Português Inglês Irlandês Alemão Sueco Espanhol Francês Japonês Chinês Russo
Avançar para o conteúdo

    Investigação de Ebola no Brasil aciona protocolos de contingência após dois casos suspeitos em SP e RJ

    — calculando —
     

     

    Imagem de microscopia

    Imagem de microscopia eletrônica de transmissão (TEM) registrada originalmente em preto e branco pelos laboratórios do CDC, recebendo posterior coloração digital (tons de roxo, amarelo ou vermelho) para destacar o agente infeccioso das células humanas ao fundo. A captura revela a estrutura filamentosa longa característica do vírus, cujos filamentos se dobram sobre si mesmos em formatos que lembram as letras “C”, “U” ou o número “6”. Identificado pela primeira vez em 1976 próximo ao Rio Ebola, na atual República Democrática do Congo, o patógeno é o agente causador de febres hemorrágicas graves e surtos históricos no continente africano / Foto: Ilustração de Satyen Tripathi / Emory University

    | Brasília (DF)
    31 de maio de 2026

    O Brasil investiga, neste domingo (31/mai), dois casos suspeitos de ebola em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    Um imigrante congolês de 37 anos, intubado no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na capital paulista, e um turista belga de 47 anos, internado no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (Fiocruz), na zona norte carioca, seguem em isolamento.

    Os dois pacientes estiveram recentemente em países africanos com surto ativo da doença — República Democrática do Congo (RDC) e Uganda.

    “O plano de contingência foi acionado imediatamente”, afirma o Ministério da Saúde, que já ativou os protocolos nacionais para febres hemorrágicas virais. “As medidas incluem isolamento, notificação imediata, investigação laboratorial e monitoramento de contatos.”

    Por que a suspeita de ebola acendeu o alerta no Brasil?

    Os dois pacientes preenchem os critérios de caso suspeito definidos pelo Ministério da Saúde: histórico de viagem a área com transmissão ativa nos últimos 21 dias e apresentação de sintomas compatíveis — febre alta, diarreia, desorientação e, no caso paulista, rápida piora clínica que exigiu intubação.

    Segundo o Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE-SP), o paciente de São Paulo é natural da RDC, viajou recentemente ao país africano e deu entrada em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) com febre e exames inconclusivos para malária.

    Ao ser transferido para o Emílio Ribas, apresentou quadro grave, com diarreia, desorientação e necessidade de suporte ventilatório.

    Exames preliminares indicaram meningite meningocócica, mas a possibilidade de infecção pelo vírus ebola ainda não foi descartada — os testes específicos só devem ficar prontos na segunda-feira (1º/jun).

    No Rio de Janeiro, o caso envolve um turista belga que esteve em Uganda, país vizinho à RDC e também atingido pelo surto.

    Ele apresentou tosse, calafrios e diarreia, foi transferido de ambulância especial para o INI/Fiocruz e testou positivo para malária.

    Mesmo assim, permanece isolado até a conclusão dos exames para ebola, prevista também para segunda-feira.

    O surto na África: a cepa Bundibugyo que desafia a ciência

    O atual surto, declarado emergência de saúde pública de importância internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 17 de maio de 2026, é causado por uma variante rara do vírus: a cepa Bundibugyo.

    Diferentemente da cepa Zaire, para a qual existe vacina aprovada (Ervebo), ainda não há imunizante ou tratamento específico disponível para a Bundibugyo.

    “Não há vacinas ou tratamentos aprovados para a espécie Bundibugyo do ebola”, informa a OMS, que contabiliza 260 casos confirmados e 246 mortes na RDC, além de 9 casos e 1 morte em Uganda, até 30 de maio.

    A taxa de letalidade histórica da cepa Bundibugyo é de cerca de 13%, bem inferior à da cepa Zaire (até 90%). Ainda assim, a velocidade de disseminação e as dificuldades logísticas na região afetada — província de Ituri, no nordeste da RDC — acenderam o sinal de alerta global.

    Ilustração do vírus Ebola

    Entendendo o vírus Ebola

    Como acontece com todos os vírus, a compreensão da sua estrutura única é fundamental para o desenvolvimento de terapias eficazes. Os cinco subtipos do vírus Ebola — Zaire, Sudão, Bundibugyo, Tai Forest e Reston (encontrado apenas em animais) — recebem os nomes das regiões onde foram descobertos. O Zaire é considerado o subtipo mais letal, com uma taxa de mortalidade entre 50% e 90%.

