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França foi às urnas neste domingo e resultados do dia 7 podem colocar Macron governando com o inimigo

    Caso o Rassemblement National obtenha maioria absoluta, o país terá um presidente governando em coabitação com o partido de Marine Le Pen até 2027, quando vence o mandato presidencial

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    Os eleitores franceses foram às urnas neste domingo (30/6), no primeiro turno da eleição parlamentar antecipada, que pode fazer surgir o primeiro governo de extrema-direita do país desde a Segunda Guerra Mundial, o que representaria uma mudança potencial no cerne da União Europeia.

    O Presidente da França, Emmanuel Macron, surpreendeu o país quando convocou a votação após a sua aliança centrista ter sido derrotada nas eleições europeias deste mês pelo partido Marion Anne Perrine Le Pen, mais conhecida como Marine Le Pen, uma advogada que concorreu à presidência francesa em 2012, 2017 e 2022, pertencente ao Rassemblement National [Reagrupamento Nacional], de cujo partido foi a presidente de 2011 a 2021.

    A legenda de visão euroceticista e anti-imigração era vista antes como pária, mas agora está mais próxima do poder do que nunca, disse a Reuters.

    As urnas abriram às 8h00 (3h00 no horário de Brasília) e fecharam às 18h00 (13h00 no horário de Brasília), nas cidades e vilas pequenas, terminando às 20h00 (15h00 no horário de Brasília) na grandes cidades, quando ocorrem as primeiras pesquisas e projeções de assentos para o segundo turno decisivo, no próximo dia 7 de julho.

    O sistema eleitoral da França torna difícil estimar a distribuição precisa de assentos na Assembleia Nacional de 577 lugares, e o resultado final só será conhecido após o encerramento da próxima fase, na semana que vem.

    Le Pen disse a um jornal, na quarta-feira, que ganhará “maioria absoluta” e que seu protegido, o jovem de 28 anos Jordan Bardella, será primeiro-ministro.



    Marine Le Pen e Jordan Bardella em foto de Raphael Lafargue/ABACAPRESS.COM

    Bartela tem 28 anos e é cria de Le Pen, que o colocou na presidência do Rassemblement National e na cabeça de chapa eleitoral.

    A votação antecipada para este domingo por Macron tem alto risco de uma jogada que o presidente espera contar com a aversão dos eleitores à ultradireita, nos minutos finais do jogo, no dia 7 de julho.

    As pesquisas para o primeiro turno indicam que Macron e sua aliança centrista conquistará apenas 21% dos votos, a Nova Frente Popular, do esquerdista Jean-Luc Mélenchon, 29% , e o RN vencerá com 37%.

    Caso a extrema direita faça a maior bancada da Assembleia Nacional, Macron, em tese, teria de indicar o líder dessa ala — justamente Bardella — como primeiro-ministro, ficando sujeito a uma “coabitação” que reduz sua autoridade e capacidade de moldar políticas, disse a Veja.

    Ao se apresentar como opção contra os extremos, fórmula que adotou com sucesso em duas votações presidenciais, Macron espera que os eleitores não repitam dentro de casa o desastre do pleito para o Parlamento Europeu, em junho, quando o RN elegeu trinta deputados, e sua coligação, treze.

    Apesar da clara vantagem, é difícil que o RN salte dos atuais 88 assentos para 289 e conquiste a maioria absoluta na Assembleia Nacional. E Bardella já declarou que não vai requerer o posto de primeiro-ministro sem essa maioria, preservando a legenda do desgaste de fazer parte do governo e apropriando-se do discurso de oposição até a eleição para presidente em 2027, que tem desde já Marine Le Pen como candidata certa.

    Ela procurou desintoxicar um partido conhecido pelo racismo e antissemitismo, tática que funcionou perante a ira dos eleitores em relação a Macron, o alto custo de vida e as crescentes preocupações com a imigração.

    Em Hénin-Beaumont, uma cidade na circunscrição de Le Pen, no norte da França, onde ela poderá ter vantagem no primeiro turno, Denis Ledieu, de 67 anos, afirmou que as pessoas estão sofrendo devido à desindustrialização prolongada da região. E que se Le Pen prometer coisas, as pessoas vão querer “experimentar“.

    Do outro lado de Paris, na cidade de Meaux, Mylène Diop, de 51 anos, afirmou que tinha votado na New Popular Front, uma coligação de esquerda criada às pressas que está em segundo lugar nas sondagens. Ela afirmou que estas eram “as eleições mais importantes” da sua vida. “A RN está às portas do poder e vê-se a agressividade das pessoas e o discurso racista que foi desencadeado“, afirmou.

    Se a RN obtiver uma maioria absoluta, a diplomacia francesa poderá atravessar um período de turbulência sem precedentes: com Macron – que disse que continuará a exercer a sua presidência até ao final do mandato, em 2027 – e Bardella competindo pelo direito de falar em nome da França, que teve três períodos de “coabitação” – quando o presidente e o governo são de campos políticos opostos – na sua história pós-guerra, mas nenhum com perspectivas tão radicalmente divergentes a competir no topo do estado.

    Bardella diz que desafiaria Macron em questões globais. A França poderia passar de um pilar da UE a um espinho no seu lado, exigindo um reembolso da sua contribuição para o orçamento do bloco Europeu, confrontando-se com Bruxelas sobre os cargos na Comissão Europeia e revertendo os apelos de Macron a uma maior unidade da UE em matéria de defesa.

    Uma vitória clara da RN traria também incerteza quanto à posição da França na guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Le Pen tem um historial de simpatia pró-russa e, embora o partido afirme agora que ajudaria a Ucrânia a defender-se dos invasores russos, também estabeleceu linhas vermelhas, como recusar fornecer mísseis de longo alcance.

    Como os números da pesquisa de opinião se traduzirão em assentos na Assembleia Nacional é difícil de prever devido ao funcionamento das eleições, disse Vincent Martigny, professor de ciência política na Universidade de Nice e na Ecole Polytechnique.

    Os candidatos podem ser eleitos no primeiro turno se conquistarem uma maioria absoluta dos votos em sua circunscrição, mas isso é raro. A maioria das circunscrições precisará de um segundo turno envolvendo todos os candidatos que receberam votos de pelo menos 12,5% dos eleitores registrados no primeiro turno. O vencedor é o que obtiver a maior pontuação.

    “Se houver um nível muito elevado de participação, pode haver um terceiro ou quarto partido participando da luta. Então, é claro que há o risco de votação dividida e sabemos que a votação dividida favorece o Rassemblement National “, disse Martigny. Por décadas, à medida que a RN ganhava popularidade de forma constante, eleitores e partidos se uniram para bloqueá-la de conquistar o poder, mas isso pode não se confirmar desta vez.

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