Ministro defende uso da Receita contra lavagem de dinheiro, critica o PL por barrar lei anticrime e anuncia rastreio de fundos e cripto – Leia íntegra da entrevista desta sexta (31)
Urbs Magna Podcast
Haddad cobra Cláudio Castro
Brasília, 01 de novembro 2025
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, utilizou uma entrevista coletiva nesta sexta-feira (31/out) para apresentar uma nova e agressiva estratégia federal de combate ao crime organizado no Brasil, focada em “asfixiar o financiamento” dos grupos criminosos.
O ponto central da fala é que o combate não pode se limitar ao “chão de fábrica”, mas deve “chegar nos CEOs” e nos andares superiores do esquema.
Haddad destacou a inédita atuação do aparato da Fazenda Nacional no apoio à segurança pública, anunciando medidas de fiscalização mais duras e fazendo um apelo público direto ao governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e seu partido, o PL, por resistência a uma pauta considerada crucial: a aprovação da Lei do Devedor Contumaz.
A Batalha pelo Devedor Contumaz
A Lei do Devedor Contumaz é definida pelo ministro como uma ferramenta essencial contra a sonegação, que, na prática, esconde o crime organizado.
Segundo Haddad, o “devedor contumaz é um tipo de sonegador que se vale de estratégias jurídicas fraudulentas” para lavar dinheiro em atividades supostamente lícitas, como postos de gasolina, “motional” e franquias de lojas.
A urgência para a votação desta lei, que tramita há oito anos e foi aprovada no Senado quase por unanimidade, foi pautada pelo presidente da Câmara, Hugo Mota (Republicanos-PB).
No entanto, o ministro revelou que boa parte do PL e muitos deputados do Rio de Janeiro, supostamente “sob orientação do governador” Cláudio Castro, votaram contra a urgência constitucional.
“Eu quero dizer ao governador com toda a clareza, uma boa parte do crime organizado do Rio de Janeiro especificamente do Rio de Janeiro está se escondendo por trás dessas estratégias jurídicas que esta lei visa coibir”, disse.
Haddad expressou preocupação com a possibilidade de o PL apresentar emendas que possam criar “aquela fresta por onde o bandido vai sair, por onde o bandido vai escapar”.
Ele insiste que o apoio do partido e da bancada do Rio de Janeiro é vital, especialmente considerando que a sonegação no setor de combustíveis é uma das principais fontes de financiamento do crime na região.
Fiscalização e Transparência: O Ataque ao “Andar de Cima”
Para concretizar a estratégia de mirar os “CEOs do crime” — que, segundo Haddad, moram “de frente para a praia”, em Miami ou Portugal, e não nas comunidades — a Receita Federal está implementando medidas de transparência radical.
O ministro anunciou uma portaria que obriga todos os fundos de investimento a informar o CPF (Cadastro de Pessoa Física) do detentor final da riqueza. Isso visa desmantelar o esquema de “fundos sobre fundos” que é usado como estratagema para ocultar o dinheiro ilícito.
Além disso, a Receita Federal está focada em aumentar a transparência sobre criptoativos, cassinos online, jogos online (BETs) e offshores, frutos da nova economia digital.
Haddad ressaltou que o capital ilícito está em “cripto” e em “fundo offshore”. Ele também mencionou que a Receita Federal busca formalizar a criação de uma Delegacia de Combate ao Crime Organizado dentro da instituição.
A atuação da Receita Federal e da Polícia Federal foi exemplificada pela Operação Carbono Oculto na Faria Lima (que revelou como negócios lícitos se misturam à lavagem de dinheiro) e por uma recente operação integrada de fronteira.
Esta operação mais recente durou 15 dias, resultou na prisão de 27 pessoas, apreensão de 3,5 toneladas de droga (incluindo 600 kg de cocaína) e mais de 1.000 armas.
O Contexto da Crise e o Apelo à Cooperação Federativa
A preocupação com o Rio de Janeiro é o pano de fundo da fala de Haddad. Ele lamentou a recorrência de operações violentas que resultam em mortes, como a recente perda de quatro policiais.
O ministro defendeu que a Fazenda Nacional e órgãos como a PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional) e o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) devem ter suas informações utilizadas em cooperação federativa.
A PGFN já procurou o procurador-geral do Estado do Rio de Janeiro para esclarecer o papel do Devedor Contumaz e solicitar o apoio do governo estadual.
