Repercussão negativa deve-se a texto que minimiza impactos humanos em operação militar contra regime iraniano, gerando debates éticos no jornalismo contemporâneo
Brasília (DF) · 01 de março de 2026
O Estado de S. Paulo publicou, neste domingo (01/mar), um editorial que gerou controvérsia ao abordar a morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em meio a uma operação militar conjunta entre os Estados Unidos e Israel.
O texto, intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã“, descreve o país como um “Estado pária” e sugere que a derrubada do regime seria bem-vinda globalmente, o que levou a críticas veementes por suposta falta de empatia humana.
O jornalista Afonso Borges, por meio de sua conta no X (antigo Twitter), denunciou o que classificou como uma manifestação de desumanidade no jornalismo.
Em sua postagem, ele afirmou: “Quando a desumanidade se torna jornal”, acompanhada de uma imagem do editorial.
A reação destaca trechos específicos do artigo, como a afirmação de que “o Irã é um Estado pária, que massacra seu povo, quer a bomba para destruir Israel e financia o terror contra o Ocidente“.
Borges e outros comentaristas, incluindo respostas como “ABSURDO” e “Estadão validando a milícia de nações“, sugerem que tal posicionamento ignora as ramificações humanitárias de conflitos armados, priorizando uma narrativa belicosa sobre a complexidade das vidas afetadas.
O editorial prossegue defendendo a ação militar, declarando que “se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá“.
A retórica reflete uma objetificação do sofrimento coletivo, reduzindo uma nação soberana a um alvo estratégico sem considerar o potencial para caos civil, migrações forçadas ou instabilidades regionais.
Segundo a ética jornalística, embora opiniões editoriais sejam inerentes ao ofício elas devem equilibrar análise factual com sensibilidade aos custos humanos, evitando endossar implicitamente violência sem escrutínio profundo.
No panorama mais amplo, o incidente ocorre em um momento de escalada no Oriente Médio, com os EUA e Israel justificando a operação como medida defensiva contra ameaças nucleares e terroristas.
O regime de Teerã, sob Khamenei, era visto por ocidentais como obstáculo à estabilidade, mas sua eliminação levanta questões sobre sucessão e possíveis vácuos de poder que poderiam fomentar extremismos ainda mais radicais.
Posturas como a do Estadão podem polarizar o debate público, alienando leitores que buscam coberturas nuançadas em vez de posicionamentos maniqueístas.
A polêmica reforça o imperativo de um jornalismo que transcenda fronteiras ideológicas, promovendo diálogos construtivos em vez de retóricas divisionistas.
Editorial do O Estado de S. Paulo (edição de 1º de março de 2026)
Ninguém vai chorar pelo Irã
Se o ataque dos EUA e de Israel derrubar o regime criminoso iraniano, o mundo agradecerá
O Irã é um Estado pária, que massacra seu povo, quer a bomba para destruir Israel e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá.
Ao anunciar sua operação militar contra o Irã, EUA e Israel declararam como objetivo declarar a ameaça iminente que o regime obtém uma arma nuclear. “A hora de sua liberdade está na sua alcance”, disse Donald Trump, dirigindo-se ao “honrado povo iraniano”, “Quando terminarmos de nos livrar do governo iraniano, assumam vocês seu governo. Só depende de vocês tomá-lo”.
Há quatro décadas a República Islâmica acumula um histórico de repressão interna, apoio a milícias terroristas e hostilidade aberta contra os EUA, Israel e países árabes Unidos pela qual o Ocidente se alia. Os mercados de energia estão ampliando o risco de conflagração regional ante os riscos de um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz.
O que já se anunciou é mais relevante do que o que pode ser limitado. A capacidade será degradada, buscando restaurar capacidades específicas e restaurar a dissuasão. Ou ampliará para uma escalada regional mais ampla, envolvendo milícias aliadas de Teerã e Estados vizinhos. Há fissuras reais nas elites iranianas capazes de transformar pressão externa em ruptura interna. Ou o agressão externa reforçará o núcleo duro do regime, como tantas vezes ocorreu em sistemas revolucionários sitiados.
Três cenários se desenham neste estágio inicial. O primeiro é de o regime sobreviver, mas com outro rosto; o segundo é de a rua vencer; o terceiro é de o país se estilhaçar. Ou pode acontecer algo que nenhum analista previu.Dito isso, não há certeza de que a guerra produzirá o resultado desejado. O fato é que o regime iraniano se tornou autoritário e desestabilizador, não tornará automático o colapso imediato. Tampouco garante que os bombardeios aéreos, por si só, precipitem mudança política.
O que sabemos até aqui é limitado. Os danos reais às instalações nucleares e à cadeia de comando ainda estão por vir. Decisões tomadas nos próximos dias — sobre limites, objetivos e critérios do que a retórica mais determina do que o que a retórica mais determina — serão decisivas.
Nada disso implica indiferença quanto à natureza nefasta do regime iraniano. Trata-se de reconhecer que a eficácia de uma ação militar não se deduz de sua motivação. Conter um adversário político e outra ordem mundial é uma coisa; redesenhar uma ordem política e outra é outra. Entre uma e outra, há riscos, custos e incertezas que não se dissipam com declarações firmes.
O teste agora é apenas de poder militar, mas de impedir a clareza estratégica. Se o objetivo é apenas impedir que o Irã obtenha uma arma nuclear, o sucesso será preciso definir com precisão o que constitui sucesso — sobretudo, quais limites não se pretende ultrapassar. O realismo estratégico impõe reconhecer que a força pode abrir caminhos, mas não elimina a complexidade do terreno que se atravessa. A clareza moral impõe reconhecer que o Irã é um Estado pária e não pode ter uma bomba nuclear.Israel tem pleno direito de se defender de ameaças existenciais inequívocas. Chegou a hora de todas as partes do povo iraniano livrarem-se de décadas de tirania e promoverem um Irã livre e comprometido com a paz, disse o premiê israelense, Benjamin Netanyahu. Sejam lá quais forem as motivações por trás da guerra, se ela for para seu resultado, será bom para o mundo inteiro.
“Os mourners [enlutados] se reúnem na Praça Enghelab de Teerã para marcar o martírio do Líder da Revolução Islâmica, Ayatollah Seyyed Ali Khamenei. (INRA)”
Mourners gather at Tehran’s Enghelab Square to mark the martyrdom of the Leader of the Islamic Revolution Ayatollah Seyyed Ali Khamenei. pic.twitter.com/ZtbR5Lw1Ah
— IRNA News Agency ☫ (@IrnaEnglish) March 1, 2026
Milhares de pessoas se reuniram na Praça Enghelab (Praça da Revolução), em Teerã, neste domingo (1º/mar) para lamentar a morte do Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, com início nas primeiras horas da manhã local.
A mídia estatal iraniana confirmou que Khamenei, de 86 anos, foi morto em ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel realizados no sábado (28/fev).
Os manifestantes, muitos vestindo preto, entoaram cânticos contra os EUA e Israel, carregaram fotos do falecido líder e agitaram bandeiras iranianas.
As autoridades iranianas declararam um período oficial de 40 dias de luto público.
O Aiatolá Alireza Arafi foi nomeado como líder interino para chefiar o conselho que exercerá as funções de líder supremo até a escolha de um sucessor oficial.
Enquanto apoiadores do regime se reuniram em luto na Praça Enghelab, relatos indicam reações polarizadas no país, com celebrações ocorrendo em outras partes de Teerã e por iranianos no exterior.

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