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Discussão nas redes sobre embates Executivo X Congresso resgata edições de 1964 em que O Globo celebra o golpe

    Jornal tratou o movimento militar como “salvação” e perfis nas plataformas usaram isso para afirmar que o Legislativo estaria hoje sendo apoiado pela mídia em detrimento do povo – Texto “Ressurge a Democracia” usou termos como “salvos da comunização” e atacou João Goulart, deposto pela ditadura

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    Bandadad de

    Capa do Jornal O GLOBO em 2.4.1964, um dia após o primeiro dia útil da consumação do golpe militar

    Imagem reprodução/Acervo O GLOBO


    RESUMO <<O debate sobre o papel do Grupo Globo ressurge nas redes sociais, com críticas por seu histórico de alinhamento às elites e apoio à ditadura militar em 1964, quando o jornal O Globo legitimou o golpe como “salvação democrática”. Em 2014, após 50 anos, o veículo reconheceu o erro em editorial, mas sem abordar violações do regime. Hoje, acusado de defender interesses dos super-ricos e atacar críticos à isenção de impostos para baixa renda, a Globo permanece no centro de polêmicas sobre mídia, poder e desigualdade no Brasil.>>


    Brasília, 05 de julho de 2025

    No debate das redes sociais sobre o papel do conglomerado Globo, acusado de defender a elite em detrimento dos pobres e da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, além de, especialmente, se posicionar explicitamente contra a taxação dos super ricos, um perfil exibiu uma imagem do recorte de uma de suas capas sensacionalistas e tendenciosas.

    No contexto histórico, o jornal O Globo, alinhado aos militares, teve objetivo de legitimar o golpe como movimento “democrático” e “patriótico“, usando ironia, com o título falando em “democracia“, mas o golpe iniciou uma ditadura de 21 anos.

    Na ocasião, a imprensa apoiou a ditadura desde o primeiro dia, usando propaganda e manipulação linguística. A redação pregou otimismo sobre o futuro, afirmando que os novos governantes não usariam “má-fé” ou “demagogia“, uma crítica velada a políticas populistas.

    Ufanista, o jornal celebrou o golpe como “salvação” da democracia e criticou o governo de João Goulart, chamando-o de “irresponsável“, dizendo que ele contrariava a “vocação” do Brasil, uma alusão a valores conservadores.

    Além disso, usou a religião, uma das sensibilidades das massas, para atribuir o sucesso do golpe à “Providência Divina“, sugerindo que foi um evento quase miraculoso.

    Para impactar o público, o texto usou termos-chave, como “Vermelhos” (pejorativo para comunistas) e “Palácio do Planalto” (símbolo do governo derrubado. E acusou o governo deposto de “ação subversiva” como justificativa para o golpe, bem como elogiou as Forças Armadas por supostamente “restaurar os direitos da Nação“.

    Usando termos como “bravos militares” e “inimigos” para criar narrativa de heroísmo versus vilania, O Globo quis convencer sobre o Brasil ter sido salvo da “comunização“, graças à união de “patriotas” e aos militares – a ameaça comunista amplificada na história recente da política nacional.

    Imagem Fixa + Texto Rolável
    ANO XXXIX

    ANO XXXIX – Rio de Janeiro, 4ª-feira, 1 de abril de 1964 – Nº 11 643

    O GLOBO

    FUNDAÇÃO IRINEU MARINHO

    Ressurge a Democracia!

    VIVE A NAÇÃO dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opiniões sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem.

    GRAÇAS A DECISÃO e ao heroísmo das Forças Amadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

    PODEREMOS, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negos públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

    SALVOS DA COMUNIZAÇÃO que sorrateiramente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos.

    ATENDENDO AOS anseios nacionais de paz, tranquilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-a do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

    MAIS UMA VEZ, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise sem maiores sofrimentos e lutas. Sejamos dignos de tão grande favor”.

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    A publicação com o compartilhamento da imagem da matéria foi feita pelo perfil no X @PaulobhzBz e foi seguida de comentários como “que baixaria”, “canalhada traidora da pátria”, “eles apoiaram a ditadura, esperar o que deles?“, e “a prostituição do jornalismo: se pagar, eles falam até a verdade”.

    A prova da defesa da ditadura por O Globo foi resposta a uma sequência de mensagens do cientista geopolítico e influenciador digital Vinicios Betiol.

    Ele escreveu em uma thread no X argumentando que “o grupo Globo fez uma reportagem pra atacar nominalmente comunicadores que criticaram o congresso por defender os super-ricos”.

    De um lado temos pessoas pobres, cidadãos comuns exercendo o direito democrático de criticar os políticos. Do outro lado temos um grupo midiático bilionário, que foi porta-voz da ditadura e que hoje é porta-voz das elites econômicas”, prossegue Betiol.

    Ele acrescenta que “durante décadas o grupo Globo atacou covardemente os direitos dos trabalhadores pra garantir os interesses dos seus patrões“.

    Betiol compartilhou uma imagem de dois anos antes do golpe, durante o governo João Goulart, que foi deposto, com O Globo se posicionando contra a criação do 13º Salário.

