Em evento ao lado de membros da direita italiana, senador voltou a usar a narrativa da perseguição política de Moraes contra Zambelli e Jair Bolsonaro, deixando de debater acusações da Justiça brasileira e omitindo os crimes dos quais são acusados no Brasil
Brasília, 21 de setembro de 2025
Em um comício do partido de direita italiano Liga, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu publicamente a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), presa na Itália desde julho, afirmando que o país abriga “perseguidos políticos” vindos do Brasil.
Acompanhado dos senadores Magno Malta (PL-ES), Eduardo Girão (Novo-CE) e Damares Alves (Republicanos-DF), Flávio visitou Zambelli em Roma e apelou diretamente ao vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini, filiado à Liga, para que o governo rejeite a extradição da parlamentar.
A reunião com Salvini está marcada para esta terça-feira (23/set), segundo anúncio do senador no último sábado (20/set).
“Há perseguidos políticos no Brasil até aqui na Itália. Carla Zambelli e Eduardo Tagliaferro vieram para a Itália por acreditarem ser um local mais seguro do que o Brasil”, declarou Flávio durante o evento.
Ele argumentou que “lá [no Brasil] ela poderá morrer na cadeia injustamente”, omitindo os crimes que levaram às duas condenações de Zambelli no Supremo Tribunal Federal (STF).
A primeira sentença, de 10 anos em regime fechado, foi por invasão de dispositivo informático e falsidade ideológica, após a deputada ser considerada autora intelectual de um ataque hacker ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2023, com inserção de um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes.
A segunda condenação, de 5 anos e 3 meses, refere-se a porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo, pelo episódio em que Zambelli sacou uma pistola e perseguiu um jornalista em São Paulo, em outubro de 2022, durante as eleições.
Ambas as decisões foram unânimes ou por ampla maioria na Primeira Turma e no Plenário do STF, com perda de mandato e inelegibilidade por 8 anos.
A mídia italiana acompanhou de perto o caso, destacando o perfil bolsonarista de Zambelli e as tensões diplomáticas.
O jornal Corriere della Sera relatou a prisão da deputada em um apartamento no bairro Aurelio, em Roma, em 29 de julho, e mencionou o interesse de Salvini em visitá-la na prisão de Rebibbia, onde ela permanece detida preventivamente.
A agência ANSA cobriu o apelo de Flávio Bolsonaro a Giorgia Meloni e Salvini para proteger “perseguidos políticos” como Zambelli, enfatizando sua dupla cidadania italiana e origens em São Paulo.
Já o La Repubblica descreveu a chegada de Zambelli a Roma em junho, via Fiumicino, como uma fuga calculada, com alerta vermelho da Interpol emitido horas após seu pouso, e questionou se a Itália extraditaria uma cidadã italiana, apesar do tratado bilateral.
Uma publicação da ANSA, de 23 de agosto, informa a segunda condenação de Zambelli no STF, reforçando o risco de extradição enquanto ela aguardava julgamento na Corte de Apelação de Roma.
O embaixador brasileiro em Roma, Renato Mosca, pressionou para que Zambelli permaneça presa, citando histórico de fugas e ataques às instituições do Brasil.
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“Meu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro, é mais uma vítima dele [Alexandre de Moraes] e está exilado com sua família nos Estados Unidos. Esse mesmo juiz o proibiu de falar com Jair Bolsonaro. Isso mesmo: um juiz proibiu o filho de falar com o próprio pai”, disse o senador.
Ao longo do discurso, Flávio também citou o caso de seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que ele descreveu como “exilado” nos Estados Unidos com a família, vítima de Alexandre de Moraes, que o proibiu de falar com o pai, Jair Bolsonaro.
No entanto, Eduardo não é um exilado formal, mas sim investigado no STF por coação no curso do processo, obstrução de investigação da trama golpista e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Desde março, radicado nos EUA, ele tem articulado sanções contra o Brasil junto ao governo de Donald Trump, incluindo tarifas de 50% sobre exportações brasileiras (como carne e café) em retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro, revogação de vistos para ministros do STF e aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes e sua família.
Recentemente, Eduardo defendeu publicamente uma “ação militar” americana contra o Brasil, como envio de caças F-35, para “defender a liberdade”, o que gerou críticas de figuras como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que o acusou de instigar um país estrangeiro contra a nação.
Essas ações enfraquecem as relações entre o governo do Presidente, o Excelentíssimo Senhor Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e a administração Trump, com o Departamento de Estado dos EUA ecoando queixas sobre “censura” no Brasil.
Flávio também omitiu as graves acusações contra o pai, Jair Bolsonaro, condenado pela Primeira Turma do STF em 11 de setembro, a 27 anos e 3 meses de prisão por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça, e deterioração de patrimônio tombado.
A sentença, inédita para um ex-presidente, relaciona-se à trama golpista de 2022 para impedir a posse de Lula, incluindo os atos de 8 de janeiro de 2023.
Bolsonaro está inelegível até 2060 e preso preventivamente por desobediência, com recursos pendentes.
A viagem de Flávio à Itália reflete a estratégia bolsonarista de internacionalizar narrativas de perseguição, mas fontes italianas como Corriere della Sera e ANSA retratam Zambelli como uma figura controversa, “ex-scudeira de Bolsonaro” adepta de teorias conspiratórias e armamentista, cuja extradição depende de análise da dupla cidadania e tratados bilaterais.
Enquanto isso, o Brasil insiste na repatriação, com o Ministério da Justiça monitorando o processo para evitar novas fugas.
O caso expõe fissuras na direita global, com Salvini sinalizando apoio, mas a justiça italiana priorizando obrigações internacionais.
Segundo o organizador do evento, o Vice-Premiê e ministro das Infraestruturas e dos Transportes, além de líder da Liga, Matteo Salvini, seu aliado, Flavio Bolsonaro, afirmou em discurso:
“Não podemos abrir mão de nossos valores cristãos. Deus, pátria, família e liberdade. Com a esquerda no poder, o Brasil perdeu sua soberania. Mas lutaremos para que nossa bandeira não seja substituída pela vermelha do comunismo.”








