Pesquisadora do Insper diz que “é injusto” que o beneficiário do programa não seja controlado nesse sentido, mas sugere que o governo deveria se preocupar em regular a publicidade e informar a população sobre os malefícios da atividade
A pesquisadora Laura Müller Machado, professora do Insper e ex-secretária de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, considera “injusto” retirar o direito dos participantes do Bolsa Família de usarem como quiserem o cartão do benefício, como milhões têm feito nas apostas em bets.
Para Machado, esse é um problema de saúde pública, e o governo deveria se preocupar em regular a publicidade e informar a população sobre os malefícios da atividade, não em punir quem joga.
Ela afirma ainda que trata-se de uma “vitória” o Bolsa Família ter alcançado o atual patamar em beneficiários e valores. Mas que o governo falha gravemente ao não oferecer mais nada no programa, como mecanismos de inclusão produtiva.
“Damos o Bolsa Família. Ótimo. E daí? Qual é o serviço que vai incluir essas pessoas, que vai conectá-las ao mercado de trabalho?”, questiona. Machado diz ainda que o piso de R$ 600 pago de forma indiscriminada “não faz sentido nenhum”, diz em entrevista à Folha de S. Paulo.
Ela defende que o país deve ser generoso com os vulneráveis, mantendo responsabilidade fiscal, e elogia o aumento do Bolsa Família, mas critica o desenho atual e destaca a importância de um programa que considere a distribuição per capita, evitando incentivos perversos, como o tratamento desigual entre casais e indivíduos. Além disso, enfatiza a necessidade de uma transição efetiva para o mercado de trabalho, sugerindo que as pessoas devam manter o benefício por um tempo após conseguir emprego, para facilitar essa transição e garantir uma inserção segura no mercado.
Para Machado, o salário reserva é o valor mínimo que uma pessoa aceita para trabalhar, e seu aumento pode prevenir condições de trabalho precárias. Contudo, é necessário que o mercado de trabalho ofereça uma remuneração um pouco acima do Bolsa Família, já que retirar esse benefício em troca de uma vaga de emprego gera insegurança.
Segundo ela, atualmente, a falta de políticas que integrem socialmente os beneficiários ao mercado de trabalho é um erro. Além disso, é preciso fornecer apoio e capacitação para que essas pessoas possam se inserir no mercado, evitando a exclusão. O caso de um motorista de fretes que perdeu seu caminhão e entrou para o Bolsa Família ilustra essa falta de informação sobre oportunidades de trabalho, como no Uber, que poderiam ajudá-lo a recuperar sua condição. No passado, o programa Brasil Sem Miséria garantiu ações integradas para inclusão no mercado, mas isso não acontece mais.
E ainda argumenta sobre a falta de políticas de inclusão no mercado de trabalho para os mais pobres, destacando que, apesar do Bolsa Família, não há serviços que conectem essas pessoas ao emprego. Também aponta a necessidade de microcrédito, intermediação de mão de obra e treinamento, e critica a ausência de ações do governo federal em relação a programas de inclusão, que atualmente são mais implementados pelos estados. E expõe o legado do Brasil Sem Miséria, que abordava questões rurais e urbanas, e questiona a situação atual dos responsáveis por essas políticas.
A pesquisadora do Insper diz que a população, incluindo os beneficiários, está envolvida em um fenômeno de saúde e vício, similar à Covid, que afeta todos. Assim como o cigarro e bebidas, que têm suas propagandas regulamentadas, a publicidade de jogos também deve ser controlada para evitar enganos. As propagandas difundem a ideia de que jogar é um meio fácil de ganhar a vida, enquanto muitos são enganados e carecem de educação financeira. É crucial regular a propaganda e informar sobre os riscos e a realidade por trás das promessas feitas.
Questionada sobre as medidas que estão sendo avaliadas pelo governo para interditar o uso do cartão do Bolsa Família em apostas eletrônicas, Laura Müller Machado respondeu que são problemas de saúde pública relacionados às apostas e destaca que muitos fazem isso como forma de entretenimento e têm o direito de se divertir, mas precisam estar cientes das consequências. Critica a influência de digital influencers que prometem enriquecimento rápido, enquanto muitos no Bolsa Família enfrentam dificuldades e não têm acesso a trabalho. A falta de educação financeira e a propaganda agressiva são apontadas como fatores que complicam a situação.