    Imagem Fixa + Texto Rolável
    Jornal O Globo em 1962

    O 13º salário foi instituído no Brasil em 1962, durante o governo de João Goulart, pela Lei nº 4.090, sancionada em 13 de julho.

    Ele garante aos trabalhadores uma gratificação anual equivalente a 1/12 do salário de dezembro por mês trabalhado.

    Sua criação foi resultado de décadas de lutas trabalhistas, incluindo greves e mobilizações desde os anos 1920.

    A lei foi aprovada após uma greve geral, em um cenário de crise econômica e política.

    Além de ser um direito fundamental, o 13º salário impulsiona a economia, aumentando o consumo e o comércio no final do ano.

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    Na sequência, Betiol argumeta que, “com as redes sociais, as pessoas têm a possibilidade de dar a sua opinião. Só que a velha Globo, fã da tortura de quem pensa diferente, utilizou toda a sua infraestrutura que conta com concessão pública, dinheiro público e dinheiro dos super-ricos, pra fazer ataques a cidadãos que expressaram a sua opinião na internet”.

    E finalizou dizendo: “Eu deixo aqui o meu repúdio à Globo e a minha solidariedade aos amigos @ThiagoResiste e @PedroRonchi2, que foram atacados pelo grupo midiático da ditadura militar e das elites econômicas“.

    Somente após 50 anos, o grupo Globo reconheceu seu erro sobre o apoio ao golpe de 1964.

    Em 31 de março de 2014, exatos cinquenta anos após o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil, o jornal O Globo publicou um editorial histórico intitulado “Apoio ao golpe de 64 foi um erro“.

    Este marcou o primeiro e único reconhecimento formal do veículo sobre seu posicionamento favorável à intervenção militar em 1964.

    No texto, o jornal admitiu que “de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais“, acrescentando que “a lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História“.

    Na publicação de 2014, O Globo exibiu a capa do dia seguinte, 2 de abril de 1964, dizendo que Jango havia fugido. O texto “Ressurge a Democracia!” recebeu parágrafos adicionais.

    Leia a autocrítica de O Globo postada em 2014, considerada tímida por analistas e historiadores:

    Imagem Fixa + Texto Rolável
    Jornal O Globo em 1962

    31 DE MARÇO DE 1964

    Apoio ao golpe de 64 foi um erro

    Diante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, é frequente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que O GLOBO apoiou editorialmente o golpe militar de 1964.

    A lembrança é sempre um incômodo para o jornal, mas não há como refutá-la. É História. O GLOBO, de fato, à época, concordou com a intervenção dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”, para citar apenas alguns. Fez o mesmo parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais.

    Naqueles instantes, justificavam a intervenção dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com amplo apoio de sindicatos — Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical” — e de alguns segmentos das Forças Armadas.

    Na noite de 31 de março de 1964, por sinal, O GLOBO foi invadido por fuzileiros navais comandados pelo almirante Cândido Aragão, do “dispositivo militar” de Jango, como se dizia na época. O jornal não pôde circular no dia 1º. Sairia no dia seguinte, 2 de abril, quinta-feira, com o editorial impedido de ser impresso pelo almirante, “A decisão da pátria”. Na primeira página, um novo editorial: “Ressurge a Democracia”. (fac-símiles da primeira página e da página 3, da edição de 2 de abril de 1964, na galeria de páginas).

    A divisão ideológica do mundo na Guerra Fria, entre Leste e Oeste, comunistas e capitalistas, se reproduzia, em maior ou menor medida, em cada país. No Brasil, ela era aguçada e aprofundada pela radicalização de João Goulart, iniciada tão logo conseguiu, em janeiro de 1963, por meio de plebiscito, revogar o parlamentarismo, a saída negociada para que ele, vice, pudesse assumir na renúncia do presidente Jânio Quadros. Obteve, então, os poderes plenos do presidencialismo. Transferir parcela substancial do poder do Executivo ao Congresso havia sido condição exigida pelos militares para a posse de Jango, um dos herdeiros do trabalhismo varguista. Naquele tempo, votava-se no vice-presidente separadamente. Daí o resultado de uma combinação ideológica contraditória e fonte permanente de tensões: o presidente da UDN e o vice do PTB. A renúncia de Jânio acendeu o rastilho da crise institucional.

    A situação política da época se radicalizou, principalmente quando Jango e os militares mais próximos a ele ameaçavam atropelar Congresso e Justiça para fazer reformas de “base” “na lei ou na marra”. Os quartéis ficaram intoxicados com a luta política, à esquerda e à direita. Veio, então, o movimento dos sargentos, liderado por marinheiros — Cabo Anselmo à frente —, a hierarquia militar começou a ser quebrada e o oficialato reagiu.

    Naquele contexto, o golpe, chamado de “Revolução”, termo adotado pelo GLOBO durante muito tempo, era visto pelo jornal como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia. Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica. Na justificativa das Forças Armadas para a sua intervenção, ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda, o poder voltaria aos civis. Tanto que, como prometido, foram mantidas, num primeiro momento, as eleições presidenciais de 1966.

