📷 Da esquerda para a direita, o senador Flávio Bolsonaro em uma de suas danças / reprodução redes sociais | o Secretário de Estado americano Marco Rubio e o Presidente dos EUA, Donald Trump | O Presidente Lula no Palácio do Planalto | A jornalista Eliane Cantanhêde |•| Arte Urbs Magna
| Brasília (DF)
17 de julho de 2026
A colunista Eliane Cantanhêde , em análise publicada no Estadão, afirmou que o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil produziu um efeito político oposto ao que o campo bolsonarista esperava: fortaleceu o presidente Lula (PT) e aprofundou o desgaste do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje apelidado nas redes sociais de “Tariflávio”.
“Do limão, Lula fez uma limonada”, escreveu Cantanhêde, em publicação que foi ao ar na noite de quinta-feira (16/jul), ao resumir a virada do episódio a favor do petista.
O centro da crítica da colunista é a carta que Flávio enviou ao Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) — não pedindo o fim das tarifas, mas seu adiamento para depois das eleições brasileiras de outubro.
Para Cantanhêde, o pedido em si já expõe a lógica por trás da manobra: “o que vale é se é bom ou mau para ele e o bolsonarismo”.
Ela classificou a iniciativa como “um desastre” para o próprio senador — já que o documento equivale a uma confissão pública de que a prioridade era o calendário eleitoral, não o impacto da tarifa sobre a economia brasileira.
Do outro lado, uma reação pronta
Enquanto Flávio cometia o que Cantanhêde chamou de “mais um erro incompreensível à sua coleção”, Planalto e Itamaraty já tinham pronta a reação diplomática e de comunicação à decisão.
A estratégia do governo foi centrada em três focos: “soberania nacional”, “mentiras dos EUA” e apoio aos setores atingidos.
O chanceler Mauro Vieira revelou que o Brasil realizou cerca de 30 reuniões diplomáticas na tentativa de evitar a escalada — número que, segundo a leitura oficial, comprova que a decisão americana já estava tomada de antemão, por motivos políticos, independentemente do esforço de negociação.
“A decisão dos EUA foi política, já estava tomada independentemente das negociações e é cheia de erros sobre Pix, economia, desmatamento, comércio”.
O ataque dos EUA, segundo Cantanhêde, “só atrapalha Flávio”. O senador tentou consertar pedindo o adiamento do tarifaço para depois das eleições, mas ele já estava decidido “na cabeça de Trump”.
O efeito nas pesquisas
Os números corroboram a tese de que o tarifaço está ajudando Lula a se consolidar como o defensor da soberania nacional contra um agressor externo.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada na quinta-feira (16/jul) mostrou que 51% dos brasileiros culpam Flávio Bolsonaro pelo tarifaço, contra apenas 30% que atribuem a culpa a Lula. Outros 30% disseram acreditar mais na versão do senador, que afirma ter pedido a Trump que não taxasse o Brasil.
Pesquisa do Datafolha de 20 de junho já mostrava Lula com 41% das intenções de voto contra 31% de Flávio.
Agora, a aprovação do governo Lula superou a desaprovação pela primeira vez desde 2024, segundo a Quaest: 48% aprovam e 47% desaprovam — um empate técnico, mas uma reversão de tendência que vinha desde abril.
A percepção pública de que Flávio apoiou o tarifaço para prejudicar Lula se reflete também no fenômeno digital. Segundo Cantanhêde, foram 7 milhões de menções e interações com o termo “Tariflávio” no X, Instagram e TikTok em menos de 24 horas.
Flávio e a defesa do agressor
O erro mais grave apontado por Cantanhêde foi a decisão de Flávio de reproduzir nota do secretário de Estado Marco Rubio a favor do tarifaço e contra Lula. Em sua mensagem, Rubio culpou Lula pelo tarifaço, dizendo que ele “agiu de má-fé e colocou seu próprio ego à frente de um acordo do bem-estar do povo brasileiro”.
“Ou seja, apoiou o agressor, com quem se identifica ideologicamente, em vez de defender o agredido: o Brasil”, escreveu Cantanhêde.
A colunista também criticou a Fiesp, de Paulo Skaf, que responsabilizou Lula pelo tarifaço, por “ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington”.
A “hipoteca” de Flávio com Trump
Em outra coluna sobre o tema, Cantanhêde destacou que a mensagem de Marco Rubio para Flávio contém “recados subliminares” que podem transformar a ida do senador aos EUA em “mais um tiro no pé”. Ela chamou atenção para o trecho em que Rubio agradece “a generosa oferta” de Flávio de, se eleito, colocar uma equipe de transição “à disposição” do governo americano.
“Soa como uma hipoteca: Trump interfere na eleição brasileira a favor de Flávio e Flávio paga, depois, jogando os interesses do Brasil nas mãos de Trump”.
Para a colunista, a estratégia da família Bolsonaro de buscar apoio em Trump se revela um tiro que acerta, na verdade, os próprios interesses do Brasil.
“Por mais que Flávio e Eduardo digam que a ida a Washington é para defender o Brasil, evitar sanções e salvar o Pix, ninguém esquece que foram eles, os Bolsonaro, que criaram e ainda hoje insistem em manter todos esses problemas”.
O tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros entra em vigor em 22 de julho, com uma extensa lista de exceções que inclui carne bovina, café, petróleo, aeronaves e celulose.
O governo brasileiro anunciou que iniciará os trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade e levará o caso à Organização Mundial do Comércio.
O senador Flávio Bolsonaro afirmou que “a culpa do tarifaço é do Lula!”.
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