    O vírus Ebola se espalha por contato direto com sangue ou outros fluidos corporais, como sêmen, fezes ou vômito de pessoas (ou animais) infectadas, incluindo contato próximo com vítimas fatais da doença, que são altamente contagiosas. A infecção também pode ocorrer por meio de objetos como agulhas e seringas, ou roupas e roupas de cama contaminadas com o vírus. Diferentemente de outros vírus, como o da gripe ou o da SARS, o vírus Ebola não se espalha pelo ar, pela água, por mosquitos ou outros insetos.

    Ilustração: Satyen Tripathi / Emory University

    O que já se sabe sobre os casos no Brasil?

    Diagnósticos preliminares e monitoramento

    LocalPacienteProcedênciaDiagnóstico preliminarSituação atual
    São PauloHomem de 37 anosRepública Democrática do CongoMeningite (Neisseria meningitidis)Intubado, sedado, em isolamento no Emílio Ribas
    Rio de JaneiroTurista belga de 47 anosUgandaMaláriaIsolado no INI/Fiocruz, aguarda exames

    Ambos os pacientes seguem sendo monitorados por equipes de vigilância epidemiológica do estado e da União.

    A coordenadora em Saúde da Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) da SES-SP, Regiane de Paula, informou que as medidas previstas no plano de contingência foram adotadas a partir da identificação dos critérios clínicos e epidemiológicos. “O procedimento inclui isolamento, notificação imediata, investigação laboratorial e monitoramento conforme os protocolos vigentes”.

    Plano de contingência brasileiro: preparação e resposta

    O Brasil ativou o Plano de Contingência Nacional para Febres Hemorrágicas Virais em 25 de maio, após o alerta da OMS. O documento, atualizado em 2024, prevê:

    • Identificação precoce de casos suspeitos em portos, aeroportos e serviços de saúde;
    • Notificação imediata aos Centros de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS);
    • Isolamento seguro em unidades de referência (Emílio Ribas em SP; INI/Fiocruz no RJ);
    • Monitoramento de contatos para reduzir risco de transmissão secundária;
    • Coleta de segunda amostra para confirmação laboratorial, mesmo após primeiro teste negativo.

    O plano não prevê fechamento de fronteiras nem restrições a viagens ou comércio, em linha com as recomendações da OMS. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reforçou em entrevista à CNN Brasil que o sistema de vigilância brasileiro já está acionado e integrado com todos os estados.

    “Nós nunca tivemos situações de circulação desse vírus, casos, mesmo em situações similares ao que está acontecendo na República Democrática do Congo e na Uganda. Nós temos no Brasil um sistema de vigilância que já foi acionado, que envolve todos os estados e centros especializados capacitados para isso” — Alexandre Padilha, ministro da Saúde.

    Risco de transmissão no Brasil: por que especialistas pedem calma

    A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e o Ministério da Saúde avaliam o risco de introdução do ebola no Brasil como muito baixo.

    Os fatores que sustentam essa avaliação incluem:

    1. Ausência histórica de transmissão autóctone na América do Sul — nunca houve um caso de ebola originado no continente.
    2. Inexistência de voos diretos entre as regiões afetadas (RDC e Uganda) e o Brasil.
    3. Forma de transmissão restrita: o ebola não é transmitido pelo ar. O contágio exige contato direto com sangue, secreções, fluidos corporais ou tecidos de pessoas sintomáticas.
    4. Transmissibilidade tardia: o paciente só se torna contagioso após o início dos sintomas, o que facilita o rastreamento e isolamento.
    5. Reservatório natural ausente: os morcegos frugívoros do gênero Pteropodidae, principais hospedeiros naturais do vírus, não ocorrem em território brasileiro — apenas em ambientes controlados, como zoológicos.

    A infectologista Luana Araújo, presidente do Comitê Científico de Saúde Única da SBI, destaca que a declaração de emergência pela OMS não significa pandemia iminente, mas sim a necessidade de coordenação global e fortalecimento da vigilância.

    “O que mais preocupa todos é a percepção de que este surto é, muito possivelmente, o maior que veremos desde 2014, porque a região é bastante fragmentada política e socioeconomicamente, com uma vigilância também fragmentada e uma OMS fragilizada depois da retirada dos investimentos dos Estados Unidos das iniciativas internacionais de saúde global”

    Luana Araújo

    Panorama do surto na África (atualizado em 30/mai/2026)

    PaísCasos suspeitosCasos confirmadosMortes
    República Democrática do Congo1.077260246
    Uganda991
    Total1.086269247
    Fonte: OMS, Ministério da Saúde da RDC, Bloomberg News.

    OMS estima que o número real de casos possa ser maior, dada a dificuldade de acesso a áreas remotas da província de Ituri e a sobreposição de sintomas com outras doenças endêmicas, como malária e febre tifoide.

    O que é o ebola e quais são os sintomas?