    O desenrolar da “revolução” é conhecido. Não houve as eleições. Os militares ficaram no poder 21 anos, até saírem em 1985, com a posse de José Sarney, vice do presidente Tancredo Neves, eleito ainda pelo voto indireto, falecido antes de receber a faixa.

    No ano em que o movimento dos militares completou duas décadas, em 1984, Roberto Marinho publicou editorial assinado na primeira página. Trata-se de um documento revelador. Nele, ressaltava a atitude de Geisel, em 13 de outubro de 1978, que extinguiu todos os atos institucionais, o principal deles o AI-5, restabeleceu o habeas corpus e a independência da magistratura e revogou o Decreto-Lei 477, base das intervenções do regime no meio universitário. Destacava também os avanços econômicos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua adesão aos militares em 1964, deixava clara a sua crença de que a intervenção fora imprescindível para a manutenção da democracia e, depois, para conter a irrupção da guerrilha urbana. E, ainda, revelava que a relação de apoio editorial ao regime, embora duradoura, não fora todo o tempo tranquila. Nas palavras dele: “Temos permanecido fiéis aos seus objetivos [da revolução], embora conflitando em várias oportunidades com aqueles que pretenderam assumir a autoria do processo revolucionário, esquecendo-se de que os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, ‘por exigência inelutável do povo brasileiro’. Sem povo, não haveria revolução, mas apenas um ‘pronunciamento’ ou ‘golpe’, com o qual não estaríamos solidários”. (fac-símile da primeira página de 7 de outubro de 1984, na galeria de páginas).

    Não eram palavras vazias. Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o país no período em que esteve à frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade. Cobrou de Getúlio uma constituinte que institucionalizasse a Revolução de 30, foi contra o Estado Novo, apoiou com vigor a Constituição de 1946 e defendeu a posse de Juscelino Kubistchek em 1955, quando esta fora questionada por setores civis e militares.

    Durante a ditadura de 1964, sempre se posicionou com firmeza contra a perseguição a jornalistas de esquerda: como é notório, fez questão de abrigar muitos deles na redação do GLOBO. São muitos e conhecidos os depoimentos que dão conta de que ele fazia questão de acompanhar funcionários de O GLOBO chamados a depor: acompanhava-os pessoalmente para evitar que desaparecessem. Instado algumas vezes a dar a lista dos “comunistas” que trabalhavam no jornal, sempre se negou, de maneira desafiadora. Ficou famosa a sua frase ao general Juracy Magalhães, ministro da Justiça do presidente Castello Branco: “Cuide de seus comunistas, que eu cuido dos meus”. Nos vinte anos durante os quais a ditadura perdurou, O GLOBO, nos períodos agudos de crise, mesmo sem retirar o apoio aos militares, sempre cobrou deles o restabelecimento, no menor prazo possível, da normalidade democrática.

    Contextos históricos são necessários na análise do posicionamento de pessoas e instituições, mais ainda em rupturas institucionais. A História não é apenas uma descrição de fatos, que se sucedem uns aos outros. Ela é o mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se enriquece ao reconhecê-los.

    Os homens e as instituições que viveram 1964 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país. À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.

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    O editorial reconheceu o equívoco do apoio inicial ao golpe, mas não aprofundou a discussão sobre as graves violações de direitos humanos cometidas durante o regime militar, como a censura sistemática, a tortura generalizada e os desaparecimentos forçados.

    O texto limitou-se a contextualizar o período, mencionando que parte significativa da imprensa e da população brasileira também apoiou a intervenção militar, como evidenciado pelas grandes manifestações pró-golpe no Rio de Janeiro e São Paulo.

    A demora de cinco décadas para esse reconhecimento público pode ser explicada por diversos fatores. Durante o regime militar, o grupo Globo estabeleceu relações estreitas com o governo, obtendo vantagens como concessões de canais de televisão – um período que coincidiu com a expansão do império midiático da família Marinho.

    Somente após a redemocratização e sob crescente pressão social e acadêmica, o jornal começou a revisar sua postura histórica.

    Comparativamente, outros grandes veículos que apoiaram o golpe fizeram suas autocríticas em momentos diferentes. A Folha de S.Paulo, por exemplo, iniciou esse processo já nos anos 1980, enquanto O Estado de S. Paulo – que em alguns momentos resistiu à censura – só revisou seu apoio décadas depois. O Jornal do Brasil manteve uma postura mais ambígua ao longo do regime, alternando entre alinhamento e oposição.

    O editorial de 2014 representa um marco simbólico na narrativa do Globo sobre a ditadura militar, mas especialistas apontam suas limitações. Como observa Alvaro Nascimento em “O apoio de O Globo ao regime militar“, o veículo nunca fez uma retratação abrangente sobre seu papel durante os “anos de chumbo“, contentando-se com esse reconhecimento pontual e bastante circunscrito.

    Apesar disso, o mea culpa tardio permanece como um documento importante para entender as complexas relações entre imprensa e poder no Brasil contemporâneo.


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