“Nós precisamos que toda a sociedade compreenda as oportunidades que o Congresso tem de dar um passo, que a Receita tem de se associar ao combate ao crime pelas informações que ela detém”.
Haddad concluiu que a prioridade é construir um “ecossistema de segurança” e que a cooperação, independentemente da filiação partidária, é crucial para o “Estado Brasileiro”.
LEIA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA
Fernando Haddad (Declaração Inicial)
Gostaria de dar algumas informações para vocês e me colocar à disposição. Eh, conforme eu havia anunciado ontem, a procuradoria geral da Fazenda Nacional já entrou em contato com a procuradoria geral do estado do Rio de Janeiro para colocar a eles as informações sobre o que a Receita Federal tá fazendo para combater a questão do crime organizado nos combustíveis.
Me parece que o governo do Rio não estava informado adequadamente, a julgar pelas ações e pelas medidas que tomaram que foram contrariadas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça essa semana, o que nos permitiu avançar no combate ao crime organizado na questão dos combustíveis, que é uma das principais fontes de financiamento do crime organizado no Rio.
Então a gente tem falado muito pros governadores que além da questão territorial, além de cumprir mandado de prisão, tudo isso é importante, mas se não asfixiar o financiamento do crime organizado, não vai dar certo. Nós temos que entrar por cima combatendo e asfixiando o financiamento do crime organizado.
A outra coisa que eu vou fazer chegar ao governador do Rio é a importância do partido do governador do Rio apoiar a lei do devedor Contumaz. Devedor Contumaz é uma palavra chique para falar de sonegador. E por trás de sonegador, o que tem na verdade é o crime organizado.
Nós não estamos falando da pessoa que deixou de pagar um tributo porque não tinha liquidez num determinado mês. O devedor Contumaz é um tipo de sonegador que se vale de estratégias jurídicas fraudulentas para evitar que a Receita Federal e a Polícia Federal, a Polícia Civil, cheguem às pessoas que estão lavando dinheiro em supostas atividades lícitas, porque em geral a origem do dinheiro do crime organizado é ilícito e ele procura se misturar com atividades lícitas para lavar dinheiro.
É o que acontece com posto de gasolina, é o que acontece com os motéis aqui da região, da Marginal, que foram interditados aqui em São Paulo, é o que o que acontecia com determinadas franquias de lojas que eram utilizadas para a lavagem de dinheiro. Então, é muito importante que o partido do governador Cláudio Castro não vote contra o devedor Contumaz, como fez essa semana.
Nós levamos a pedido do governo federal, o presidente Hugo Mota levou ao plenário para botar urgência justamente para que não passe nas comissões, não tenha aquela tramitação demorada, e boa parte do PL e muitos deputados do Rio, sob orientação do governador, votaram contra urgência constitucional para o devedor Contumaz.
Eu quero dizer ao governador com toda a clareza: uma boa parte do crime organizado do Rio de Janeiro, especificamente do Rio de Janeiro, está se escondendo por trás dessas estratégias jurídicas que esta lei visa coibir. Então nós precisamos dessa lei e o estado do Rio em particular precisa dessa lei.
Então a procuradora geral da Fazenda Nacional já entrou em contato com a PG do Rio, vai levar essas informações, algumas delas sigilosas, nem eu posso falar para vocês porque tá em segredo de justiça, para o procurador geral do estado do Rio para que ele comunique o governador da importância do partido do governador do Rio de Janeiro, da bancada do Rio de Janeiro, votar a favor da lei aprovada já no Senado quase que por unanimidade, uma lei que tramita há 8 anos.
Nós não estaríamos nessa situação se essa lei já tivesse sido aprovada. Então essas leis são muito importantes. Vocês devem estar até estranhando o fato de um ministro da Fazenda tá falando de segurança pública, porque talvez seja a primeira vez que isso aconteça, justamente pelo fato de que nós estamos colocando todo o aparato da Fazenda Nacional à disposição das forças de segurança pública, seja na esfera federal, Ministério Público e Polícia Federal, seja na esfera estadual.
Então é bastante importante que essa reunião aconteça, provavelmente vai acontecer na próxima quarta-feira, o procurador disse que talvez vá a Brasília na quarta-feira e a PGFN está à disposição do estado para explicar pro governador a importância de que a base de direita do Rio de Janeiro vote a favor do projeto que combate o devedor Contumaz.
