Sobre o vídeo editado pela ‘CNN‘ para ‘culpar’ Lula, Reinaldo Azevedo diz que “a imprensa aderiu à lógica absurda da cumplicidade da vítima com o seu algoz“, após o bolsonarismo contaminá-la
“Que coisa! Setores da imprensa, nesse episódio do vazamento do vídeo sobre o 8 de janeiro – cuidadosamente editado (por quem?) para transformar o agredido em responsável pela agressão que sofreu -, aderiram à lógica absurda da cumplicidade da vítima com o seu algoz“, escreve Reinaldo Azevedo, em sua coluna no UOL.
O jornalista se refere às imagens de uma das câmeras de segurança do Palácio do Planalto, em que o general Gonçalves Dias aparece, nos trechos finais, orientando terroristas a descerem para os andares inferiores da sede do governo, mas foi acusado de colaboração.
“Ainda que não observada, seria uma monstruosidade moral atribuir à vítima algum grau de cumplicidade ou colaboração com o seu agressor. Fazê-lo corresponde a legitimar um suposto lugar do estuprador na ordem das coisas“, escreve o jornalista.
“Em matéria de pântano moral, como deixar Jair Bolsonaro de fora?“, diz Reinaldo Azevedo, que passa a lembrar de declarações do ex-presidente, quando presidente, sem o mínimo de moralidade, o que fortaleceu um bolsonarismo que “contaminou e corroeu” as “instituições de Estado, como revelam a inércia e a conivência de servidores do GSI, entre outros entes, com os golpistas“.
“O estrago provocado na imprensa é muito maior do que se percebe à primeira vista. Houve avarias importantes — e não sei se sanáveis — nos radares morais e nos sensores que identificam ameaças à ordem democrática“, escreve em outro trecho de sua matéria, abrindo caminho para uma análise mais aprofundada dessa “corrente de pensamento e militância política“, considerada “perigosa” pelo autor.
“Uma pergunta grita o seu silêncio: quem editou o vídeo e com que propósito?“, indaga Reinaldo Azevedo. “É evidente que o episódio pode e deve suscitar questionamentos e que houve erros grotescos: a mentira contada sobre as câmeras quebradas do terceiro andar, que quebradas não estavam, como se vê; a imposição de sigilo para as imagens; a manutenção no GSI da mesma equipe que serviu a Jair Bolsonaro; quem sabe uma certa subestimação do risco, ainda que a área adjacente ao QG do Exército de Brasília seguisse ocupada“.
“A Polícia Federal não tem de correr atrás das fontes da ‘CNN’ ou de qualquer outro veículo de imprensa. Mas tem de procurar identificar a origem do vazamento. Caso consiga, também se chegará ao propósito. Essa é uma imposição legal“, diz em outro trecho.
“Não se está sabendo a fronteira entre a reprovação a medidas do governo – coisa absolutamente legítima – e a tolerância com ameaças às instituições. De novo! Já passamos por isso a um custo gigantesco“, adverte o jornalista sobre textos de colegas de profissão, sobre os quais diz que “poderia” enumerá-los, os que juntam “os erros do governo no caso do vazamento com o inconformismo do seu escriba com o arcabouço fiscal ou com as declarações do presidente sobre a Ucrânia“.
“É uma insanidade. É a avaria nos radares morais e nos sensores que identificam ameaças à ordem democrática”, desabafa Reinaldo Azevedo. “Pesa também o fato de que certos setores da imprensa, identificados com o que dizem ser “liberalismo” ou com a direita democrática se ressentem do que julgam ser falta de voz no governo e no debate público. Os conservadores que compõem o arco de alianças de Lula não os representam. A ojeriza da imprensa ao tal “centrão”, por exemplo, é gigantesca. Falta ao grupo aquele espírito doutrinário do antigo udenismo“.
Reinaldo Azevedo faz um alerta: “o bolsonarismo é, sim, de extrema-direita, mas o petismo não é de extrema-esquerda“. para o jornalista, há uma clara ‘tentativa de reeditar o golpe” com “o objetivo” de “evidenciar uma suposta e absurda cumplicidade do governo com o ataque golpista para inviabilizá-lo“.
Azevedo, por fim, argumenta sobre “a imprudência com que imprensa e colunistas passaram a dar piscadelas para o perigo, indagando à pessoa estuprada se, na verdade crua, não acabou sendo cúmplice do estuprador“.
“É indecente que jornalistas, que têm um compromisso necessário com a liberdade e a com democracia, digam a Lula que ele não soube cuidou direito das suas cabras, mesmo sabendo que o bode do bolsonarismo estava solto. Trata-se de um comportamento liberticida“.
