
📷 O senador Flavio Bolsonaro em entrevista para Folha de S. Paulo em seu gabinete em Brasília |11.6.2025| Foto: Gabriela Biló
| Brasília (DF)
04 de junho de 2026
A rápida sucessão de eventos envolvendo o encontro do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente Donald Trump, na Casa Branca, em 26 de maio, e o subsequente anúncio da proposta de novas tarifas americanas de 25% sobre produtos brasileiros gerou uma reação avassaladora nas redes sociais.
Um levantamento realizado pela empresa de análise de dados Palver, obtido pela Folha de S.Paulo, revelou que Flávio Bolsonaro é apontado como o culpado pela crise em 8 a cada 10 mensagens opinativas trocadas em grupos públicos de WhatsApp e Telegram.
O monitoramento foi realizado entre 27 de maio e 2 de junho, abrangendo mais de 100 mil grupos.
A empresa excluiu da análise mensagens neutras, como o simples compartilhamento de links, concentrando-se nas publicações que expressavam uma opinião.
O resultado é contundente: 81% dessas mensagens responsabilizam o pré-candidato do PL à Presidência, seja diretamente ou de forma indireta, pelas ameaças ao sistema de pagamentos Pix e pelo novo "tarifaço".
A rápida propagação dessa narrativa pelas plataformas de mensageria evidencia a transformação de um potencial revés diplomático provocado pela extrema direita em um trunfo eleitoral contra a oposição.
A estratégia governista e o termo "Tariflávio"
Desde o anúncio do relatório do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), perfis nas redes sociais antenados aos fatos políticos, além de figuras do meio governista passaram a vincular a imagem do senador à proposta de taxação.
O termo “Tariflávio” virou hashtag e meme nas redes sociais.
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e o secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, foram alguns dos primeiros a utilizar a expressão.
A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) também entrou na ofensiva, classificando os bolsonaristas como “traidores da pátria, do povo brasileiro” e dizendo que o “PIX é nosso, veio para ficar e vamos defender essa conquista”.
A mensagem predominante nas publicações monitoradas acusa o senador e a família Bolsonaro de “traição à pátria” e alinhamento a interesses estrangeiros, um discurso que ecoa as falas recentes do presidente Lula em seus eventos oficiais.
A defesa de Flávio e a carta a Rubio
Diante da enxurrada de críticas, Flávio Bolsonaro refez sua estratégia de comunicação. No início, seus aliados tentaram minimizar o impacto, classificando o assunto como uma questão diplomática entre governos. No entanto, com a escalada da crise, o senador adotou uma postura mais ativa.
Na terça-feira (2), Flávio enviou uma carta ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, pedindo formalmente que o governo americano não imponha as tarifas.
No documento, o senador alega que o Brasil “atravessa um período de grave deterioração fiscal e econômica” e que a medida “causaria sérios prejuízos ao povo brasileiro”. Essa visão, considerada política de oposição, contrasta com os dados que mostram um cenário misto, com pressões fiscais, mas resiliência na atividade econômica.
Desesperado com o desgaste, o senador postou vídeo afirmando ter pedido "expressamente" a Trump que não taxasse as empresas brasileiras, tentando se descolar da decisão.
O deputado Carlos Jordy (PL-RJ), um dos principais articuladores da oposição nas redes, passou a produzir conteúdo para rebater a narrativa governista, afirmando que Lula mente ao associar o senador à taxação.
A disputa sobre as declarações do Presidente do senador Flávio Bolsonaro e o novo "tarifaço" de 25% dos Estados Unidos é uma batalha de narrativas políticas.
A oposição argumenta que o tarifaço é uma retaliação da diplomacia americana ao governo Lula, apoiando seu ponto de vista com relatórios do USTR que mencionam diversas questões comerciais e diplomáticas.
Impacto eleitoral e a análise dos especialistas
Cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que Flávio Bolsonaro é o grande perdedor com o novo tarifaço.
A professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, afirma que a situação expõe a fragilidade da influência do senador sobre a Casa Branca e dá munição ao governo para rotulá-lo como um candidato que não pensa nos interesses brasileiros.
Para o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, a questão devolve a Lula o discurso da soberania nacional, que foi fundamental para sua aprovação em crises anteriores.
Marco Antonio Carvalho Teixeira, da FGV, complementa que a popularidade do Pix torna o debate ainda mais relevante para o eleitorado, potencializando o desgaste de Flávio e podendo beneficiar candidatos alternativos da direita, como Ronaldo Caiado (PSD) .
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FAQ Rápido
1. O levantamento da Palver é uma pesquisa de opinião?
Não. O levantamento mede o teor das mensagens que circulam em grupos públicos de WhatsApp e Telegram. Diferentemente de uma pesquisa eleitoral, não há amostra representativa do eleitorado nem margem de erro, e os números não servem de prognóstico de votos.
2. O que motivou a investigação comercial dos EUA contra o Brasil?
A investigação foi aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da lei de comércio americana para apurar supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais aos interesses dos EUA. Além das tarifas, o processo envolve temas como o Pix, o comércio digital, a propriedade intelectual e o desmatamento.
3. As tarifas de 25% já estão valendo?
Não. O anúncio do USTR foi uma proposta que será submetida a consulta pública e negociações diplomáticas nos próximos dias. A decisão final sobre a aplicação ou não das tarifas depende do presidente Donald Trump.
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