Diálogo com Jornalistas
Jornalista: Ministro, quando o senhor fala que ele tá, que o governador do Rio tá mal informado, o senhor tá sendo educado demais ou porque, ou tá, tá vendo uma, uma…
Fernando Haddad: Não, eu tô sendo institucional. Meu, meu papel aqui é primeiro lugar dizer que o Ministério da Fazenda tem órgãos que podem ajudar a segurança pública, como acontece no mundo inteiro. Então isso é a primeira vez que tá acontecendo no Brasil. E se depender de mim, a delegacia de combate ao crime organizado vai ser instalada na Receita Federal. Só não foi ainda porque a MP 1303 caiu. A Medida Provisória nº 1.303 de 2025 foi uma iniciativa do Governo Federal com o principal objetivo de aumentar a arrecadação para cumprir as metas fiscais, propondo uma série de alterações na legislação tributária] .
Nós vamos ter que encontrar um outro projeto para colocar os cargos lá necessários, né, para criar a delegacia que já está funcionando desde 2023 como núcleo. E eu quero formalizar, porque no mundo inteiro a Receita Federal atua como suporte dos órgãos de segurança pública, porque ao fiscalizar, ao atuar na fiscalização, ela acaba se deparando com crimes tributários e não tributários. Os tributários ela apura. Os não tributários ela tem que comunicar os órgãos de segurança pública, seja o Ministério Público, seja a Polícia Federal ou estadual, para que eles sejam combatidos.
Jornalista: Mas o partido do governador do Rio tá sendo contra uma coisa que é boa pro país? É isso?
Fernando Haddad: É o que eu estou... é o apelo público que eu já faço pela segunda vez. O partido PL precisa compreender a importância. Nós passamos 4 anos do governo anterior com esse projeto adormecido. Ninguém deu impulso a esse projeto. Uma das primeiras providências que eu tomei quando assumi a fazenda foi dar impulso a esse projeto. Finalmente o Senado, depois da operação Carbono Oculto, votou quase por unanimidade, porque os senadores compreenderam que o projeto é fundamental para combater o crime organizado.
O presidente Hugo Mota foi diligente, vendo esse clamor nacional, pautou a urgência constitucional. Quais foram os, os votos contrários à urgência? Justamente o do partido do governador do Rio de Janeiro. Então ele precisa se envolver nessas questões, porque eu garanto a você, eu não posso emitir o nome, não posso falar o nome, mas uma parte grande dos devedores Contumazes está envolvido com o crime organizado do Rio de Janeiro.
Então nós precisamos do apoio dele pra votação do devedor Contumaz, que virou um tema nacional. Você lê os jornais, você liga a televisão e às vezes o cidadão comum ele não tem tempo de se assenhorar desse tipo de questão que é muito técnica. Mas se nós não tivermos uma legislação avançada para combater isso...
A legislação do brasileiro é muito atrasada. Você sabe que é o criminoso, você conhece o criminoso e você não consegue tirar ele de circulação. Às vezes nem no Brasil ele mora. Você vai na comunidade imaginando que você tá combatendo o crime organizado e o verdadeiro bandido tá em outro lugar, tá em outro país, usufruindo, né, da riqueza acumulada ilicitamente, né, ao arrepio da lei brasileira e aliciando jovens, ceifando vidas, colocando a população em risco. É isso que nós precisamos compreender. Nós precisamos atuar em todas as camadas do crime. Não adianta só o chão de fábrica. Nós precisamos chegar nos CEOs, sabe, os CEOs do crime organizado. Precisamos pagar também pelo que fazem.
Jornalista: O senhor mencionou a operação Carbono Oculto. Uma das empresas que foram, que foi desmembrada, inclusive, ela entrou na bolsa de valores usando uma outra como casca. E eu queria entender se o senhor tem dialogado com a CVM e outros órgãos para pegar essa e a Ambima inclusive para ver mais a fundo essa questão dos fundos e como elas estão entrando na bolsa.
