Entenda a crítica da Ministra à manchete que abalou o debate sobre jornada laboral
Brasília (DF) · 01 de março de 2026
A deputada federal e ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), disparou críticas contundentes contra uma reportagem da Folha de S.Paulo deste domingo (1/mar).
No post publicado em sua conta na plataforma de microblog X, Gleisi destacou a repercussão negativa de uma manchete que, segundo ela, rotulou os trabalhadores brasileiros como preguiçosos, forçando repórter e pesquisador a se explicarem na coluna da ombudsman.
“A repercussão negativa da manchete da @folha que chamou os trabalhadores brasileiros de preguiçosos foi tão grande que, neste domingo, repórter e pesquisador tiveram de se explicar na coluna da ombudsmann. O preconceito e a manipulação grosseira de dados ficaram expostos na coluna, assim como o viés editorial da Folha contra uma justa reivindicação dos trabalhadores“, afirmou Hoffmann.
A controvérsia remonta à reportagem assinada pelo jornalista Rafael Cariello, veiculada em 21 de fevereiro, intitulada “Brasileiro trabalha menos que a média mundial; veja rankings“.
Nela, com base em estudo do economista Daniel Duque, do FGV Ibre, é apontado que os brasileiros dedicam, em média, 40,1 horas semanais ao trabalho remunerado, contra 42,7 horas da média global, em dados de 2022 e 2023.
Alguns trechos do texto dizem que, “em comparação com o resto do mundo, o brasileiro não trabalha muito. Nem pode ser considerado particularmente esforçado“.
“No Brasil, segundo o levantamento, trabalha-se 1 hora e 12 minutos a menos por semana do que seria esperado dado o seu nível de produtividade e o seu perfil demográfico“, afirma a matéria da Folha.
O estudo atribui o “desvio brasileiro” a uma “questão cultural, uma preferência por maior quantidade de lazer“, sem menção direta à preguiça, mas implicando menor esforço relativo a outros países.
Comparações internacionais destacam nações como França (31 horas/semana) e Emirados Árabes Unidos (líder em esforço extra), usando dados da OIT e Banco Mundial.
A reação foi imediata e multifacetada. Em coluna publicada na quinta-feira (26/fev), o jornalista Thiago Amparo rebateu o que chamou de reavivamento do mito colonial da preguiça.
“Eu li a matéria nesta Folha intitulada ‘Brasileiro trabalha menos que a média mundial’ na voz manhosa de Macunaíma lamentando ‘Ai! Que preguiça!’“, escreveu ele, criticando: “Nas entrelinhas da objetividade econométrica esconde-se o reavivamento acrítico do mito colonial da preguiça em pleno século 21“.
Amparo contextualiza historicamente o estigma, citando desde a colonização até o Código Penal de 1890, que punia “vadios”, e argumenta que o estudo ignora fatores como tempo de deslocamento – em São Paulo, superior a duas horas diárias.
A pressão culminou na coluna da ombudsman Alexandra Moraes, divulgada no sábado (28/fev), onde repórter e pesquisador admitem falhas.
Moraes descreve a repercussão: “A frase foi colocada em dúvida por muitos leitores e ofendeu outros tantos“, citando um leitor que questionou: “Então, o trabalhador do Butão é mais esforçado que o brasileiro? O que isso significa? O trabalhador da Folha é mais preguiçoso? Não é tão empenhado assim?”.
Cariello reconhece erro na abertura: “Eu não devia ter escrito a segunda frase do primeiro parágrafo. A frase dizia sobre o trabalhador brasileiro: ‘Nem pode ser considerado particularmente esforçado’ […] é moralizante. Pode ter um efeito ofensivo sobre o leitor, e eu vi que teve. Faço aqui um pedido de desculpas“.
Ele complementa que o esforço não se mede só por horas pagas, mas inclui trânsito, trabalho doméstico e estudos, aspectos subestimados na matéria principal.Já Duque defende a neutralidade:
“Não existe juízo de valor da parte dele ou do estudo. As pessoas e a sociedade têm escolhas legítimas em si. Uma sociedade pode preferir mais ou menos lazer, não há nada de errado com isso“, esclarecendo que o termo “desvio” é técnico, não pejorativo.
A ombudsman aponta manipulação: “O material revela um olhar viciado do jornal para a questão trabalhista. A Folha deixou em segundo plano a parte do estudo que mostrava que as brasileiras ‘se aproximam de padrão mundial de horas trabalhadas‘”, e menciona críticas externas, como a do economista Victor Rangel, que replicou os dados e inverteu conclusões, embora Duque refute: “O exercício do colega pode gerar interpretação enganosa”.
Outras fontes ampliam o debate. No Jornal GGN, o jornalista Luís Nassif acusa embuste: “A inacreditável manchete da Folha de hoje, claramente alinhada com a ofensiva conservadora para impedir a escala 5 x 2“, destacando que pesquisas ignoram deslocamento.
No Brasil 247, o analista Tiago Barbosa chama a abordagem de “chicote na mão do patrão“, afirmando: “Rotular os brasileiros de preguiçosos para barrar o fim da escravizante escala 6×1 é só mais uma prova incontestável de ódio ao trabalhador“, e que a mídia sempre prioriza patrões.
A polêmica reflete tensões maiores no Congresso Nacional, onde propostas como o fim da 6×1, apoiadas pelo PT e governo Lula, enfrentam resistência de empresários e mídia conservadora.
Analistas veem no episódio um viés editorial que desumaniza reivindicações por mais equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, ecoando narrativas históricas de exploração.

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