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EUA não teriam problema em trabalhar com eventual novo governo LULA, diz Thomas Shannon

    O especialista em assuntos da América Latina afirmou que “foi desenvolvida uma relação de trabalho muito boa. Até agora, claro”

    Thomas Shannon passou mais de 30 anos em serviço fora de seu país. Foi subsecretário de Estado para assuntos políticos no Departamento de Estado dos EUA de 2016 a 2018. Antes ele atuou como conselheiro e consultor sênior do secretário após um mandato de quatro anos como embaixador dos EUA no Brasil. 

    O diplomata também atuou como secretário de Estado adjunto para assuntos do Hemisfério Ocidental de 2005 a 2009 e como assistente especial do presidente e diretor sênior para assuntos do Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional de 2003 a 2005.

    Referência para temas da América Latina, Shannon diz que Bolsonaro parece preparar o caminho para questionar o resultado das eleições de outubro. Em 6 de janeiro de 2021, o republicano insuflou a conhecida invasão ao Capitólio, em uma tentativa desesperada e absurda de tentar reverter o resultado da eleição que colocou em seu lugar o democrata Joe Biden.

    Shannon argumentou à Folha de São Paulo que Washington não teria problema em trabalhar com um eventual novo governo LULA e diz que o Brasil ficaria isolado no caso de uma ruptura institucional.

    Acho totalmente surpreendente que um presidente, eleito por esse sistema e que chefia um governo que representa a vontade popular, coloque em questão o sistema eleitoral do próprio país. E fazer essa argumentação para uma audiência diplomática transforma o surpreendente em perigoso. Ele parece estar preparando o caminho para não aceitar o resultado das eleições“, disse o ex-embaixador dos EUA no Brasil.

    Acredito que Bolsonaro e sua equipe estudaram muito atentamente os eventos de 6 de Janeiro [de 2021] e chegaram a uma conclusão. Primeiro, que Trump fracassou porque dependia de uma multidão pouco disciplinada e não tinha apoio institucional“, afirmou.

    Qual o plano do presidente Bolsonaro? Esperar a votação ocorrer e declará-la inválida? Ou impedir que a eleição ocorra ao desqualificar todo o processo agora?“, questiona o diplomata, demonstrando dúvida.

    Cabe aos brasileiros e às instituições brasileiras decidir o caminho que o país vai tomar. O sistema eleitoral brasileiro guiou o país no período democrático desde a década de 1980“, sugere o diplomata. “É um sistema que ganhou o respeito do mundo, e é chocante que nesse momento não tenha o respeito do presidente“.

    É um erro criticar o processo eleitoral brasileiro porque abre espaço para que as pessoas tentem questionar a eleição por meio da violência, não pelos canais normais e pelos tribunais. Isso não deveria ser aceito num líder político“, afirma. “Os EUA têm grande respeito pelo Brasil e pela democracia do país e estão preparados para trabalhar com qualquer liderança que o povo brasileiro escolher“, disse ainda o ex-embaixador ao jornal.

    “O que o mundo está dizendo é que é falso o argumento de que o sistema eleitoral brasileiro é fraudulento”, destacou. “O fato de a embaixada ter divulgado um comunicado, seguido de manifestação do porta-voz do Departamento de Estado [Ned Price], significa que o governo dos EUA está muito preocupado”, disse.

    No caso de Lula, ele foi presidente por oito anos; sua sucessora [Dilma Rousseff] esteve no cargo por quase seis. São 14 anos de governo do PT. Os EUA conhecem bem e estão familiarizados com Lula e seu partido. Foi desenvolvida uma relação de trabalho muito boa, assim como com todos os presidentes eleitos democraticamente no Brasil. Até agora, claro“, afirmou.

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