Fernando Haddad: Hoje, hoje nós, eh, publicamos uma portaria da Receita Federal que era um outro comunicado que eu gostaria de fazer para vocês. Agora você sabe que para, pro, para esconder o dinheiro você tem uma série de estratagemas, não é? Um deles é você criar fundos sobre fundos. O fundo que é cotista de outro fundo, que é cotista de outro fundo e você não chega na pessoa física que é o verdadeiro detentor daquela riqueza. Agora toda todos os fundos vão ser obrigados a dizer até o CPF. Então se houver um esquema aí de pirâmide em fundo que controla fundo que controla fundo, você vai ter que chegar no CPF da pessoa. Não tem mais aquela história de ah, o cotista desse fundo é um outro fundo. Você fala: "Bom, mas quem é o cotista desse fundo?" E assim sucessivamente até você chegar na pessoa física. Porque enquanto você tá fiscalizando pessoas jurídicas, nem sempre você tem condição de compreender qual é a trama de relações econômicas lícitas e ilícitas que tá por trás daquela atividade. E com essa determinação da Receita Federal agora nós vamos saber o CPF que tá por trás, a pessoa que está por trás. Vamos saber se é um laranja, se é um residente, se é um residente. Nós vamos saber exatamente quem é essa pessoa e vamos aumentar o nosso poder fiscalizatório exatamente atendendo a essa sua pergunta por, pelo aprendizado que nós tivemos na operação na Faria Lima, no Carbono Oculto. Porque pessoas que fazem as coisas licitamente acabam se misturando com pessoas que t uma fachada bonita, mas por trás dali o que tem é lavagem de dinheiro, é atividade ilícita e é crime organizado da pesada, mas em todas as áreas. Não pensa só você que diz respeito a drogas, diz respeito a cigarro importado, diz respeito à bebida contrabandeada, eh, ou adulterada, diz respeito a combustível importado ilicitamente, irregularmente, adulterado ou não. Então tem muitas atividades econômicas que passam pela droga e muitas outras que não passam pela droga. Aliás, hoje mesmo também, fazendo referência a uma fala do governador Caiado, nós estamos sim atuando na fronteira. O estado dele não é de fronteira, mas nos últimos 15 dias nós fizemos uma operação de fronteira. A mesma operação durou 15 dias. Foram presas 27 pessoas. Nós aprendemos 213.000 litros de bebida adulterada. Nós aprendemos 3,5, 3,5 toneladas de droga, sendo que 600 kg de cocaína. Isso foi feito com a ajuda do governador do Paraná, do Mato Grosso, do Mato Grosso do Sul e com todo o aparato federal combinados, integrados. Não teve tiro, não teve morte. E aí as imagens que tem são imagens de pessoas trabalhando diligentemente pela segurança nacional. Aprendemos mais de 1, mais de 1.000 armas foram salvas do crime organizado. Nós descobrimos um plano de furto dessas, dessas armas que agora estão sob guarda das Forças Armadas. Nós interditamos um, um prédio de 20 andares com mercadorias ilícitas em Belo Horizonte. Tudo isso foi feito com parceria federativa, sem olhar pro, pro partido político de quem quer que seja, fazendo com que os órgãos de estado trabalhassem cooperativamente nas regiões de fronteira. Então a Receita participou, Ministro, dessas…
Jornalista (4): A Receita participou dessas operações?
Fernando Haddad: É na Aduana. A Aduana da Receita Federal, às vezes as pessoas, porque nem sempre é na Receita Federal. Em outros países a aduana brasileira é uma atribuição da Receita Federal e nós estamos, eh, aumentando muito o nosso nível de cooperação. Por isso que eu digo, por mim, que vai se tornar cada vez mais frequente a participação da Receita Federal no apoio aos órgãos de segurança pública, porque ela tem muita informação. E é o que nós estamos fazendo desde 2023, atuando no Congresso Nacional com legislação mais dura, como é o caso do devedor Contumaz, eh, atuando com os Ministérios Públicos estaduais e com as polícias civis estaduais, além da obviamente da Polícia Federal e do Ministério Federal para combater o, a lavagem de dinheiro advinda do crime organizado. Então a cooperação tá em franca atividade, tá prosperando no Brasil.
Jornalista: Cooperação Rio não tem essa cooperação?
Fernando Haddad: Mas é por isso que eu estou aqui, né, falando que nós vamos receber o, o procurador-geral do estado do Rio de Janeiro semana que vem. Estou fazendo um apelo para que o governador convença a bancada do Rio de Janeiro do seu partido a votar a favor da lei do devedor Contumaz, porque, repito, nós temos que trabalhar em todas as camadas da atuação do crime organizado.
