Entenda como a divisão do partido MAS, entre o presidente Luis Arce e o ex-presidente Evo Morales, influenciou os resultados deste domingo (17)
Brasília, 18 de agosto de 2025
No domingo, 17 de agosto, a Bolívia foi às urnas para as Eleições Gerais 2025, em um processo eleitoral que definiu o cenário para a escolha do próximo presidente, vice-presidente, 130 deputados e 36 senadores.
Com mais de 7,5 milhões de eleitores registrados, a votação transcorreu em um contexto de grave crise econômica, com inflação de dois dígitos, escassez de combustíveis e dólares, além de tensões políticas agravadas pela fragmentação da esquerda.
Os resultados preliminares, divulgados pelo Órgão Eleitoral Plurinacional (OEP) revelaram uma reviravolta surpreendente do candidato do centro Rodrigo Paz Pereira, do Partido Demócrata Cristão (PDC), liderou o primeiro turno com 32,8% dos votos, seguido por Jorge “Tuto” Quiroga (26,4%), da Aliança Livre – de centro-direita, formada por partidos como o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e outras forças conservadoras.
Como nenhum candidato atingiu os 50% necessários ou 40% com 10 pontos de vantagem, os dois disputarão o segundo turno em 19 de outubro de 2025.
A vitória de Rodrigo Paz, senador por Tarija e filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, foi um choque para analistas, já que as pesquisas previam liderança de Samuel Doria Medina ou Quiroga.
Segundo o sociólogo brasileiro e comentarista político com visão progressista, Rodrigo Luis Veloso, “a Atlas Intel errou feio o resultado”, tendo sido “o instituto que apresentou pesquisa mais distante”.
Veloso acrescenta que “um dos que mais acertou foi o Instituto IPSOS” e pediu para guardar os nomes dos institutos, “para terem uma noção sobre as pesquisas no Brasil”.
Paz, que se apresentou como a voz dos que “não apareciam nas pesquisas”, destacou em seu discurso a busca por “reconciliação nacional” e uma economia voltada para o povo.
Ele obteve forte apoio em regiões como Cochabamba, onde chegou a 72,59% dos votos em algumas mesas, segundo dados preliminares.
Jorge Quiroga, ex-presidente entre 2001 e 2002, ficou em segundo lugar e defendeu uma “Bolívia livre de divisões”, prometendo combater a polarização e implementar reformas econômicas.
Sua campanha, marcada por críticas ao Movimento ao Socialismo (MAS), ressoou entre eleitores cansados dos 20 anos de domínio do partido.
Quiroga também condenou episódios de violência durante a votação, como o ataque ao candidato Andrónico Rodríguez em Cochabamba, onde apoiadores de Evo Morales o acusaram de traição.
A esquerda, representada principalmente por Andrónico Rodríguez (Aliança Popular) e Eduardo del Castillo (MAS), sofreu um revés histórico.
Rodríguez, ex-aliado de Morales, ficou em quarto lugar com 8%, enquanto del Castillo, ex-ministro do governo de Luis Arce, amargou apenas 3,2%.
A fragmentação do MAS, agravada pelo racha entre Arce e Morales, enfraqueceu o bloco que dominou a política boliviana desde 2006.
Morales, impedido de concorrer pelo Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP), promoveu o voto nulo, que alcançou 19%, mas não afetou a validade do pleito, segundo o OEP.
Samuel Doria Medina, da Aliança Unidade, era considerado favorito, mas terminou em terceiro com 20,2%.
Após a derrota, ele anunciou apoio a Paz no segundo turno, reforçando a frente anti-MAS.
A jornada eleitoral foi marcada por tranquilidade, com incidentes isolados, como o ataque a Rodríguez e uma tentativa de danificar material eleitoral.
O OEP destacou a “vocação democrática” do processo, elogiado por missões da OEA e da União Europeia.
Fontes como o El País apontam que a vitória de Paz reflete a rejeição ao MAS em meio à crise econômica, com inflação anual próxima de 25% e escassez de bens essenciais.
A ascensão da direita e da centro-direita, após duas décadas de hegemonia esquerdista, sinaliza uma possível guinada política na Bolívia.
Analistas, como Daniela Osorio Michel, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais, destacam que os eleitores buscam “estabilidade” em vez de mudanças ideológicas radicais.
A campanha de Paz, focada em moderação e críticas à venda de reservas de lítio a empresas estrangeiras, conquistou eleitores descontentes com propostas mais radicais de Quiroga e Doria Medina.
O segundo turno promete ser acirrado, com Paz tentando consolidar o apoio de setores moderados e Quiroga apelando à base conservadora.
A influência de Morales, mesmo fora da disputa, permanece um fator de instabilidade, com sindicatos cocaleros prometendo resistência caso a direita venha a implementar reformas como a privatização do gás natural, que poderia impactar exportações para o Brasil.
O RACHA DA ESQUERDA
Evo Morales, líder histórico do Movimento ao Socialismo (MAS) e presidente da Bolívia entre 2006 e 2019, foi afastado da liderança do partido e impedido de concorrer às Eleições Gerais 2025 devido a uma decisão do Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP), que limitou a reeleição a dois mandatos.
A crise interna no MAS intensificou-se com a rivalidade entre Morales e o atual presidente Luis Arce, seu ex-ministro da Economia.
Em 2023, durante o 10º congresso do MAS em Cochabamba, a ala leal a Morales expulsou Arce e 28 aliados, declarando-o “autoeexpulso” por não comparecer ao evento.
No entanto, em 2024, outro congresso do partido, alinhado a Arce, destituiu Morales da presidência do MAS e nomeou Grover García, aliado de Arce, como novo líder, consolidando o controle da ala “arcista” após decisão judicial favorável.
A disputa entre Morales e Arce aprofundou a fragmentação do MAS, enfraquecendo a esquerda boliviana às vésperas das eleições de 17 de agosto.
Morales, acusado de tentar manter um culto à personalidade, fundou o Evo Pueblo, mas foi barrado de concorrer devido a limites constitucionais e denúncias de escândalos, como um caso de estupro estatutário.
Arce, enfrentando impopularidade devido à crise econômica, com inflação de 25% e escassez de combustíveis, retirou-se da corrida presidencial em maio de 2025, alegando evitar a divisão do voto popular e o avanço da direita.
A briga resultou em protestos violentos, bloqueios de estradas e acusações mútuas, com Morales alegando um atentado contra si e Arce sendo acusado de “entregar o país à direita”.
A fragmentação do MAS abriu espaço para a ascensão de candidatos de centro-direita, e direita no primeiro turno.









Esse Evo anteriormente queria se perpetuar eternamente no poder, logo hoje dividiu agora a esquerda.
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