Fundador e CEO do Telegram, Pavel Durov | Arquivo: Albert Gea/Reuters
A Justiça do país considera que a ausência de moderação e cooperação com as autoridades, em relação às ferramentas oferecidas pelo aplicativo de mensagens, torna o CEO da plataforma cúmplice de tráfico de drogas, crimes contra crianças e fraudes
O bilionário Pavel Durov, fundador e CEO do aplicativo de mensagens Telegram, foi preso neste sábado (24/8) na França, ao chegar do Azerbaijão, quando descia de seu jato particular na pista do aeroporto de Le Bourget, nos arredores de Paris, de acordo com jornais franceses.
Havia um mandado contra Durov, emitido com base em uma investigação preliminar da OFMIN, um escritório especializado no combate à violência contra menores. Os crimes imputados ao bilionário incluem fraude, tráfico de drogas, cyberbullying e crime organizado, disse a AFP.
A Justiça considera que a ausência de moderação e cooperação com as autoridades, em relação às ferramentas oferecidas pelo Telegram, o torna cúmplice pelos crimes.
Durov, de naciolalidade franco-russa, também é acusado de não tomar medidas contra o uso nocivo do Telegram. Ele enfrenta possível indiciamento neste domingo (25/8). A TF1 TV e a BFM TV informaram que investigação se concentrou na falta de moderadores e que a polícia considerou que essa situação permitiu que atividades criminosas continuassem sem impedimento no aplicativo de mensagens.
Um dos investigadores disse à AFP que ficaram surpresos que Durov tenha entrado na França apesar do mandado contra ele, acrescentando: “Chega da impunidade do Telegram“.
Enquanto isso, a embaixada russa na França exigiu acesso consular a Durov e exigiu que seus direitos fossem garantidos, informou a agência de notícias estatal russa TASS. A embaixada disse que o país governado por Emmanuel Macron até agora “evitou envolvimento” na situação. Diplomatas russos estão em contato com o advogado do CEO, disse a embaixada.
A embaixada da Rússia na França afirmou à agência de notícias estatal russa Tass que não foi contatada pela equipe de Durov após os relatos da prisão, mas que está tomando “medidas imediatas” para esclarecer a situação.
A agência Reuters procurou o Telegram para um posicionamento, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. O Ministério do Interior francês e a polícia também não comentaram.
TELEGRAM
O Telegram, cuja base de usuários é próxima de um bilhão, foi fundado na Rússia em 2013 pelos irmãos Pavel e Nikolai Durov, mas tem sede em Dubai, Emirados Árabes Unidos, após fuga da Federação em 2014 e viagem por todo o mundo em busca de um local para o escritório, o que incluiu a capital alemã, Berlim, e São Francisco, nos Estados Unidos.
Contudo, após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022, o Telegram se tornou a principal fonte de conteúdo não filtrado e, às vezes, gráfico de ambas as partes em conflito.
O aplicativo oferece criptografia de ponta a ponta, conversas secretas e a capacidade de apagar mensagens automaticamente. A ideia surgiu em 2011, quando Pavel Durov percebeu a necessidade de uma forma segura de comunicação, após uma tentativa de invasão em sua casa pelas forças especiais russas.
Antes do Telegram, os irmãos fundaram a popular rede social VKontakte ou VK em 2006, conhecida como o Facebook russo.
Guerra Rússia-Ucrânia
O aplicativo é muito usado por autoridades russas e ucranianas, incluindo o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy.
No entanto, devido à crescente popularidade do Telegram, vários países na Europa, incluindo a França, examinaram o aplicativo devido a preocupações com segurança e violação de dados. O representante da Rússia em organizações internacionais em Viena, Mikhail Ulyanov, acusou a França de agir como uma sociedade “totalitária”.
“Algumas pessoas ingênuas ainda não entendem que, se desempenham um papel mais ou menos visível no espaço de informação internacional, não é seguro para elas visitar países que caminham para sociedades muito mais totalitárias”, escreveu Ulyanov no X.
Vários blogueiros russos convocaram protestos em frente às embaixadas francesas em todo o mundo. O magnata da tecnologia e bilionário Elon Musk também criticou a prisão de Durov, dizendo: “Estamos em 2030 na Europa, e você está sendo executado por gostar de um meme“.
