| Bogotá (CO)
22 de agosto de 2026
O governo de Abelardo de la Espriella, novo presidente da Colômbia, suspendeu a programação jornalística e comunitária das 20 Emisoras de Paz, rádios públicas criadas para atender regiões atingidas pelo conflito armado.
As emissoras passaram a transmitir música de Bogotá, interrompendo temporariamente a produção local de notícias.
O que aconteceu?
A decisão foi comunicada na segunda-feira (17/ago), quando o Inravisión, sistema público de meios de comunicação da Colômbia, enviou uma orientação aos responsáveis pelas 20 Emisoras de Paz para que interrompessem a programação habitual.
A partir do dia seguinte, as rádios deixaram de transmitir os conteúdos jornalísticos, culturais e comunitários produzidos pelas próprias equipes nos municípios onde estão instaladas.
No lugar dessa programação, passaram a transmitir música gerada a partir de Bogotá, segundo a reportagem do veículo colombiano independente El Armadillo.
Isso é importante porque essas emissoras não foram criadas como simples estações musicais.
Elas nasceram de um compromisso assumido pelo Estado colombiano no Acordo de Paz de 2016, firmado entre o governo colombiano e as FARC para encerrar décadas de conflito armado.
O que são as “Emisoras de Paz”?
A rede pública de rádios foi criada especificamente para levar informação a comunidades que viveram durante anos em regiões dominadas ou afetadas pela guerra.
As 20 emissoras foram instaladas em municípios que sofreram diretamente os efeitos do conflito.
A ideia era produzir conteúdo a partir desses territórios, e não apenas transmitir para eles a programação feita na capital.
Entre as localidades atendidas estão Ituango, El Tambo, Bojayá, Mesetas, Arauquita, Puerto Leguízamo, Fonseca, Chaparral, Convención, San Jacinto, Florida, Algeciras, San José del Guaviare, San Vicente del Caguán, Fundación, Tumaco, Riosucio, Tierralta, Agustín Codazzi e Buenaventura.
Essas regiões têm uma característica em comum: muitas foram profundamente afetadas pelo conflito entre o Estado, as FARC, grupos paramilitares e outras organizações armadas.
Por isso, a rádio tinha uma função que ia além do entretenimento.
Ela ajudava a comunidade a saber o que acontecia no próprio município.
Por que uma rádio local é tão importante?
A diferença pode parecer pequena para quem vive em uma grande cidade brasileira, onde existem televisão, internet, jornais, redes sociais e dezenas de fontes de informação.
Em uma área rural colombiana, a realidade pode ser muito diferente.
A reportagem do El Armadillo relata, por exemplo, que a emissora de Ituango, em Antioquia, alcança 16 municípios e mais de 100 veredas — comunidades rurais espalhadas por uma área extensa.
Nesse tipo de região, uma rádio local pode informar sobre serviços públicos, estradas, agricultura, atividades culturais, acontecimentos comunitários e questões de segurança.
Mais importante: os próprios moradores podem participar da produção da informação.
Foi justamente esse modelo que começou a ser interrompido pela decisão do novo governo.
De informação local para música transmitida da capital
Segundo o Al Punto, as 20 Emisoras de Paz foram conectadas a Bogotá e passaram a transmitir exclusivamente música depois da ordem de suspensão.
A consequência prática é simples de entender:
antes: jornalistas e produtores locais faziam programas para as comunidades;
agora: essas frequências recebem uma programação musical produzida fora dos territórios.
O problema apontado pelos veículos independentes colombianos é que, nesse processo, desaparece justamente a característica que justificou a criação das emissoras.
A rádio deixa de funcionar como uma espécie de janela permanente para a realidade local.
Por que essas rádios foram criadas?
As Emisoras de Paz fazem parte da implementação do Acordo de Paz de 2016.
O objetivo era ajudar a levar comunicação pública a regiões que haviam ficado durante décadas no centro do conflito.
O projeto também buscava estimular a convivência, a participação das comunidades e a construção da paz.
O El Espectador, em reportagem sobre o projeto, explicou que as 20 emissoras foram pactuadas no processo de paz de Havana justamente para contribuir para a construção da paz nas regiões mais afetadas pelo conflito.
Portanto, não se trata simplesmente de vinte rádios públicas que tiveram sua programação alterada.
Existe uma dimensão histórica na decisão: são meios de comunicação criados como parte de uma política pública relacionada ao processo de paz colombiano.
O que o governo de De la Espriella pretende fazer?
As fontes colombianas consultadas indicam que a suspensão está relacionada a uma reorganização mais ampla do sistema público de comunicação.
O governo de Abelardo de la Espriella chegou ao poder defendendo uma revisão das estruturas criadas ou fortalecidas durante administrações anteriores.
O problema é que, até o momento da publicação das reportagens do El Armadillo e do Al Punto, não havia uma explicação detalhada sobre qual será o destino definitivo das 20 Emisoras de Paz.
