| Brasília (DF)
04 de setembro de 2026
Forças dos Estados Unidos interceptaram e afundaram, em dois dias seguidos, embarcações pesqueiras de bandeira equatoriana no Pacífico Oriental. Em Manta, famílias cobram o paradeiro dos tripulantes e contestam a versão de que os barcos serviam ao narcotráfico.
O que aconteceu no Pacífico?
Na quarta-feira (02/set), o Comando Sul dos Estados Unidos informou ter interceptado, abordado e afundado uma embarcação em águas internacionais do Pacífico Oriental. Segundo o comunicado, fuzileiros e marinheiros lançados do navio USS San Antonio (LPD 17) concluíram a ação “sem incidente”, retiraram as pessoas a bordo e entregaram o casco ao fundo do mar depois da revista.
O texto oficial não nomeia o barco. No Equador, a Primicias identificou a embarcação como o pesqueiro Conquista 2, saído de Manta em 28 de agosto para faena de pesca. A reportagem local registrou 15 tripulantes; a Associated Press falou em 17 homens nesse barco.
Na quinta-feira (03/set), o mesmo comando divulgou nova interceptação, desta vez com a Força de Combate Litorânea 24, também a partir do USS San Antonio. De novo, o comunicado fala em “estação flutuante de reabastecimento” a serviço de Los Choneros e em transferência “segura” das pessoas às autoridades equatorianas. A imprensa local nomeou o segundo alvo como OM2, com 22 tripulantes, segundo a AP e a Radio Pichincha.
Por que as famílias foram à Capitania de Manta?
Na quinta-feira (03/set), parentes concentraram-se diante da Capitania do Porto de Manta e fecharam por alguns minutos a via lindeira, conforme a AP. Queriam nomes, rota de traslado e confirmação de vida. Até aquele momento, o governo equatoriano não havia publicado lista pública dos detidos.
Rosalba Castro, que tem enteado, cunhado e dois trabalhadores no Conquista 2, disse à AP: “Não há resposta de nada, não sabemos onde estão”. E acrescentou: “Esse barco não fazia nada ilícito; somos pescadores artesanais”.
O proprietário do Conquista 2, César Pico, afirmou à Primicias que o barco seguia com cinco lanchas de arrasto e foi interceptado às 12h42, a cerca de 240 milhas náuticas da costa de Manabí, em águas que ele descreve como nacionais. Washington e o Ministério da Defesa Nacional do Equador situam o ponto em águas internacionais. Pico falou em possível engano por haver Conquista 1, Conquista 2 e Conquista 3: “Temos os vídeos de quando os gringos chegam, se aproximam, pegam os rapazes (pescadores) armados, os jogam de bruços e tudo mais”.
O que mostram as imagens do OM2?
A Rádio Pichincha publicou áudio e vídeo gravados a bordo do OM2. Um tripulante diz: “Somos o barco pesqueiro OM2. Estão nos abordando os norte-americanos”. Outra voz, em inglês e espanhol, ordena: “Com as mãos para cima, não se mova. Coloque-se de joelhos à frente. Mãos para cima. A marinha dos Estados Unidos”. Há ainda o registro: “Aqui somos a embarcação OM2. Temos o helicóptero do guarda costeiro aqui em cima de nós”.
O Comando Sul não comentou, nos comunicados de 2 e 3 de setembro, o conteúdo desses vídeos. Limitou-se a repetir que as ações ocorreram “em coordenação e colaboração com o Governo do Equador”.
O que a Armada do Equador e o governo Noboa disseram?
Já na madrugada desta sexta-feira (04/set), a Armada do Equador informou, segundo a Expreso e a Primicias, ter coordenado o recebimento de nove tripulantes do Conquista 2 e 19 do OM2, com chegada prevista ao Porto de Manta nesta sexta. Os demais, disse a força naval, “continúan navegando a bordo de sus respectivas lanchas”, com meios navais equatorianos a caminho para o acompanhamento.
O ministro do Interior, John Reimberg, do governo de Daniel Noboa, descartou a tese do equívoco em entrevista à Teleamazonas reproduzida pela Expreso. Segundo o jornal, o ministro afirmou que se trata de operações com “processos de inteligência e acompanhamento”.
O comandante do Comando Sul, general Francis L. Donovan, justificou a ação de 2 de setembro nestes termos: “Estamos tomando medidas decisivas para desmantelar e destruir as sofisticadas redes logísticas usadas por narcoterroristas para traficar drogas e espalhar violência por todo o Hemisfério Ocidental”.
