Cientista que virou ícone da resistência ao negacionismo assume cadeira na Câmara e revela planos imediatos para ciência
Brasília, 30 de outubro 2025
O físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), oficializou nesta quinta-feira (30/out) sua posse como deputado federal por São Paulo.
Ele ocupa a cadeira deixada por Guilherme Boulos, recém-empossado como ministro da Secretaria-Geral da Presidência no governo Luiz Inácio Lula da Silva.
A transição, confirmada após semanas de especulações, destaca a resiliência de um nome que se tornou símbolo de resistência ao negacionismo ambiental durante o mandato de Jair Bolsonaro.
A decisão de Galvão veio após uma série de reuniões estratégicas, incluindo diálogos com Boulos e a ministra do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, sua correligionária na Rede Sustentabilidade.
Inicialmente hesitante – temendo um período curto no Legislativo devido a possíveis retornos de ministras como Sônia Guajajara ao Congresso após a COP30 em novembro – o cientista recebeu garantias de permanência até pelo menos março de 2026.
“Decidi isso depois de uma conversa com Boulos e Marina. A minha ideia é usar esse tempo para apoiar as instituições ligadas à ciência no país na discussão orçamentária que acontece nessa época do ano”, declarou Galvão, conforme mostrou o g1.
Com 77 anos e uma trajetória acadêmica impecável – mestrado em engenharia elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), doutorado e pós-doutorado em física de plasmas pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) – Galvão chega ao Congresso Nacional com foco declarado em pautas de ciência, tecnologia, educação e inovação.
Ele pretende atuar na Comissão de Ciência e Tecnologia, defendendo maior alocação de recursos no orçamento de 2026 para recompor cortes sofridos pelo setor nos últimos anos.
“A voz da ciência no Congresso Nacional. Em 2019, o negacionismo tentou calar a ciência. Mas resistimos. Em 2022, o povo mobilizado derrotou o autoritarismo. Hoje, a ciência brasileira ocupa um lugar na Câmara dos Deputados,” postou Galvão em um fio de quatro postagens no X, ecoando o anúncio oficial.
Essa estreia parlamentar não é aleatória: Galvão foi o primeiro suplente de Boulos na federação PSOL/Rede nas eleições de 2022, onde obteve 40.365 votos em São Paulo.
Sua entrada reforça a articulação entre esquerda e centro-esquerda, especialmente em um momento de reorganização partidária para as eleições de 2026.
O cientista enfatizou: “Vou trabalhar para ampliar o aporte para as instituições de pesquisa”.
A saída do CNPq, onde ele liderou a reconstrução pós-cortes bolsonaristas desde 2023, ainda não tem sucessor anunciado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.
Para entender o peso simbólico dessa posse, é essencial revisitar o contexto que catapultou Galvão ao centro do debate nacional em 2019.
Nomeado diretor do Inpe em 2016, ele enfrentou embates diretos com Bolsonaro ao defender dados satelitais que revelavam um aumento de 88% no desmatamento da Amazônia em junho daquele ano, comparado a 2018.
O então presidente, em café da manhã com jornalistas estrangeiros, questionou a veracidade dos números, acusando o instituto de “mentir” e de agir “a serviço de alguma ONG”.
Galvão rebateu veementemente, chamando as falas de “atitude pusilânime e covarde” e afirmando que Bolsonaro não tinha “qualidade ou qualificação” para analisar os dados científicos.
A crise escalou rapidamente. Em 20 de julho de 2019, Bolsonaro declarou publicamente que convocaria Galvão para explicações, insinuando má-fé no monitoramento ambiental.
Menos de duas semanas depois, em 2 de agosto, o ministro Marcos Pontes anunciou a exoneração do diretor, tornando-se um marco de intervenção governamental na autonomia científica.
Ambientalistas e a comunidade acadêmica reagiram com protestos: a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) emitiram notas de repúdio, enquanto o Ministério Público Federal (MPF) classificou a demissão como “inaceitável” por priorizar inconformismo político sobre fatos.
O episódio foi descrito como o ápice de uma “cruzada contra os fatos”. Anos depois, em 2022, Galvão revelou ter sido alvo de grampos ilegais por aliados de Bolsonaro, uma tentativa de justificar a demissão sem base técnica.
Esses eventos históricos contextualizam o atual mandato como uma vitória da ciência sobre o autoritarismo: de vítima de ataques em 2019 a voz ativa no Congresso em 2025.
Assim, Galvão bateu de frente com o ex-presidente, que disse que o Inpe mentia sobre os desmatamentos.
A posse de Galvão, formalizada nesta quinta, ocorre em meio a debates sobre o orçamento da ciência – cortado em R$ 1,3 bilhão para 2025 – e a preparação para a COP30 em Belém (PA).
Analistas veem no novo deputado um elo entre o Executivo e o Legislativo para pautas sustentáveis, especialmente com o PSOL consolidando laços com o governo Lula.
A transição é vista como “reforço ao diálogo com setores acadêmicos”.
Nas redes sociais, viralizam mensagens de apoio, com milhares de interações, o que reforça o apelo popular pela defesa da pesquisa brasileira.
Com Galvão no plenário, o Congresso ganha um debatedor técnico em tempos de desafios climáticos e fiscais – um capítulo que promete agitar as agendas de 2026.
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Sucesso Galvão, a ciência precisa de gente forte e a Câmara precisa de gente inteligente, já que esse não é o seu forte.👏👏👏
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