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    | Rio de Janeiro (RJ)
    28 de agosto de 2026

    Flávio Bolsonaro voltou a colocar em dúvida a explicação científica para o aquecimento global durante a sabatina desta sexta-feira (28/ago), ao afirmar que existem eventos climáticos extremos, mas negar que eles tenham relação direta com a ação humana.

    A afirmação contraria o consenso científico consolidado de que as atividades humanas provocaram o aquecimento observado e vêm alterando a frequência e a intensidade de diversos extremos climáticos.

    Questionado pela jornalista Renata Vasconcellos sobre uma posição atribuída a ele em publicação de 2019, segundo a qual não haveria aquecimento global e o planeta estaria passando por um resfriamento, o senador procurou reformular a questão.

    “Para mim, o que acontece hoje é que são eventos climáticos que são extremos: excesso de calor, excesso de chuva, excesso de seca. Então, eu acredito que são efeitos cíclicos.”

    A resposta, porém, não enfrenta diretamente a pergunta sobre a causa do aquecimento observado. Quando a jornalista insistiu — “o senhor acha que não tem aquecimento global?” — Flávio Bolsonaro respondeu que existem períodos de mais calor e outros de mais frio, além de períodos de maior ou menor chuva. “Eu não acho que isso tenha a ver diretamente só com a influência do ser humano no meio ambiente.”

    É nesse ponto que aparece a principal divergência entre o discurso apresentado na sabatina e a ciência climática.

    O problema não é negar que existam ciclos naturais

    A existência de variações naturais do clima não é contestada pela ciência. O problema está em utilizar essa constatação para relativizar a influência humana no aquecimento observado nas últimas décadas.

    O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) afirma que a influência humana aqueceu inequivocamente a atmosfera, o oceano e a superfície terrestre. O relatório de síntese do órgão também conclui que as atividades humanas, principalmente por meio das emissões de gases de efeito estufa, causaram o aquecimento global observado.

    A NASA chega à mesma conclusão ao reunir evidências provenientes de registros instrumentais, satélites, oceanos, geleiras e arquivos paleoclimáticos. A agência afirma que o aquecimento atual ocorre em ritmo sem precedentes em muitos milênios e que o aumento dos gases de efeito estufa provocado pelas atividades humanas é responsável pelo aquecimento observado.

    Portanto, dizer que existem ciclos naturais não responde à questão científica central: quanto do aquecimento observado atualmente é explicado pela ação humana? A resposta do IPCC é inequívoca: a influência humana é a principal explicação para o aquecimento contemporâneo.

    Os dados mais recentes tornam a afirmação ainda mais difícil de sustentar

    Os dados atualizados da Organização Meteorológica Mundial (OMM) reforçam essa conclusão. O relatório State of the Global Climate 2025, divulgado em março de 2026, confirmou que 2015 a 2025 foram os 11 anos mais quentes já registrados. O ano de 2025 ficou entre o segundo e o terceiro mais quente da série histórica, com temperatura média global aproximadamente 1,43 °C acima da média de 1850–1900.

    A OMM também registrou que a concentração atmosférica de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso atingiu, em 2024, os níveis mais altos dos últimos 800 mil anos. O conteúdo de calor dos oceanos chegou ao maior nível dos 66 anos de observações, enquanto o derretimento das geleiras continuou.

    Isso não significa que cada onda de calor, cada chuva intensa ou cada seca possa ser atribuída exclusivamente às emissões humanas. A ciência climática trabalha com probabilidades, tendências e alterações na frequência e intensidade dos eventos.

    O que os dados mostram é que o sistema climático está aquecendo e que a atividade humana é a principal causa desse aquecimento.

    Flávio reconheceu o problema, mas deslocou a resposta

    Outro aspecto revelador da sabatina foi a maneira como o senador respondeu quando questionado sobre quais medidas adotaria para proteger a população das mudanças climáticas.

    Em vez de apresentar metas específicas de adaptação, redução de emissões, prevenção de desastres ou transição energética, Flávio Bolsonaro direcionou a resposta para o saneamento básico. “A melhor forma que nós temos de proteger o meio ambiente é oferecer um saneamento básico para a população.”

    Saneamento é, de fato, uma política pública ambiental e sanitária importante. Mas não substitui uma política climática.

    O próprio Marco Legal do Saneamento, atualizado pela Lei nº 14.026/2020, estabelece metas para ampliar o acesso à água potável e ao esgotamento sanitário. A legislação prevê alcançar 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.

    Isso demonstra a importância do saneamento, mas também revela o limite da resposta dada na sabatina: saneamento básico não constitui, sozinho, uma estratégia para enfrentar o aquecimento global.

    Uma política climática precisa lidar também com emissões de gases de efeito estufa, desmatamento, adaptação das cidades, segurança hídrica, prevenção de desastres e proteção dos ecossistemas.

    A afirmação sobre a Amazônia também simplifica um problema complexo

    Flávio Bolsonaro afirmou que, nas grandes áreas como a Amazônia, o problema seria muitas vezes “mais criminal do que ambiental”. A presença do crime organizado em áreas de garimpo ilegal é uma realidade documentada. Investigações recentes identificaram atuação do Comando Vermelho em áreas de mineração ilegal na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso.

