“Visita à Basílica do Santo será como a de qualquer outro peregrino”, afirma portal de notícias italiano, “já que não haverá autoridade para recebê-lo, depois das acusações contra ele sobre a gestão da pandemia e o desmatamento da Amazônia”
Depois que o Município de Anguillara Veneta, no norte da Itália, aprovou, na segunda-feira (25), a concessão de cidadania honorária para o presidente Jair Bolsonaro, causando protestos de missionários italianos aqui no Brasil, foi iniciada uma polêmica sobre a visita do chefe do Executivo a Roma, onde chegou, na manhã desta sexta-feira (29), para participar do encontro do G20, países das vinte maiores economias do mundo.
Apesar da honraria por lá, uma matéria endossada por Giuseppe Pietrobelli, nesta quinta-feira (28), no portal italiano Il Fato Quotidiano, afirma que Bolsonaro será recebido como um peregrino comum, haja vista que não foi programado nenhum evento e nenhuma autoridade irá recebê-lo em sua visita à Basílica do Santo [António de Pádua]. Tudo por conta da repercussão das acusações contra ele na CPI da Covid e pelo já conhecido desmatamento da Amazônia.
Em A.Veneta, a homenagem foi proposta pela prefeita direitista Alessandra Buoso. Apenas porque um bisavô de Bolsonaro nasceu na cidade. Mas em Pádua, a situação do presidente brasileiro é bem diferente.
A cidade se localiza na região de Veneto, também no norte de Itália, e é conhecida por abrigar a enorme Basílica de Santo António, do século XIII, com cúpulas de estilo bizantino e notáveis obras de arte, além de conter o túmulo do santo com o mesmo nome. Há também o centro histórico, com ruas com arcadas e cafés elegantes frequentados por estudantes da Universidade de Pádua, inaugurada em 1222.
A matéria no Il Fato Quotidiano diz que “o presidente do país sul-americano, depois de participar do G20 em Roma, irá ao país de Pádua no dia 1º de novembro e depois à Basílica do Santo. Mas não encontrará autoridades para recebê-lo, nem o prefeito de Pádua Sergio Giordani e nem mesmo o bispo Claudio Cipolla“.
O jornalista Pietrobelli afirma que “uma declaração muito severa foi emitida por Cipolla“. Leia a seguir, conforme transcrição do jornal italiano:
“A ligação das terras venezianas, e especificamente Paduanas, com o Brasil é muito forte pela grande história migratória, pelas relações mantidas com os indígenas, pela presença missionária diocesana e pelas várias famílias religiosas que vivem seu serviço naquele país”, diz o trecho inicial da nota.
“Os testemunhos prestados com o sangue do Padre comboniano Ezechiele Ramin (assassinado no Brasil em 1985,) e do fidei donum (‘dom da fé’, missionário enviado pela diocese a que pertence), Ruggero Ruvoletto (assassinado em 2009 em manaus), acrescenta-se ao que os bispos do Brasil nos últimos meses têm denunciado veementemente: a violência, os abusos, a exploração da religião, a devastação ambiental e o agravamento de uma grave crise de saúde, econômica, ética, social e política, intensificada pela pandemia.
O pedido da comissão de inquérito para julgar Bolsonaro por crimes contra a humanidade não é mencionado explicitamente, mas faz-se referência à “gestão da emergência de Covid, num país que registou mais de 600 mil mortes pela pandemia.
Diante de tudo isso, a Igreja de Pádua, ao se tornar porta-voz de um sentimento difundido e em virtude do vínculo que une o Brasil à nossa terra, aproveita a passagem possível a Anguillara Veneta do Presidente Bolsonaro para lhe pedir sinceramente que promova políticas que respeitem a justiça, a saúde, o meio ambiente e, acima de tudo, de apoio aos pobres.
Não está oculto que a concessão da cidadania honorária tem criado muito constrangimento para nós , presos entre o respeito à posição primordial do querido país brasileiro e as muitas e fortes vozes de sofrimento que cada vez mais nos atingem e não podemos descuidar, gritado por amigos, irmãos e irmãs“.
Na Basílica do Santo também os frades expressam uma posição crítica, diz o jornal. Não o fizeram de forma oficial, mas são eloquentes as ausências anunciadas tanto do reitor, padre Antonio Ramina, como do delegado pontifício, monsenhor Fábio Dal Cin.
Um dos frades disse ao Corriere del Veneto: “Estamos falando de uma pessoa que acaba de ser acusada por seu próprio país de crimes contra a humanidade. Uma pessoa que, aliás, em várias ocasiões nos últimos anos, se confrontou duramente com o Papa Francisco sobre o tema do dramático desmatamento da Amazônia e, em geral, sobre o caráter ditatorial de seu governo. O que deveríamos fazer? Desenrolar os tapetes vermelhos para a chegada à Basílica de Bolsonaro? Para caridade“.
Assim, Bolsonaro irá à Basílica como qualquer outro peregrino, afirma o jornal italiano. Um entre tantos que chegam todos os dias de todas as partes do mundo. Em A. Veneta, porém, terá a cidadania honorária da prefeita Alessandra Buoso, completa o jornalista acrescentando que será um dia de protestos porque alguns grupos de esquerda estão organizando um “Fora Bolsonaro“.
Um centro social de Pádua emitiu um comunicado dizendo: “Não aceitaremos sua presença. Estaremos em Prato della Valle [a maior praça da Itália, uma das maiores da Europa, com 90 mil m²] para bloquear sua passagem a partir das 14h”.
Roberto Ciambetti, presidente e membro do Conselho Regional do Veneto, afirmou que considera os protestos contra Bolsonaro instrumentais, haja vista que “sua honra certamente não foi concedida pelas escolhas políticas” e suas “ideias discutíveis e inaceitáveis” sobre a pandemia.