Jornalista: Ministro, há algum sinal sobre se vai pautar, se vai escolher? Ele, ele já pautou a urgência e já f…
Fernando Haddad: Foi aprovada. Agora acabou, vai, vai. Eu falei, eu liguei para agradecer ontem, eu liguei para agradecer o presidente Hugo Mota o fato dele ter votado a urgência e ele falou que vai botar em votação, porque ele, à luz do trabalho que a Polícia Federal e a Receita Federal fizeram na operação na Faria Lima, ficou claro para ele, como ficou pro Senado, que nós temos que operar contra o crime em todas as camadas. Você vai pro chão, né, de fábrica do crime organizado, mas se você não chegar na gerência, na diretoria, no CEO, você vai voltar com dinheiro a abastecer o crime organizado. Então, em vez de você fazer um trabalho é consistente, cooperativo, eficaz e, e permanente, você faz às vezes uma ação e dali a quantas vezes nós já ouvimos, já vimos operações como dessa semana, né, que infelizmente leva a vida, leva a vida das pessoas, quatro policiais mortos e tudo mais, ali dois anos, um ano acontece outra. Então nós temos que evitar, que não podemos nos orgulhar de a cada dois, três anos conviver com uma cena dessa. Nós temos que operar nos andares superiores do crime organizado.
Jornalista: Lira hoje defendeu a taxação das bets para reforçar os investimentos em segurança pública. Disse até que entende que haveria um grande apoio na Câmara a essa medida. Quem falou isso, Ministro? Desculpe. Presidente da Câmara, o Mota.
Fernando Haddad: Não, eu acho ótimo a destinação. Eh, todo, toda, todo o mercado, né, de serviços ou mercadorias que trazem, ah, algum tipo de externalidade negativa pra sociedade, é o caso da bebida alcoólica, é o caso, eh, do tabaco, é o caso do jogo. Ele pode ser entretenimento e pode não ser, né, como a bebida pode ser uma dose ali social e pode não ser. Tudo isso tem um imposto a mais mesmo. No mundo inteiro é assim. E tem um, um imposto a mais justamente para servir de inibição do consumo, para servir de publicidade anti-consumo. Você faz campanhas anti-consumo, né, e para usar parte dos recursos para remediar a parte do mal que essas, que essas questões acarretam pra sociedade. Então esse imposto a mais é para inibir consumo, para educar as pessoas e eventualmente tratar as pessoas. Então qualquer, qualquer gesto nessa direção ele é bem-vindo, porque nós precisamos inibir o consumo daquilo que não faz bem. Uma coisa são a, é o entretenimento, mas infelizmente a gente sabe que pela, pelo algoritmo, pela maneira como aquilo é trabalhado, aquilo acaba gerando uma certa dependência para algumas pessoas, né, e a população sabe disso e ao ver isso quer que o legislativo e executivo tome providências. Então é disso que nós estamos falando.
Jornalista: Ministro, não ficou claro na fala do Hugo Mota se ele defende aumentar a taxação ou só a destinação pro fundo de segurança pública. A fazenda tem alguma posição por não, mas aí é ele que me informou da declaração do Assim, assim que eu leio a declaração eu, eu vou… Do ponto de vista legal parece que a prioridade é o devedor Contumaz. Do ponto de vista legal teve a normativa de hoje, teve a de aduanas, teve a da Sintex, mas o Barreirinhas falou hoje de uma para apertar regras para criptoativos. Vai ser uma instrução normativa? O que que a…
Fernando Haddad: Fazenda tá pensando do ponto de vista? Bom, no caso do criptoativos, nós temos que ter mais transparência. Qual é o dinheiro que tá comprando criptoativos? Como é que vai ser, qual, qual é a, a, o tratamento tributário que ele tem que ter? Também é um mercado. Tudo isso é muito novo, porque tudo, eu não falei com ele sobre esse tema. Eu vou, vou me apropriar para dizer, mas isso tá no radar da Receita Federal por razões óbvias, né, eh, tem que dar um tratamento legal para isso. Essas coisas todas é fruto da economia digital. Tudo isso é fruto da economia digital. Criptoativo, cassino online, jogos online, eh, fintec, tudo isso é novo por causa da economia digital. Então é natural que o estado tenha que aprender a lidar com, com esse tipo de coisa. Então nós estamos regulamentando à medida que o nosso aprendizado avança. E na minha opinião, à frente dos outros países. Tem muito país que tá com uma legislação aquém da da brasileira. O Brasil tá indo bem