.
“Vamos incorporar a Polícia Federal nesse debate, porque tem crime por trás”.
Fernando Haddad (Ministro da Fazenda)
A falta de controle permitiu que plataformas operassem sem transparência, facilitando a movimentação de recursos para o exterior e até para o crime organizado.
Medidas do Governo e Reações do Setor
O governo Lula intensificou a regulamentação das bets desde 2023, com a aprovação de uma lei que estabeleceu normas para operação segura e criou a SPA-MF.
Recentemente, uma medida provisória aumentou a alíquota de impostos sobre o faturamento das bets de 12% para 18%, visando compensar perdas fiscais.
No entanto, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) criticou a medida, alegando que a “supertributação” pode incentivar a migração para plataformas clandestinas, reduzindo a arrecadação estimada em R$ 4 bilhões para 2025.
A ANJL também destacou que os problemas citados por Haddad, como o vício, estão mais ligados a sites ilegais, que não adotam medidas de proteção aos apostadores.
Haddad, por sua vez, planeja apresentar ao presidente Lula um balanço detalhado sobre o impacto das bets, com dados coletados nos últimos seis meses.
Ele defende que o setor seja tratado como uma questão de saúde pública, com medidas como a proibição de publicidade ostensiva e a criação de sistemas de alerta para dependência.
“Não vale trocar arrecadação por destruição social”.
Fernando Haddad (Ministro da Fazenda)
O Futuro das Bets no Brasil
O debate sobre as bets está longe de acabar. Enquanto o governo busca proteger a população e coibir crimes, o setor argumenta que a regulamentação atual já é suficiente e que aumentos de impostos podem prejudicar as empresas legalizadas.
Haddad, no entanto, é categórico:
“É uma tragédia pública de grandes proporções”.
Fernando Haddad (Ministro da Fazenda)
Com a promessa de endurecer a fiscalização e rever o marco regulatório, o governo sinaliza que as apostas online enfrentarão um controle mais rígido nos próximos anos.








