Renúncia expõe tensões na coalizão internacional que busca romper o bloqueio naval israelense, enquanto a missão prossegue com ajuda essencial para civis palestinos
Brasília, 20 de setembro de 2025
A ativista sueca Greta Thunberg, de apenas 22 anos, anunciou sua saída da direção da Global Sumud Flotilla, a frota internacional considerada a maior coalizão humanitária marítima em anos, que navega pelo Mediterrâneo com o objetivo de romper o cerco naval imposto por Israel à Faixa de Gaza.
A decisão, revelada em um comunicado oficial nesta semana, não impede que Thunberg continue a bordo como “organizadora e participante”, agora transferida para o navio Alma, de bandeira britânica.
A mudança ocorre em meio a uma operação que mobiliza cerca de 50 embarcações e centenas de ativistas de mais de 40 países, carregando suprimentos essenciais como alimentos e medicamentos para uma população palestina devastada pela guerra.
De acordo com fontes próximas à missão, as divergências que levaram à renúncia de Thunberg giram em torno de questões de comunicação e foco estratégico.
Relatos da imprensa italiana, como o jornal La Repubblica, apontam que alguns membros da coalizão criticaram a ênfase excessiva na visibilidade da própria flotilha, o que estaria desviando a atenção da catástrofe humanitária em Gaza, onde mais de 63 mil civis já perderam a vida desde o início do conflito com o Hamas, segundo autoridades locais.
“Acredito muito no objetivo desta missão humanitária, bem como no poder e no simbolismo da mobilização global por uma Palestina livre. Todos temos um papel a desempenhar para garantir que estes movimentos se mantêm descentralizados, descoloniais e focados no seu propósito: Gaza e a Palestina“, declarou Thunberg em seu comunicado, enfatizando sua crença na causa apesar da saída da liderança.
Ela acrescentou: “Nunca é demais sublinhar a necessidade e urgência desta missão, mesmo que não devessem ser civis a assumir um dever que é dos governos mundiais e defender os direitos humanos e a lei internacional”.
A Global Sumud Flotilla, uma aliança de organizações não governamentais como a Freedom Flotilla Coalition, o Movimento Global para Gaza e a Flotilha Sumud do Magrebe, partiu inicialmente de portos como Barcelona, na Espanha, e Bizerte, na Tunísia, após atrasos burocráticos e logísticos.
O “barco-mãe” da expedição, o Família Madeira, de bandeira portuguesa, transporta uma delegação luso que inclui a deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua, o ativista Miguel Duarte e a atriz Sofia Aparício.
Antes de se mudar para o Alma, Thunberg navegava no Família Madeira ao lado de outros líderes, como o ativista brasileiro Thiago Ávila e a grega Kleoniki Alexopoulou, que permanecem na direção.
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Em entrevista ao Expresso, Mortágua explicou que a decisão de Thunberg foi tomada há semanas, atribuindo-a à entrada tardia da ativista na coalizão e à falta de acesso pleno a informações internas, o que limitava sua efetividade na liderança.
Já Miguel Duarte, em declarações à SIC Notícias, destacou que a renúncia reflete ajustes necessários para manter o foco na urgência da crise, sem comprometer a segurança da tripulação.
“A decisão foi tomada há algumas semanas, refletindo mudanças recentes na estrutura”, afirmou Duarte, que também relatou incidentes recentes, como supostos ataques com drones contra o Família Madeira e o Alma ao largo da Tunísia nas noites de 8 e 9 de setembro, causando incêndios superficiais, mas sem vítimas.
O Observador e o JN corroboram os desentendimentos internos, citando preocupações com a segurança em um contexto de guerra, onde a flotilha enfrenta potenciais interceptações israelenses – semelhantes às de junho e julho, quando tentativas anteriores foram bloqueadas.
A partida da Tunísia ocorreu em 15 de setembro, destacando o apelo de Thunberg por uma “resposta cívica à inércia governamental”. A biografia de Thunberg foi removida do site oficial da flotilha, sinalizando uma transição formal.
Essa renúncia chega em um momento crítico: a flotilha, que se reuniu na Sicília, na Itália, com 42 navios de Espanha, Itália e o Magrebe, visa não apenas entregar ajuda, mas também “abrir um corredor humanitário e pôr fim ao genocídio em curso do povo palestiniano”, como afirmam os organizadores.
Com um milhão de deslocados no sul de Gaza, segundo autoridades locais, e relatos de fome em partes do território, a missão simboliza a frustração global com a paralisia diplomática.
Apesar das tensões, a coalizão insiste que a saída de Thunberg fortalece o caráter descentralizado do movimento, permitindo que vozes menos midiáticas ganhem destaque.
A frota prossegue em águas internacionais, com previsão de chegada incerta, mas determinada a ecoar a mensagem de solidariedade: “O mundo não esqueceu Gaza“.