    De acordo com o Ministério da Saúde, o ebola (ou Doença pelo Vírus Ebola — DVE) é uma zoonose grave, frequentemente fatal. Os sintomas surgem entre 2 e 21 dias após a exposição e incluem:

    • Febre alta (≥ 38°C);
    • Dor de cabeça intensa;
    • Dores musculares e fadiga;
    • Náuseas, vômitos e diarreia;
    • Dor abdominal;
    • Em casos graves: manifestações hemorrágicas (sangramento em gengivas, fezes, hematúria), choque circulatório e falência múltipla de órgãos.

    A transmissão ocorre por contato direto com sangue, secreções, órgãos ou fluidos corporais de pessoas infectadas ou falecidas pela doença, ou por contato com superfícies e objetos contaminados. 

    Não há transmissão pelo ar, o que limita significativamente seu potencial de disseminação.

    Estrutura de resposta no Brasil: hospitais de referência

    EstadoUnidade de referênciaResponsável pela investigação laboratorial
    São PauloInstituto de Infectologia Emílio RibasInstituto Adolfo Lutz
    Rio de JaneiroInstituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (Fiocruz)Fiocruz / Laboratório Central (LACEN-RJ)

    O Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, é o laboratório de referência nacional para diagnóstico diferencial de febres hemorrágicas virais, incluindo ebola.

    O INI/Fiocruz, no Rio, integra a rede de laboratórios públicos da Fundação Oswaldo Cruz e é referência para o atendimento de casos suspeitos na região Sudeste.

    Implicações geopolíticas e críticas ao desmonte da saúde global

    O surto atual expôs fragilidades na arquitetura global de resposta a emergências sanitárias.

    O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, visitou a província de Ituri em 30 de maio e criticou a imposição de barreiras comerciais e de viagens como medidas ineficazes.

    Em coletiva, ele afirmou que “fechar as portas para países em surto só atrasa a ajuda e dificulta o controle” — uma posição que ecoa as críticas ao nacionalismo sanitário observado durante a pandemia de covid-19.

    Nos Estados Unidos, o ex-diretor do CDC, Tom Frieden, afirmou à Bloomberg News que a decisão do governo Trump de suspender o financiamento à OMS e reduzir em 3 mil postos o quadro do CDC comprometeu a capacidade de detecção precoce de surtos. “Nossas defesas estão enfraquecidas — a OMS precisa ser fortalecida, e o CDC, reestruturado”, declarou Frieden.

    No Brasil, a Agência Brasil informou que três voluntários brasileiros da Cruz Vermelha que atuavam na região do surto foram infectados e morreram — são as primeiras vítimas brasileiras registradas na atual epidemia, embora tenham contraído o vírus fora do território nacional.

    ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

    FAQ Rápido

    1. Há risco de um surto de ebola no Brasil?
    Não. O risco de introdução do vírus é considerado muito baixo por todas as autoridades sanitárias. A inexistência de transmissão autóctone, a ausência do reservatório natural e as características de transmissão do vírus (contato direto com fluidos) tornam altamente improvável um surto dentro do país.

    2. Os dois casos suspeitos no Rio e em SP foram confirmados como ebola?
    Ainda não. Ambos os pacientes tiveram diagnósticos preliminares para outras doenças (meningite em SP; malária no RJ). Os exames específicos para ebola devem ficar prontos na segunda-feira (1º/jun). Até lá, eles permanecem isolados e sob monitoramento.

    3. Existe vacina ou tratamento contra a cepa Bundibugyo?
    Não. Atualmente, não há vacina licenciada nem terapia antiviral específica aprovada para a cepa Bundibugyo. Os tratamentos são de suporte (hidratação, controle de sintomas, suporte ventilatório). A OMS e parceiros estão avaliando a possibilidade de uso emergencial da vacina Ervebo (originalmente desenvolvida para a cepa Zaire).

    ::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

    Atualização:

    As secretarias estaduais de saúde de São Paulo e Rio de Janeiro informaram, no início da noite deste domingo, que os exames para ebola dos dois pacientes seguem em andamento nos laboratórios de referência (Instituto Adolfo Lutz e INI/Fiocruz).

    Os primeiros resultados parciais indicam compatibilidade com os diagnósticos já divulgados (meningite e malária), mas a confirmação final depende da conclusão dos testes de RT-PCR específicos para o vírus ebola.

    Novas informações devem ser divulgadas pelas autoridades na manhã de segunda-feira (1º/jun).

    Os pacientes permanecem em isolamento, e nenhum contato próximo apresentou sintomas até o momento.



    SIGA NAS REDES SOCIAIS




    Compartilhe via botões abaixo:

    Comente com moderação

    🗣️💬

    Discover more from Urbs Magna

    Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

    Continue reading