O próprio El Armadillo informou que procurou o governo e a gerente do sistema público, Ángela María Mora, mas não havia recebido resposta até a publicação da reportagem.
Também havia relatos de que as emissoras poderiam sofrer mudanças de nome e programação, mas essas informações eram tratadas como rumores pelas fontes ouvidas pelo veículo e, portanto, não devem ser apresentadas como decisão oficial.
O impacto sobre os jornalistas
A mudança também ameaça o trabalho das equipes responsáveis pela produção local.
De acordo com o El Armadillo, aproximadamente 105 pessoas, entre jornalistas e técnicos, trabalham nas Emisoras de Paz por meio de contratos de prestação de serviços.
Uma das jornalistas ouvidas pelo veículo relatou preocupação com o futuro dos contratos.
O problema é especialmente relevante porque muitos profissionais têm contratos previstos até outubro e ainda não sabem o que acontecerá depois.
Assim, a discussão não envolve apenas a programação das rádios.
Existe também uma questão trabalhista e profissional para as equipes que construíram a comunicação local nesses territórios.
O que dizem os veículos independentes colombianos?
O Al Punto classificou a suspensão como um novo motivo de preocupação nas regiões mais atingidas pelo conflito e chamou atenção para três questões: acesso à informação, participação comunitária e cumprimento do Acordo de Paz.
Já o El Armadillo ouviu moradores de Ituango, que defenderam a permanência da característica territorial da emissora.
Um dos entrevistados explicou que a rádio dava à região uma imagem diferente daquela normalmente associada a áreas marcadas pela violência: em vez de apresentar apenas a presença de grupos armados, mostrava uma comunidade vivendo, produzindo cultura e tentando reconstruir sua vida.
Esse aspecto ajuda a explicar por que a decisão tem significado maior do que uma simples troca de programação.
O debate sobre liberdade de imprensa
A suspensão das Emisoras de Paz também provocou reação de organizações colombianas ligadas à liberdade de imprensa.
A Fundación para la Libertad de Prensa (FLIP) afirmou que a interrupção da programação das emissoras é preocupante porque atinge meios criados no âmbito do Acordo de Paz de 2016.
A entidade se manifestou conjuntamente com a Misión de Observación Electoral (MOE) e a Asociación Mundial de Radios Comunitarias (AMARC).
A preocupação não significa, necessariamente, que o governo tenha determinado o fechamento definitivo das emissoras.
A decisão acontece em um governo de direita
Abelardo de la Espriella assumiu a Presidência da Colômbia em 7 de agosto de 2026, depois de uma campanha marcada por posições de direita e forte oposição ao legado político do governo anterior.
Sua relação com o Acordo de Paz já havia provocado críticas durante a campanha.
Em julho, o ex-presidente Juan Manuel Santos, que assinou o acordo como presidente da Colômbia em 2016, afirmou publicamente que De la Espriella teria de cumprir as obrigações constitucionais relacionadas à implementação do acordo.
A suspensão das Emisoras de Paz, portanto, acontece em um momento em que o futuro das políticas públicas criadas a partir do acordo voltou ao centro do debate colombiano.
Uma questão maior: quem conta a história de um território?
Durante décadas, muitas regiões colombianas foram apresentadas ao restante do país principalmente através das notícias sobre guerrilhas, paramilitares, narcotráfico e confrontos armados.
As Emisoras de Paz foram criadas para fazer algo diferente: permitir que essas comunidades também contassem suas próprias histórias.
Um agricultor poderia falar sobre sua produção. Uma comunidade indígena poderia falar sobre suas necessidades. Um grupo cultural poderia divulgar suas atividades. Uma vítima do conflito poderia participar de um programa. Um município poderia informar seus moradores diretamente.
Essa comunicação local não elimina os problemas dessas regiões. Mas muda quem tem a possibilidade de falar sobre elas.
É justamente essa função que fica temporariamente interrompida.
A pergunta que fica
O governo de Abelardo de la Espriella pode reorganizar os meios públicos colombianos e modificar sua programação.
A questão mais sensível é outra: o que acontecerá com uma política de comunicação criada como parte do processo de paz?
Se a mudança for apenas administrativa e temporária, as emissoras poderão voltar a produzir jornalismo local.
Se houver uma alteração estrutural permanente, será necessário avaliar o que acontecerá com a finalidade original dessas frequências.
Para as comunidades que receberam essas rádios como parte da implementação do Acordo de Paz, a diferença não é pequena.
Não se trata apenas de escolher entre jornalismo e música.
Trata-se de decidir se essas comunidades continuarão tendo meios públicos para falar diretamente sobre aquilo que acontece em seus próprios territórios.
O caso continua em desenvolvimento na Colômbia. A definição sobre a programação e o futuro das 20 Emisoras de Paz poderá esclarecer se a medida é apenas uma suspensão temporária ou o início de uma mudança permanente no modelo de comunicação pública criado após o Acordo de Paz.
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