nos últimos anos na questão da, do tratamento dessa nova e conomia. Agora tem muita coisa que tá saindo do forno agora do Congresso Nacional e nós vamos a partir da aprovação nós vamos regulamentar para agir. Mas tudo isso é para formar um ecossistema de segurança. Não é cada um correndo pro seu, pro seu clube. E não é assim que vai, deveria funcionar. Nós deveríamos estar sentados na mesma mesa para provar PEC da segurança pública. Eu tive com o deputado Mendonça Filho, ele não é da base do governo, mas ele fez a gentileza de o meu gabinete entender a operação Carbono Oculto, porque ele falou: "Ó, tem um aprendizado aqui que eu posso incorporar tecnicamente a PEC da, da segurança pública, ou seja, um gesto de generosidade com o país". E ele dizia: "Olha, independentemente situação, oposição, tem coisas que", ele falou frase dele, "tem coisas que é pro estado brasileiro, independentemente de governo". Isso tá faltando por parte do governo do Rio e do PL. Não, não vou ficar julgando o que foi. Eu tô aqui fazendo o convite pra gente avançar, né, se a gente olhar pra frente de forma federativa, cooperativa, né, nós podemos avançar. Se há uma comoção em torno da segurança pública e é absolutamente compreensível que a população esteja, esteja cobrando das autoridades, nós temos um caminho. Tem muitas boas ideias que estão no Congresso, que estão sendo aperfeiçoadas pelos relatores. Então o caminho é da cooperação, tanto no legislativo quanto no executivo. Então eu tô dando aqui uma demonstração, né, de querer buscar o entendimento. Né? Depois da minha entrevista ontem foi a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional que procurou o estado do Rio de Janeiro para esclarecer o que está acontecendo no estado do ponto de vista do devedor Contumaz e para pedir o apoio do governador a essa lei que tramita há 8 anos.
Jornalista: Mas acho que o governador do Rio não sabe disso, Ministro, vamos, vamos, vamos abrir o jogo. Vai, mas eu não posso responder para você uma coisa sobre o que a outra pessoa sabe. Eu não sei, Vinícius… qual, qual seria a existência de partidos como o PL ou uma bancada inclusive que tem muitas críticas na questão de segurança pública com o governo? Eu não consigo entender.
Fernando Haddad: Eu não consigo entender. Se a tua bandeira é segurança pública, você tem uma lei que foi aprovada por quase por unanimidade no Senado Federal. Foram mais de 60 votos no Senado Federal. Eu acredito que não tem nenhum contra inclusive, mas foram mais de 60 votos a favor. Por que que nós tivemos 50 votos contra a urgência constitucional esta semana, tão simbólica, nesta semana, justamente o partido do governador Cláudio Castro votando contra a urgência constitucional? Nós não podemos correr o risco dessa lei ser alterada, porque agora tá se falando que o PL vai apresentar uma emenda. Depois de 8 anos discutindo texto, nós vamos botar uma vírgula que é aquela vírgula por, por onde, sabe, aquela fresta por onde o bandido vai sair, por onde o bandido vai escapar? Tá cheio de advogado olhando para essa lei para saber onde colocar a vírgula, porque uma vírgula…
Jornalista: Qual seria essa emenda se eu, se eu, se eu tivesse lido já eu dava público?
Fernando Haddad: Mas eu fico com medo dessas emendas que aparecem às 47 do segundo tempo. E tem emenda que aparece depois do juiz ter apitado o fim do jogo. O juiz já apitou o fim do jogo e aparece uma emenda. No caso do PL também eles votaram contra urgência, né, do para apertar o C para criminosos do branco, né, da chamado dos tubarões da ação, e boa parte dos deputados do governador, né, do Cláudio Castro. Isso eu não tô informado, mas sobre a questão do, do devedor Contumaz eu fiquei muito preocupado com o que aconteceu essa semana, porque é uma semana que o tema é esse. E aí lá 50 deputados do PL votam contra a urgência constitucional. Então qual é o sentido do que nós estamos fazendo? Então, o, a, a análise da PGFN está à disposição do governo do estado para explicar a importância para o Rio de Janeiro desta lei. Por que pro Rio de Janeiro especificamente…
Jornalista: Dizer que o senhor chegou a tocar, porque a questão do combustível ela… mas é um caso específico do Rio em outro? Não? Não é do Rio de Janeiro, mas envolve muito o Rio de Janeiro.