    Mas transformar a questão em uma oposição entre problema “criminal” e problema “ambiental” simplifica uma relação que, na prática, envolve os dois aspectos.

    O garimpo ilegal provoca desmatamento, degradação de rios, alteração do solo e pressão sobre povos indígenas, ao mesmo tempo que pode ser explorado por organizações criminosas.

    Assim, combater o crime ambiental é simultaneamente uma política de segurança pública e de proteção ambiental.

    A pergunta que ficou sem resposta

    A jornalista também perguntou por que o plano de governo não apresentava medidas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. A resposta não apresentou metas climáticas concretas.

    Flávio Bolsonaro voltou ao saneamento, passou para a situação do SUS e anunciou Cláudio Lottenberg como seu escolhido para o Ministério da Saúde. “Eu quero aproveitar, Renata, para fazer um anúncio aqui […] conversei com o doutor Cláudio Lottenberg, que vai ser o meu ministro da Saúde.”

    O anúncio sobre saúde, entretanto, não respondeu à pergunta ambiental.

    Esse é um dos pontos mais importantes da entrevista: quando pressionado a transformar sua posição sobre clima em um programa de governo, o candidato não apresentou, na resposta reproduzida na sabatina, metas específicas para enfrentar o aquecimento global.

    O argumento dos “eventos extremos” não resolve a questão

    A formulação utilizada pelo senador produz uma aparência de equilíbrio: ele reconhece que há calor extremo, chuvas intensas e secas, mas apresenta esses fenômenos como parte de ciclos naturais. O problema é que uma coisa não exclui a outra.

    O clima sempre apresentou variações naturais. O que a ciência identificou é que o aquecimento provocado principalmente pela atividade humana está alterando o sistema climático e afetando extremos meteorológicos e climáticos em diferentes regiões.

    O IPCC registra que a mudança climática causada pela humanidade já está afetando diversos eventos extremos em todas as regiões do planeta.

    A OMM, com dados atualizados até 2025, registra justamente a combinação que apareceu na pergunta da sabatina: calor intenso, chuvas fortes, ciclones e outros eventos extremos com impactos sociais e econômicos.

    O que a fala revela sobre a preparação para governar

    A dificuldade apresentada por Flávio Bolsonaro não está em reconhecer que existem fenômenos naturais. Isso é correto. A fragilidade está em apresentar a existência de ciclos naturais como argumento para relativizar a influência humana no aquecimento contemporâneo — justamente quando os principais organismos científicos internacionais apontam na direção contrária.

    Também chama atenção a ausência, na resposta reproduzida na sabatina, de metas ambientais concretas quando a jornalista solicitou justamente quais ações seriam adotadas para proteger a população diante das mudanças climáticas.

    A sequência da entrevista reforça essa impressão. A pergunta começa com clima; a resposta passa por saneamento, Amazônia, crime organizado, saúde pública, SUS e termina com o anúncio de um ministro. São temas relevantes, mas diferentes.

    Para um candidato à Presidência da República, reconhecer que eventos climáticos extremos existem é apenas o ponto de partida. A questão decisiva é explicar por que eles estão se tornando mais preocupantes, qual é a parcela da responsabilidade humana e o que o futuro governo pretende fazer a respeito.

    Foi justamente essa parte que ficou sem uma resposta objetiva.

    Uma diferença fundamental entre tempo e clima

    Também é importante separar conceitos que aparecem misturados na argumentação.

    Um período frio não contradiz o aquecimento global. Uma onda de calor isolada também não prova, sozinha, a mudança climática.

    Tempo meteorológico descreve condições atmosféricas de curto prazo. Clima representa padrões observados durante períodos muito mais longos.

    A existência de dias frios, períodos de chuva ou variações naturais não invalida a tendência global de aquecimento registrada por milhares de estações, satélites, medições oceânicas e outras séries científicas.

    Os dados da NASA mostram que 2024 permanece como o ano mais quente da série da agência, enquanto 2025 ficou muito próximo dos recordes anteriores.

    A tendência, portanto, não é definida por uma semana ou por uma estação. É observada em décadas de medições.

    A questão ambiental que permanece para o eleitor

    A sabatina terminou sem que Flávio Bolsonaro apresentasse, na resposta transcrita, um conjunto específico de metas para redução de emissões ou adaptação às mudanças climáticas.

    Sua proposta ambiental apresentada naquele momento concentrou-se sobretudo em saneamento, combate ao crime na Amazônia e políticas de saúde.

    Essas agendas podem fazer parte de uma política pública ambiental ampla, mas não respondem integralmente ao fenômeno climático descrito pela ciência.

    A evidência disponível hoje é bastante clara: o planeta está aquecendo, os últimos anos concentram os maiores registros de temperatura e a influência humana sobre esse aquecimento é inequívoca segundo o IPCC.

    Por isso, a questão deixada pela sabatina não é apenas se Flávio Bolsonaro reconhece que existem eventos climáticos extremos.

    É se ele reconhece a causa predominante do aquecimento contemporâneo e, principalmente, qual política pretende colocar em prática para proteger o Brasil diante de um fenômeno que já está sendo medido.

    Na entrevista, essa resposta não apareceu de forma objetiva.

    E é justamente nesse ponto que a distância entre o discurso apresentado pelo candidato e o conhecimento científico acumulado se torna mais evidente.

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