📷 Flávio Bolsonaro nos EUA / Foto: Divulgação Fernando Pessoa – assessor parlamentar e estrategista de redes sociais do senador | Lula / Foto: Ricardo Stuckert
| Brasília (DF)
07 de julho de 2026
Nesta terça-feira (07/jul), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) discursou por cinco minutos em audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em Washington.
Ele pediu o adiamento de novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, alegando que este seria o “pior momento possível” porque as eleições presidenciais brasileiras ocorrem em outubro e a medida poderia beneficiar politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A participação, feita por inscrição aberta e sem vínculo oficial com o governo federal, gerou imediata reação do Palácio do Planalto.
O governo repudiou a iniciativa e acusou o parlamentar de legitimar uma investigação comercial considerada injusta contra o Brasil.
De acordo com o g1, Flávio Bolsonaro defendeu o PIX — sistema criado durante a gestão de seu pai, Jair Bolsonaro — e afirmou que a ferramenta ampliou a inclusão financeira de milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres, beneficiando também empresas americanas.
Ele criticou a ausência de representantes do governo Lula na audiência e pediu aos membros da comissão americana que não imponham as tarifas agora.
O Valor Econômico registrou a nota oficial do Planalto: entre os brasileiros inscritos, apenas Flávio Bolsonaro não se posicionou contra as tarifas, optando por sugerir adiamento com “claro objetivo eleitoreiro”.
O governo destacou que negocia tecnicamente com os Estados Unidos desde julho de 2025 para reverter as medidas, consideradas sem fundamento.
A ida de um pré-candidato a fóruns estrangeiros para tratar de pressões comerciais contra o próprio país levanta questões sobre os limites da oposição em momentos de negociação diplomática.
Enquanto o Itamaraty e técnicos de vários ministérios atuam em conversas de alto nível, a participação independente pode ser interpretada como fragmentação da posição brasileira.
O BBC News Brasil e o InfoMoney detalharam as falas de Flávio Bolsonaro. Ele argumentou que tarifas anteriores foram exploradas politicamente pelo governo atual e que impor novas medidas agora penalizaria o povo brasileiro, exceto as autoridades responsáveis pelas decisões questionadas pelos americanos.
O Correio Braziliense registrou a reação do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que classificou o discurso como típico de “lacaio de Trump”.
Segundo ele, Flávio Bolsonaro já comemorou tarifas no passado e agora pede adiamento por interesse eleitoral.
Flávio Bolsonaro enviou manifestação escrita ao USTR pedindo suspensão das tarifas por pelo menos 180 dias até após as eleições.
Ele se apresentou como senador e pré-candidato à Presidência e mencionou ter se reunido pessoalmente com o presidente americano Donald Trump.
A decisão final do USTR sobre a aplicação ou não das tarifas está prevista para 15 de julho de 2026.
O governo brasileiro mantém negociações técnicas paralelas.
O governo brasileiro, por meio do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, já havia reiterado ao representante comercial americano, Jamieson Greer, que o Pix é “inegociável”, apesar de integrar a investigação conduzida pelos EUA com base na chamada Seção 301.
O senador participou do evento ao lado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e do embaixador Roberto Azevedo, que representa a CNI — Confederação Nacional da Indústria.
O governo Lula classificou a declaração de Flávio como “desesperada” e afirmou que o senador está tentando surfar no caso para ganhar visibilidade política.
Nos bastidores, a avaliação de aliados do Planalto é que Flávio busca capitalizar com a base bolsonarista um tema que considera “vitorioso” — a defesa do Pix — enquanto tenta desgastar o governo na reta final da campanha eleitoral.
O que os EUA consideram “desleal” além do Pix
A investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 aponta seis áreas em que o Brasil supostamente adota práticas desleais:
1. Comércio digital e serviços de pagamento eletrônico:
Os EUA alegam que o Brasil, ao desenvolver e promover o Pix como sistema público de pagamentos instantâneos, cria uma vantagem competitiva artificial para empresas brasileiras em detrimento de empresas americanas do setor.
A investigação também cita restrições à transferência de dados pessoais para fora do país e decisões do STF que responsabilizam plataformas por conteúdos de usuários.
2. Tarifas preferenciais desiguais:
O USTR aponta que o Brasil concede tarifas reduzidas a países como México e Índia por meio de acordos bilaterais setoriais, enquanto mantém alíquotas mais altas para produtos americanos.
3. Enfrentamento à corrupção:
Os EUA argumentam que os esforços do Brasil no combate à corrupção teriam se enfraquecido, citando decisões judiciais que anularam condenações em casos de grande repercussão, o que supostamente prejudicaria empresas americanas que investem no país.
4. Proteção à propriedade intelectual:
A investigação menciona a dificuldade do Brasil em coibir a pirataria e a falsificação de produtos, especialmente em áreas como a Rua 25 de Março, em São Paulo. Também cita a demora na concessão de patentes farmacêuticas.