Fernando Haddad: O Caiado, por exemplo, reclamou da dificuldade, por exemplo, de acessar informações do COAF que estavam no governador. Ah, informações do COAF são do COAF. Até eu tenho dificuldade de acessar, porque tem protocolo, mas para isso que existe a cooperação, porque quando você tem os convênios, você estabelece as troca de informações. Imagina você se um ministro de estado começar a ter acesso à declaração de renda das pessoas. Você não pode fazer isso. Um ministro de Estado é um, um agente político. Ele não pode ter acesso à informação sigilosa. Para isso que existe serviço público, carreira de estado, porque eles protegem o cidadão independentemente de quem esteja governando. Agora ele protege o cidadão que anda na forma da lei. Quando ele descobre o ilícito ou o indício de ilícito, ele comunica a autoridade competente para investigar e eventualmente para denunciar, né, aquele que infringiu a lei. É assim que funciona o Estado. O COAF tem o seu, o seu protocolo de segurança para que as pessoas não sejam expostas a não ser que estejam cometendo ilícito. Isso vale pra Receita, pra Polícia, pro COAF, para todo mundo. Agora ele tem muita informação, ele não tem pouca informação não. O Caiado, eu tô falando, o estado tem muita informação e quanto mais nós cooperarmos, mais fácil vai ser a atividade de combater a, a, ao crime organizado, a corrupção, mais fácil vai ser. Então eu tô dando a público aqui um convite que nós estamos fazendo de cooperação. Nós precisamos que toda a sociedade compreenda as oportunidades que o Congresso tem de dar um passo, que a Receita tem de se associar ao combate ao crime pelas informações que ela detém. Ela não é um órgão de segurança pública, mas ao exercer a sua atividade fiscalizatória, ela acaba, eh, diante de indícios graves que ela é obrigada a comunicar pra autoridade competente ir lá investigar. E isso evitaria o que aconteceu no Rio. Ótimo, gente. Aí, aí é uma conversa mais longa, mas de novo, nós temos que operar em todas as camadas. Nós temos que chegar no gerente, no diretor, no CEO desse…
Jornalista: Negócio, porque senão isso não vai acabar. Ministro, onde estão essas pessoas? O senhor fala de atacar o andar de cima, no inconsciente coletivo tá ali na mansão dentro do da Penha, dentro do alemão. Aonde que tá? Aonde tá o centro, a cabeça do negócio?
Fernando Haddad: O veja bem, isso como qualquer atividade econômica, você tem um padrão de remuneração, eh, que vai sendo feito de acordo com a função sua no esquema. E obviamente que as pessoas no topo dessa cadeia, eh, demoníaca estão morando de frente praia, estão morando em Miami, estão morando em Portugal, estão morando em outro canto, não estão, entendeu? Tão morando em lugar chique porque o dinheiro é muito, entendeu, é muito dinheiro. Você não vai morar no, eh, você, você, você não vai morar num lugar de risco, como, como é uma comunidade que a gente sabe que a pessoa fica desesperada clamando por ação, porque ela tá num lugar de risco, ela quer se sentir mais segura. Essas pessoas não vão ficar ali. E o capital sobre o capital tá nesses fundos, o capital tá em cripto, o capital tá em fundo offshore. É isso que nós estamos, é isso que nós estamos combatendo desde que nós chegamos: tributando offshore, dando transparência, regulamentando cripto, regulamentando BET, cobrando imposto, fazendo a pessoa botar o CPF pra gente saber quem é, eh, impedindo laranja, empurrando a legislação para lugar em que dê, eh, autoridade, legitimidade para, para que os órgãos de segurança possam agir, dando, eh, segurança jurídica para ação. Como agora o Sérgio Moro apresentou uma lei, o presidente achou por bem sancionar a lei do Sérgio Moro. Ué, porque o cara não pode ter uma boa ideia? Teve uma boa ideia, vai lá e sanciona, entendeu? Tá tudo bem. Obrigado pessoal. Obrigado. Tchau, tchau.
RECEBA NOSSAS ÚLTIMAS NOTÍCIAS EM SEU E-MAIL







