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Esquerda x esquerda: a disputa entre os antigos aliados do Movimento Ao Socialismo, Evo Morales e Luis Arce

    Ex-presidente da Bolívia, Evo Morales (E), e o presidente Luis Arce | Aizar Raldes/AFP

    Disputa interna entre apoiadores do ex-presidente e do atual presidente começou quando o primeiro voltou à Bolívia após exílio na Argentina devido ao golpe de 2019. Morales é crítico de decisões de Arce , enquanto o MAS se dividiu em apoio a ambos

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    O ex-presidente que governou a Bolívia de janeiro de 2006 a novembro de 2019, Evo Morales, chegou na segunda-feira (23/9) a La Paz, capital do país, junto com milhares de apoiadores em uma marcha contra o presidente Luis Arce.

    Ambos eram aliados, mas em outubro de 2023 o atual mandatário acabou sendo expulso do MAS (Movimento ao Socialismo), que é o partido que o levou à Casa Grande del Pueblo – residência presidencial boliviana desde 2018, após vencer as eleições de 2020.

    Morales tem planos de voltar ao poder, após quase 14 anos na presidência da Bolívia, por meio do voto popular, nas eleições que serão realizadas em de 2025. O anúncio foi feito há um ano, após rompimento com seu ex-ministro da Economia e atual presidente.

    O ex-presidente deixou o poder em novembro de 2019, após concorrer a um quarto mandato sem precedentes em uma eleição marcada por alegações de fraude, e fugiu da Bolívia alegando que foi vítima de um “golpe” de direita apoiado pelos Estados Unidos.

    Foi quando surgiu Jeanine Áñez, que autoproclamou-se presidente interina após Morales ter sido pressionado por militares a renunciar ao cargo de presidente, diante da pressão por conta da reeleição contestada pela oposição e pela OEA (Organização dos Estados Americanos), a qual o ex-presidente também acusou.

    A ascensão Áñez como presidente da Bolívia foi legitimada em pouquíssimas horas, pelo Tribunal Constitucional Plurinacional, mas sua gestão durou somente um ano de tribulações políticas e violência no país, até novembro de 2020, quando foi sucedida por Luis Arce.

    Durante a gestão de Arce, Áñez foi condenada a 10 anos pelo Tribunal de Primeira Instância de La Paz, por violação dos deveres e resoluções da Constituição.

    Com a chegada de Morales a La Paz, a capital boliviana registra confrontos entre seus apoiadores e os de Luis Arce. O ex-presidente exige mudanças no gabinete presidencial, “se quiser continuar a governar”. E diz que há ministros “corruptos” no governo.

    A “Marcha para salvar a Bolívia“, como chamou a ala pró-Morales dentro do MAS, recebeu, no último domingo (23/9), uma mensagem de Arce, que em pronunciamento na TV local, advertiu o ex-presidente de que não lhe daria o “prazer de uma guerra civil“. Depois, confrontos violentos foram registrados em La Paz.

    A marcha tinha como destino a sede do governo boliviano, mas as forças de segurança fecharam os acessos ao centro de La Paz para evitar contato entre os manifestantes e o palácio presidencial. O protesto terminou em frente ao edifício da Cervecería Boliviana Nacional, com um palco onde Morales discursou.

    O Ministério das Relações Exteriores do país respondeu às declarações de Morales com uma nota, em que afirmou que o “ultimato” dado pelo ex-presidente ao governo em seu pedido para trocar ministros “ameaça interromper a continuidade da ordem democrática”. O MRE boliviano condenou “qualquer tipo de extorsão ou condicionamento contra a vontade do povo manifestado nas urnas”. 

    A Bolívia enfrenta desde o ano passado problemas com a exportação de gás para o exterior, o que levou a um problema na entrada de dólares. A produção de gasolina e diesel foi reduzida e isso fez o preço dos combustíveis subirem, acarretando na importação de 56% da gasolina e 86% do diesel que abastecem o país.

    Para economistas bolivianos, o subsídios aos combustíveis nessas condições representa um gasto de US$ 3 bilhões (R$ 16 bilhões, aproximadamente) para o governo boliviano. Para custear essas importações, Arce usou parte das reservas internacionais, o que levou a falta de dólares e, consequentemente, a desvalorização do peso boliviano.

    Em 2023, Morales foi inabilitado pelo Tribunal Constitucional Plurinacional da Bolívia a concorrer à Presidência em 2025. A Corte decretou em dezembro daquele ano que presidentes e vice-presidentes só poderiam exercer o cargo por dois mandatos, de forma seguida ou não.

    Essa era uma lacuna que já existia na Constituição boliviana. Antes, a Carta Magna afirmava que o presidente não poderia exercer o cargo por mais de dois mandatos, mas não especificava se eram seguidos ou não. Com a sentença judicial 1010, Evo Morales, que foi presidente por quatro mandatos, não poderia voltar ao poder.

    Os apoiadores do ex-presidente consideram que, com um novo Tribunal Constitucional, essa norma poderia cair e ele poderia voltar a ser candidato em 2025. Morales tenta reverter o impedimento por meio de manifestações populares e da eleição de novos juízes eleitorais que revisariam essa decisão.

    A disputa interna entre apoiadores de Evo Morales e de Luis Arce começou quando o ex-presidente voltou à Bolívia em 2020, após passar um ano exilado na Argentina por conta do alegado golpe de Estado que levou à derrubada de seu governo, em 2019. O ex-presidente começou a criticar algumas decisões do atual presidente e seu apoiadores, enquanto o MAS está dividido entre alas de apoio a ambos.

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