
Jim Caviezel, que interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro, Mario Frias e Cyrus Nowrasteh, durante gravação do filme ‘Dark Horse’ / Imagem reprodução @MarioFrias/X
| Brasília e São Paulo
01 de junho de 2026
O deputado federal Mário Frias (PL-SP) — produtor-executivo e roteirista do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro — destinou uma emenda parlamentar de R$ 1 milhão para a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB).
Uma investigação publicada pelo Estadão revelou que parte do dinheiro foi usada para pagar o próprio advogado do parlamentar, custear a compra de livros didáticos que nunca foram entregues a escolas de Pirassununga (SP) e contratar uma empresa de um dirigente da própria organização — prática vedada por lei.
A destinatária da emenda, apresentada no orçamento de 2024, é Karina Ferreira da Gama, responsável pela Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse.
A justificativa oficial do projeto, registrada no plano de trabalho, era fomentar o “letramento digital e o empreendedorismo para adultos e adolescentes” em escolas públicas municipais, com a utilização de “materiais didáticos físicos e digitais inovadores”.
Contudo, a execução da verba pública seguiu um caminho muito diferente do prometido.
O maior desembolso, de R$ 400 mil, foi realizado em fevereiro de 2025 para a Editora Dinâmica, que deveria fornecer 2.750 kits de livros pedagógicos ao projeto Jovem Empreendedor. O material, no entanto, nunca chegou.
Questionado pela reportagem, Kayo Azevedo, responsável técnico do projeto em Pirassununga, afirmou: “Não foi executado em Pirassununga. Não foi executado por mim. Fiquei sabendo que não iria mais rolar aqui, não seria eu que executaria. Ninguém deu satisfação ou falou nada.”
A Editora Dinâmica pertence a Dayvid Medeiros, que é sócio em outra empresa de Heric Fabiano Dias. A esposa de Heric, Luiza Tessari Rocha Dias, doou R$ 70 mil para a campanha de Mário Frias a deputado federal em 2022. Procurados, Dayvid Medeiros e o casal não responderam aos contatos do jornal.
Outro repasse significativo foi de R$ 300 mil para o Instituto Super Poder Educacional, de Pamella Cristiane Dias, que também não retornou as tentativas de contato da reportagem.
O serviço contratado previa a entrega de “24 kits pedagógicos” e licenças para acesso a uma plataforma digital.
A análise dos documentos de prestação de contas, obtida pelo Estadão, também identificou pagamentos diretamente ligados ao círculo pessoal do deputado.
Foram destinados R$ 80 mil a uma empresa cujo sócio é Fábio Lago Meirelles, advogado que representa Mário Frias em ao menos nove processos na justiça desde 2022.
Os repasses incluíram R$ 30 mil por “serviços de contabilidade” e R$ 50 mil por “serviços jurídicos”. Procurado, o advogado inicialmente afirmou que retornaria após uma reunião, mas depois parou de responder às mensagens.
O g1 informou que a defesa de Frias nega qualquer irregularidade, classificando as acusações como “absolutamente falsas, desprovidas de qualquer lastro probatório e difamatórias”.
A situação se agrava com a identificação de um conflito de interesses explícito. Marcelo Machado, produtor de eventos que também é dirigente da Academia Nacional de Cultura (ANC) — outra entidade presidida por Karina Gama e alvo da Polícia Federal — recebeu R$ 50 mil via sua empresa MM7 por serviços de “divulgação”.
A legislação proíbe a contratação por ONGs de empresas pertencentes aos seus próprios dirigentes, configurando uma vedação legal clara. Os R$ 1 milhão desta emenda são parte de um montante ainda maior sob investigação.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), apura se R$ 2 milhões em emendas enviadas por Mário Frias à ONG ICB foram, na verdade, utilizados para financiar a produção do filme Dark Horse, que deve estrear em setembro, semanas antes do primeiro turno das eleições municipais.
A ação no STF foi motivada por um pedido da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), que denunciou a formação de um “ecossistema” de empresas e ONGs sob comando de Karina Gama, dificultando a rastreabilidade da verba pública.
A Corte tentou intimar o deputado por mais de dois meses, sem sucesso. Oficiais de justiça chegaram a fazer três tentativas no gabinete de Frias, em Brasília, e em seus endereços particulares, mas foram informados por assessores de que o parlamentar “estaria em São Paulo, em compromissos de campanha”.
A prestação de contas do convênio firmado entre o Ministério de Ciência e Tecnologia e o ICB, viabilizado pela emenda, venceu em 11 de abril. Até o momento, a documentação não foi apresentada.
Procurados pela reportagem, Mário Frias, Karina Gama e os demais envolvidos não se manifestaram.
O Ministério de Ciência e Tecnologia informou, em nota, que o convênio “passou pelos ritos técnicos e jurídicos previstos na legislação” e que já notificou a entidade “para esclarecimentos e apresentação de informações complementares”.
O caso expõe as fragilidades do sistema de controle de emendas parlamentares no Brasil. A engenharia financeira que permitiu o repasse de dinheiro público para o advogado pessoal do deputado, combinada com a compra de materiais que nunca chegaram ao seu destino, evidencia um esquema que desvia a verba da sua finalidade social para atender interesses privados e partidários.
A investigação do STF será crucial para determinar se houve crime de responsabilidade ou improbidade administrativa.
Flávio Dino ainda aguarda a manifestação formal do deputado Mário Frias.
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