| Rio de Janeiro (RJ)
05 de setembro de 2026
O ator José de Abreu, filiado ao PT e candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, provocou neste sábado (5/set) o deputado estadual Thiago Gagliasso (PL), que disputa uma vaga na Câmara dos Deputados e tem feito críticas à Lei Rouanet durante a campanha.
No X, Abreu escreveu: “O Gagliasso do mal diz na campanha que vai acabar com a máfia da lei Rouanet. Eu conto ou vocês?”
Thiago Gagliasso Onofre Ferreira, deputado estadual pelo PL e candidato a deputado federal, voltou a utilizar na campanha críticas à Lei Rouanet e o termo “máfia” para se referir ao funcionamento do setor.
José de Abreu é filiado ao PT desde 2013 e disputa uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro. Thiago Gagliasso também concorre a deputado federal pelo estado. Os dois, portanto, integram a mesma disputa proporcional no eleitorado fluminense.
O ator petista postou uma imagem com nomes de artistas da música sertaneja brasileira, entre eles César Menotti e Fabiano, Gusttavo Lima, Bruno e Marrone, Leonardo e Chitãozinho e Xororó. A imagem apresenta um ranking de artistas associado a valores milionários de recursos públicos e o relaciona à Lei Rouanet.
Quem é o “Gagliasso do mal”?
O apelido serve para separar o parlamentar do irmão, o ator Bruno Gagliasso. Thiago foi eleito deputado estadual em 2022 com 102.038 votos. A ruptura familiar, relatada por Bruno à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, nasceu da adesão de Thiago a Jair Bolsonaro, enquanto Bruno passou a apoiar Luiz Inácio Lula da Silva.
Thiago atua na Alerj e construiu carreira digital no ataque a artistas, à Lei Rouanet e à esquerda. José de Abreu, com décadas de novelas e militância petista, ocupa o polo oposto dessa polarização. O ator global ficou ainda mais famoso no meio progressista
A atuação política de José de Abreu
O ator José de Abreu ganhou ampla repercussão política em 2019 ao se autoproclamar, de forma satírica, presidente do Brasil nas redes sociais, em uma provocação à autoproclamação de Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela.
Em fevereiro daquele ano, pouco mais de um mês após Jair Bolsonaro assumir a Presidência da República, Abreu publicou em sua conta no Twitter, hoje X, uma autoproclamação satírica à Presidência do Brasil, inspirada na autoproclamação de Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, então apoiada pelo governo brasileiro.
A brincadeira teve ampla repercussão: a hashtag #JosédeAbreuPresidentedoBrasil chegou ao primeiro lugar entre os assuntos mais comentados no Twitter no Brasil e no mundo, enquanto o ator publicou mensagens simulando atos de governo e nomeações fictícias. A iniciativa provocou reações favoráveis e contrárias.
O que Thiago Gagliasso já disse sobre a Rouanet?
Em 2021, quando ainda atuava profissionalmente, Thiago Gagliasso afirmou ser favorável à Lei Rouanet, mas contrário ao que considerava falta de prestação de contas. Segundo a coluna de Leo Dias, do Metrópoles, Thiago Gagliasso afirmou, em 2021: “São 14 bilhões que não prestaram conta. Não estou falando que ninguém roubou, que pegaram ou que sou contra. Estou falando que não prestaram conta!”
Na mesma entrevista, ao comentar a atuação de pessoas ligadas ao setor, concluiu: “a galera ali vai manipulando é uma máfia”. A referência à “máfia” usada na campanha de 2026, portanto, retoma um termo que ele próprio já havia empregado em 2021.
IMPORTANTE: A Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991) funciona, no mecanismo de incentivo fiscal, por meio da autorização para que projetos culturais aprovados captem recursos junto a pessoas físicas e jurídicas que destinam parte do Imposto de Renda devido ao projeto. O dinheiro é movimentado em conta específica do projeto, sob regras de acompanhamento e prestação de contas. No audiovisual, a Lei Rouanet é um dos mecanismos de incentivo fiscal existentes, ao lado de instrumentos específicos do setor, como a Lei do Audiovisual.
Em 2021, Bruno Gagliasso defendeu a importância da Lei Rouanet para trabalhadores da indústria cultural. No mesmo período, Thiago Gagliasso criticava a aplicação da legislação, cobrava a devolução de cachês em determinados casos e empregava o termo “máfia” para se referir ao que considerava manipulação no setor.
Agora, “Gagliasso do mal” e o próprio José de Abreu estão inseridos na disputa eleitoral de 2026. A Lei Rouanet volta, assim, a ocupar espaço no debate político e eleitoral.
O debate reúne três questões distintas: o funcionamento da renúncia fiscal, os problemas de fiscalização e prestação de contas que podem ocorrer em projetos culturais e o uso político do tema durante campanhas eleitorais. Quando essas dimensões são apresentadas como se fossem uma só, aumenta o risco de atribuir à Lei Rouanet problemas que podem estar relacionados a outras formas de contratação ou financiamento cultural.
Esclarecimento sobre o ranking de artistas associado à Lei Rouanet
A imagem publicada por José de Abreu reproduz um ranking que circula nas redes sociais com valores atribuídos a artistas sertanejos. A origem do levantamento, porém, precisa ser diferenciada da forma como a imagem o apresenta.
O levantamento divulgado por parlamentares reuniu valores provenientes de diferentes fontes de recursos públicos, incluindo contratos de prefeituras e governos estaduais, emendas parlamentares e mecanismos de incentivo cultural. Portanto, não é correto apresentar automaticamente o total atribuído a cada artista como dinheiro recebido exclusivamente por meio da Lei Rouanet.
A própria Lei Rouanet funciona de maneira diferente de uma contratação direta de um artista por uma prefeitura. No mecanismo de incentivo fiscal, projetos culturais aprovados recebem autorização para captar recursos junto a pessoas físicas e jurídicas, que podem deduzir o valor incentivado do Imposto de Renda devido. Os recursos são movimentados em conta específica do projeto e ficam sujeitos a acompanhamento e prestação de contas.
Isso significa que um cachê pago por uma prefeitura para a realização de um show, por exemplo, não deve ser automaticamente classificado como recurso da Lei Rouanet. São modalidades distintas de financiamento ou contratação pública.
Por isso, a expressão “artistas mais bem remunerados pela Lei Rouanet”, quando aplicada a esse ranking sem explicar a composição dos valores, pode induzir o leitor a uma conclusão incorreta. O mais preciso é descrevê-lo como um levantamento de valores associados a recursos públicos e diferentes modalidades de financiamento cultural.
Como a Lei Rouanet voltou à campanha de 2026?
O Ministério da Cultura informou recorde de captação no primeiro trimestre de 2026: R$ 355,4 milhões. Para o campo que defende o mecanismo, o número mostra retomada de investimento e emprego na economia criativa. Para Thiago Gagliasso e o PL, o volume reforça a tese de que o “sistema” voltou a operar.
Levantamento do Metrópoles mostrou que poucos presidenciáveis citam a lei pelo nome nos planos de governo. Enquanto a disputa nacional hesita, o Congresso fluminense já transformou a Rouanet em bordão de palanque.
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