IMPORTANTE: O afundamento de um barco pelo Comando Sul não equivale, por si só, a sentença judicial contra cada pescador. Até o fechamento desta apuração, os comunicados militares dos EUA não apresentaram prova pública do que teria sido encontrado a bordo do Conquista 2 e do OM2. A Armada do Equador anunciou o retorno de 28 tripulantes e disse que outros seguem em lanchas; isso não encerra, para as famílias, a exigência de lista nominal, local de custódia e acesso a defesa.
Há antecedentes com pesqueiros de Manabí?
Sim, e eles explicam a desconfiança em Manta, San Mateo e Jaramijó. A própria AP lembrou que, neste ano, tripulações de outros barcos equatorianos relataram interceptações por forças dos EUA. No caso do Fiorella, desaparecido em 20 de janeiro, oito pescadores não reapareceram. Sobreviventes de outras embarcações voltaram ao país depois de passagem por El Salvador.
A campanha marítima dos EUA, iniciada em setembro de 2025 sob o nome de Operation Southern Spear (“Lança do Sul”), já acumulava dezenas de ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico, segundo reportagens de veículos norte-americanos. O governo dos EUA classifica Los Choneros como organização terrorista estrangeira e trata pesqueiros de grande porte como possíveis “nós” de combustível, comida e apoio a lanchas rápidas. Cooperativas e famílias de Manabí respondem que a frota artesanal e semi-industrial da região pesca atum e espécies de alto-mar e que a acusação genérica coloca trabalhadores civis sob fogo militar sem processo visível.
A Radio Pichincha registrou ainda que, cerca de uma semana antes do Conquista 2, outra embarcação, Los Tres Hermanos, teria sido objeto de intervenção e afundamento. Esta redação não localizou, nas fontes oficiais do Comando Sul, um comunicado que cite esse nome.
Águas nacionais ou internacionais?
A disputa de coordenadas não é detalhe náutico. Se o ponto cair dentro da zona econômica exclusiva equatoriana, a autorização do Estado costeiro e o dever de informar famílias e a Fiscalía ganham outro peso jurídico. Se estiver em alto-mar, Washington invoca interdição contra o que chama de “narcoterrorismo”. Pico fala em 240 milhas da costa manabita. Relatos familiares citados pela Radio Pichincha oscilam entre 244 e 420 milhas. O Comando Sul não divulgou latitude nem longitude.
Análise
Três planos que a nota militar mistura num só pacote: O primeiro é factual: dois barcos de Manta foram abordados e destruídos por força dos EUA em 48 horas, com o selo de coordenação do governo Noboa. O segundo é humanitário: durante um dia inteiro, famílias permaneceram sem nome, sem hospital, sem cadeia e sem confirmação oficial de custódia. O terceiro é institucional: um Estado que autoriza parceiro estrangeiro a explodir embarcação de sua bandeira precisa explicar, em público, o critério de alvo, a prova a bordo e o destino de cada civil.
Sem essa prestação de contas, a palavra “transferência segura” vira fórmula. E a pesca de Manabí — atividade de que vive boa parte da costa equatoriana — passa a operar sob o risco de ser tratada, sem contraditório, como extensão flutuante de facção.
O que acontece agora?
A Armada marcou o desembarque de 28 homens em Manta para esta sexta-feira (04/set). Falta a lista pública, o destino dos que permaneceram nas lanchas e o registro formal, se houver, de flagrante ou de inquérito. As famílias pedem exatamente isso: nomes, custódia e a resposta à pergunta que atravessa o cais — o Equador autorizou o afundamento dos próprios pesqueiros?
FAQ Rápido
Os Estados Unidos admitiram ter afundado os dois barcos?
Sim. O Comando Sul publicou comunicados em 2 e 3 de setembro sobre duas interceptações no Pacífico Oriental, com afundamento após a revista. Não nomeou Conquista 2 nem OM2; a identificação veio da imprensa equatoriana e da AP.
Quantos tripulantes estavam envolvidos?
A AP somou 39 pessoas (17 no Conquista 2 e 22 no OM2). A Primicias falou em 15 no primeiro barco. A Armada do Equador anunciou o recebimento de 28 homens (9 + 19) e disse que os demais seguem nas lanchas.
Já há confirmação de que todos voltaram a Manta?
Não. Há previsão oficial de chegada de 28 tripulantes nesta sexta-feira (04/set). O paradeiro nominal de cada um e a situação dos que permaneceram no mar não haviam sido detalhados em lista pública até o fechamento desta matéria.
A Armada do Equador divulgou na madrugada desta sexta-feira (04/set), conforme Expreso e Primicias, o plano de desembarque parcial em Manta.
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