O laboratório Netlab da UFRJ detectou mais de 80 mil publicações atacando o BC em uma ação contra instituições da República por meio de posts organizados”, ecoando a classificação de “milícia digital” por Moraes
Influenciadores foram contratados para defender o Banco Master e atacar o Banco Central, simulando movimento espontâneo. No “projeto DV” (referência a Daniel Vorcaro, dono do banco), cachês chegavam a R$ 2 milhões por 3 meses para grandes perfis, com cláusulas de sigilo e multas altas. A campanha visava deslegitimar a liquidação extrajudicial decretada em nov/2025 pelo BC, após rombo de ~R$ 12 bi. Vorcaro foi preso em Guarulhos (suspeita de fuga) e solto após 11 dias. Agências intermediárias (MiThi, UNLTD Brasil, Portal Group BR) fizeram as abordagens. Influenciadores como Leo Siqueira, Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite recusaram e denunciaram. Netlab/UFRJ detectou +80 mil posts contra o BC. PF investiga “milícia digital” e INSS apura irregularidades em 250 mil consignados do banco.
Brasília (DF) · 09 de janeiro de 2026
Influenciadores digitais foram aliciados com cachês estratosféricos para disseminar narrativas em defesa do Banco Master, simultaneamente minando a autoridade do Banco Central.
Os contratos, que previam remunerações de até R$ 2 milhões, foram estruturados para simular um movimento espontâneo, mas na verdade configuravam uma ofensiva calculada contra o processo de liquidação da instituição financeira, segundo O Globo.
O epicentro dessa trama remonta à liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, sob alegações de irregularidades que culminaram em um rombo estimado em R$ 12 bilhões.
Daniel Vorcaro, o proprietário e CEO do banco, foi detido em 18 de novembro durante a Operação Compliance Zero da Polícia Federal, em Guarulhos, por suspeita de planejar fuga para Malta.
Liberado após 11 dias, ele permanece sob monitoramento eletrônico e restrições de contato, enquanto nega irregularidades em depoimentos sigilosos ao Supremo Tribunal Federal.
Os contratos emergiram como parte de um “projeto DV” – alusão direta a Vorcaro –, orquestrado por intermediários que abordavam perfis alinhados à direita política.
As cifras variavam conforme o alcance: para contas com mais de um milhão de seguidores, o valor chegava a R$ 2 milhões por três meses, exigindo oito postagens mensais; para perfis menores, com menos de 500 mil seguidores, ofereciam R$ 250 mil.
Cláusulas de confidencialidade absoluta, com multas pesadas como R$ 800 mil por violação, garantiam o disfarce de organicidade.
Em ao menos um caso, o pagamento foi efetuado antes mesmo das publicações, conforme comprovantes de depósitos acessados pelo jornal.
Influenciadores como o deputado estadual Leo Siqueira (Novo-SP) relataram abordagens via Instagram em 21 de dezembro por André Salvador, ligado à agência UNLTD Brasil, descrevendo o trabalho como “gestão de crise de um executivo do mercado financeiro” envolvido em uma disputa contra o “sistema”.
“Quando me dei conta de que a única figura do mercado que poderia estar em busca de uma gestão de crise naquela data era o Daniel Vorcaro, eu imediatamente cortei contato”, afirmou Siqueira, recusando a proposta ao identificar o vínculo com o Banco Master.
Outros, como o vereador Rony Gabriel (PL-RS) e a jornalista Juliana Moreira Leite, denunciaram sondagens semelhantes pela Portal Group BR, expressando repúdio ao esquema que visava criticar a rapidez da liquidação para retratar o banco como vítima.
A agência central identificada nas negociações foi a MiThi, controlada por Thiago Miranda – ex-CEO do Grupo Leo Dias, com 10% de participação – e Flávio Carneiro (60% das cotas).
Transferências bancárias partiram da conta de Miranda, que não respondeu a contatos. Leo Dias negou qualquer conexão da agência com seu portal e confirmou a saída de Miranda em junho.
A UNLTD Brasil e a Portal Group BR negaram contratos diretos com o Banco Master, alegando meras indicações.
Essa campanha não passou despercebida: o laboratório Netlab da Universidade Federal do Rio de Janeiro detectou mais de 80 mil publicações atacando o Banco Central no último mês, configurando o que a jornalista Malu Gaspar descreve como uma ação para “atacar instituições da República por meio de posts organizados”, ecoando a classificação de “milícia digital” pelo ministro Alexandre de Moraes do STF.
A Polícia Federal, por sua vez, compila dados em uma Informação de Polícia Judiciária para instaurar inquérito sobre essa rede de influência paga.
Paralelamente, o INSS abriu frente investigativa sobre irregularidades em mais de 250 mil contratos de empréstimo consignado com o Banco Master. Em 74% dos casos, faltavam os próprios contratos, classificados como falhas graves e insanáveis; nos apresentados, ausentavam-se dados essenciais como taxas de juros e parcelas.
A presidência do instituto suspendeu repasses ao banco até a conclusão do processo, alertando para riscos a beneficiários dependentes de verbas alimentares.
No âmbito judicial, o Tribunal de Contas da União suspendeu inspeção nos documentos do Banco Central sobre a liquidação, acatando recurso do regulador.
O ministro relator Jhonatan de Jesus minimizou o impacto, mas encaminhou a controvérsia ao plenário, notando que “a dimensão pública assumida pelo caso, com contornos desproporcionais para providência instrutória corriqueira nesta Corte, recomenda que a controvérsia seja submetida ao crivo do plenário”.
O julgamento está previsto para 21 de janeiro.

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