Decreto de destituições de Lula ocorre após a emissora TV Brasil chamar “vândalo” de “manifestante”, mostra matéria na Folha
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) destituiu nesta sexta-feira (13/1) a diretoria da EBC (Empresa Brasil de Comunicação). A decisão foi publicada em edição extra do DOU (Diário Oficial da União).
A nova presidenta da empresa será a jornalista Kariane Costa, que é representante dos empregados no Consad (Conselho de Administração da empresa) e que deve conduzir o processo de transição para a nova gestão que vai ser implementada nos próximos meses, informa Agência Brasil.
No decreto foram destituídos de seus cargos na empresa de comunicação pública o presidente Glen Lopes Valente, o diretor-geral Roni Baksys Pinto e os diretores Sirlei Batista (Jornalismo), Márcio Kazuaki Fusissava (Administração Finanças e Pessoas) e Pedro Marcos Boszczovski (Operações Engenharia e Tecnologia), mas manteve Denilson Morales da Silva (Conteúdo e Programação), empregado de carreira da EBC.
O ministro da Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência), Paulo Pimenta, fez o anúncio nas redes sociais, na sexta-feira (13/1). No Twitter, ele escreveu: “Acaba de sair em edição extra do Diário Oficial da União o início da mudança na gestão da Empresa Brasil de Comunicação. Inicia-se hoje uma transição, que resultará no fortalecimento da comunicação pública, na valorização dos empregados e no aprimoramento da governança“.
Para processo de transição da EBC foram indicadas mais quatro mulheres: Rita Freire, que assumirá a presidência do Conselho Curador, que foi cassado após a posse do presidente Michel Temer, a empregada concursada da empresa, Juliana Cézar Nunes, e as jornalistas Nicole Briones e Flávia Filipini.
Pimenta afirmou que “a composição do processo de transição, reunindo empregados concursados da empresa, mas também representantes da sociedade e profissionais da área, mostra nosso compromisso com a comunicação pública e com a integridade e o fortalecimento da EBC“.
Folha
O jornal Folha de S. Paulo afirmou, em matéria publicada neste domingo (15/1), que, segundo auxiliares de Lula, “a troca no comando foi acelerada após a linha editorial adotada nos atos golpistas do último domingo, ‘8 de Janeiro’, pois “os diretores eram ainda da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)“, e que por este motivo “a estatal estava com uma postura distante da adotada pelos demais veículos de imprensa, com o objetivo de minimizar os atos“. A matéria diz que “um integrante do governo citou, como exemplo, que as pessoas que depredaram a sede dos Três Poderes eram chamadas de ‘manifestantes’, em vez de ‘vândalos’ ou ‘golpistas‘”.
Ainda segundo o texto no jornal, “outro afirmou que o temor era de que a cúpula indicada por Bolsonaro tivesse sido ainda mais radical na cobertura do ato golpista. Havia receio de que a empresa fosse utilizada para eventualmente propagar ideias antidemocráticas ou que houvesse uma espécie de sabotagem técnica, interrompendo transmissões da Presidência, por exemplo“.
“No dia seguinte ao ato golpista, o jornal da TV Brasil transmitiu a sessão do Congresso e colocou uma passagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o que foi interpretado por petistas como provocação“, mostrou a matéria.
A EBC foi criada em 2007, na segunda gestão de Lula, com o objetivo de fortalecer o sistema público de comunicação divulgando informação de qualidade sobre os principais acontecimentos no Brasil e no mundo, com atuação espelhando a diversidade cultural, étnica e social do povo brasileiro, com a transmissão, produção, programação e distribuição de conteúdos.
Censura no Governo Bolsonaro
Desde 2019, primeiro ano da gestão Bolsonaro, funcionários da EBC denunciavam que os gestores da empresa não respeitavam os objetivos e os princípios constitucionais da lei que a criou, que diz que a empresa deve ter “autonomia em relação ao Governo Federal para definir produção, programação e distribuição de conteúdo no sistema público de radiodifusão”.
Trabalhadores chegaram a publicar, em 2020, uma CARTA repudiando suposta “interferência” do ex-presidente no conteúdo publicado nas plataformas da empresa, a fim de “camuflar e blindar” o antigo governo de “quaisquer polêmicas”, evitando citar temas como “as incompetências administrativas de ministérios chefiados por militares, o desmatamento da Amazônia, o negacionismo científico sobre a Covid-19, além de ausência de cobertura humanizada, com histórias de perdas familiares relacionadas à pandemia”.
Os funcionários denunciaram que tais interferências afetavam significativamente o papel jornalístico da empresa: “Em alguns poucos casos, a insistência do profissional com a pauta rende uma matéria sobre esses temas, desde que não contenha críticas ao governo”. Os mecanismos de censura incluíam atraso de horas na publicação de reportagens, conteúdos colocados no ar sem os metadados necessários para que eles apareçam em mecanismos de busca como o Google, perseguição a jornalistas, com direito a mudança compulsória de setor, entre outros.
A carta revelou que “repórteres” recebiam “pautas vexatórias ou absurdas, com destaques, enfoques e temas favoráveis ao” antigo “governo ou que apenas promoviam a imagem do” ex-presidente “e de” seus ex-ministros “de Estado. Vozes dissonantes – incluindo presidentes e autoridades dos Poderes Judiciário e Legislativo“, eram “silenciadas”. Os “jornalistas” eram “constrangidos diariamente a ignorar assuntos relevantes do dia ou fazer uma abordagem superficial”, para não desagradar Bolsonaro, dizia a CARTA.