5. Acesso ao mercado de etanol:
Os EUA criticam a taxa de importação de 18% imposta pelo Brasil ao etanol americano desde 2024.
6. Desmatamento ilegal:
Washington alega que a falta de fiscalização ambiental no Brasil permitiria que fazendeiros e pecuaristas desmatassem ilegalmente para produção agrícola, reduzindo custos e dando vantagem competitiva a produtos brasileiros no mercado internacional.
Produtos brasileiros com maior risco de tarifa de 25%
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que cerca de 4,1 mil produtos podem ser afetados pela tarifa adicional de 25%, impactando aproximadamente US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras.
Entre os produtos mais vulneráveis estão aqueles em que o Brasil é o principal fornecedor dos EUA:
| Produto | Participação do Brasil nas importações dos EUA |
|---|---|
| Compensado de pinus | 99,6% |
| Ferro-gusa não ligado | 73,3% |
| Álcool etílico não desnaturado | 72,3% |
| Tabaco curado por fumaça | 72,0% |
| Molduras de madeira de pinho | 59,4% |
| Estacas, paliças e trilhos de madeira | 57,8% |
| Açúcar bruto | 52,9% |
A análise da CNI mostra que 62% dos itens listados são bens intermediários, utilizados como insumos em processos produtivos, o que significa que o impacto da tarifa se propagaria ao longo das cadeias industriais.
Segundo a consultoria Integra Associados, os estados mais dependentes das exportações para os EUA são Santa Catarina, Alagoas e Paraíba, onde o impacto seria mais sentido.
A indústria moveleira catarinense, que emprega cerca de 120 mil pessoas, é apontada como um dos setores mais suscetíveis.
Alguns produtos importantes, como café, carne bovina, petróleo e suco de laranja, ficariam de fora da lista de tarifados . A decisão final sobre a aplicação da tarifa deve ser anunciada até 15 de julho.
O posicionamento técnico do Banco Central
O Banco Central do Brasil defende o Pix como uma política pública de sucesso e soberania nacional . Em pronunciamentos internacionais, o BC destacou que o Pix é uma “infraestrutura digital pública, com arquitetura aberta e design inclusivo”, que nivelou o campo de atuação entre os participantes do mercado.
Tecnicamente, o BC argumenta que o Pix não cria distorções competitivas, mas sim promove inclusão financeira e eficiência econômica.
Dados do BC mostram que 175 milhões de indivíduos e 25 milhões de empresas usam ativamente o Pix, representando mais de 80% da população brasileira.
Em 2026, as transações mensais do Pix já alcançaram quase R$ 3,4 trilhões (cerca de US$ 660 bilhões), volume equivalente a um quarto do PIB anual do Brasil.
Em agosto de 2025, o BC publicou a Resolução nº 493, que fortaleceu a governança do sistema com a criação de grupos de trabalho dedicados a segurança, padronização e prevenção a fraudes, como o Grupo Estratégico de Segurança Pix (GE-SEG).
No plano legislativo, o BC atuou para que a proposta de emenda à Constituição que garante autonomia financeira à instituição incluísse uma cláusula específica de proteção ao Pix.
O texto aprovado estabelece que “o Banco Central terá competência exclusiva sobre a regulação e operação do sistema de pagamentos Pix”, sendo vedado “conceder, permitir, transferir, vender ou ceder este sistema a qualquer outra entidade pública ou privada”, conforme o Valor International. O senador Plínio Valério, relator da PEC, classificou o Pix como “um patrimônio nacional”.
Para o BC, portanto, a inclusão do Pix na investigação dos EUA não tem fundamento técnico, pois o sistema opera dentro das regras do mercado e não recebe subsídios ou vantagens regulatórias desleais em relação a concorrentes privados, nacionais ou estrangeiros.
As audiências públicas no USTR seguem até 15 de julho. O governo brasileiro optou por não apresentar manifestação oral, concentrando as negociações nos canais diplomáticos, enquanto empresas como Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay pedem isenções setoriais.
FAQ Rápido
O que Flávio Bolsonaro pediu exatamente aos americanos?
Ele solicitou o adiamento das tarifas alegando que seria o “pior momento possível”, pois as eleições de outubro mudariam o cenário político e a medida poderia fortalecer o atual governo.
Por que o Planalto repudiou a participação?
O governo federal acusa o senador de legitimar uma investigação considerada injusta, de sugerir adiamento por motivos eleitoreiros e de enfraquecer a posição oficial brasileira nas negociações em curso.
O que está em jogo na decisão do USTR?
A imposição ou não de tarifas adicionais de 25% sobre milhares de produtos brasileiros, com base em investigação sobre práticas comerciais que inclui questionamentos ao PIX e outros temas.
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