Ministro da Fazenda aponta falhas históricas desde a Proclamação da República e afirma sentir-se confortável sendo criticado pelos extremos ideológicos de direita e esquerda
Brasília, 27 de setembro de 2025
Em entrevista ao podcast Três Irmãos, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mergulhou em temas de economia política e história do Brasil, defendendo a tese de que o país sofre historicamente pela ausência de uma classe dirigente e que a Proclamação da República funcionou como uma indenização à classe dominante pela abolição da escravidão.
Segundo Haddad, o Brasil carece de uma classe dirigente, que ele define como um grupo de pessoas que não está focado em acumular dinheiro, mas sim em construir um país com visão de longo prazo e um projeto nacional.
Ele diferencia essa força da classe dominante (proprietária dos meios de produção, como a terra e fábricas).
O Ministro argumenta que, embora países capitalistas mais civilizados tenham uma classe dirigente que enxerga o destino do país, no Brasil, a classe dominante tem grande dificuldade em aceitar essa força autônoma, pois tem medo de interesses que vão além dos seus interesses particulares.
Haddad é enfático ao declarar que “não tem país grande no mundo sem uma classe dirigente” e que, sem ela, “não existe desenvolvimento para valer ou um destino grandioso para uma nação“.
O Acordo Histórico Após a Escravidão
Em sua análise histórica, Haddad disse que a abolição da escravidão no Brasil com indenização.
Ele sustenta que houve, sim, uma compensação, mas em termos políticos: o Estado brasileiro foi transferido pra classe dominante brasileira.
Este acordo histórico, que se manifestou no dia seguinte à abolição (14 de maio), com o movimento “republicanos de última hora” derrubando a monarquia, resultou na transferência do Estado para a mão da “classe dominante a título de indenização“.
O Ministro aponta que a fragilidade da democracia no Brasil é consequência direta desse acordo, “patrocinado pelo exército brasileiro“.
Toda vez que a população “quer se apossar democraticamente do Estado” para fazer valer seus sonhos e seu destino, há uma tentativa de golpe de estado, pois o acordo de transferência de poder é colocado “em cheque“.
O Preço de Ser um Líder Dirigente
Haddad lamenta que, ao longo da história, líderes que tentaram constituir uma “classe dirigente” no país pagaram um alto preço.
Ele citou exemplos: Getúlio tentou criar uma “classe dirigente” no país, o que “custou a vida dele“. Lula teve de arcar com “a liberdade dele“. E Jango teve como custo “o exílio dele“.
Rejeição ao Dogmatismo Ideológico
Com base em sua formação (doutorado em Filosofia), Haddad afirmou ter iniciado sua vida política como crítico “ao capitalismo e ao comunismo“, modelos que, segundo ele, “não vão trazer a melhor coisa e não são modelos libertários“.
Ele defende que é necessário “pensar uma outra sociedade” que não seja presa a esses sistemas, idealizando uma espécie de “socialismo com democracia, com muita liberdade“.
O Ministro reitera que se sente “bem confortável” por ser rotulado e criticado por ambos os lados do espectro político: “o capitalista fala: “Pô esse cara é de esquerda não gosto dele” e o comunista fala: “Esse cara é de direita não gosto dele”.
Ele justifica que não compartilha a “ideologia liberal que acha que o capitalismo é uma maravilha“, nem a ideologia comunista, que ele acredita “não se dão conta do que de fato aconteceu nessa sociedade“.
A temática da classe dirigente é recorrente nos discursos de Fernando Haddad e é frequentemente abordada pela imprensa quando se discute os rumos da economia e da política no Brasil.







