
Um gato de pelagem na cor laranja – iStockphoto | Ao lado, Garfield, o gato laranja, personagem de Jim Davis criado em 1978 – Imagem reprodução
Estudo de Stanford publicado na Current Biology identifica alteração genética exclusiva em felinos, mais comum em machos – SAIBA MAIS
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Brasília, 16 de maio de 2025
Um estudo revolucionário publicado na na revista Current Biology acaba de desvendar um mistério que intriga amantes de gatos há décadas: o que torna a pelagem de alguns felinos vibrantes laranja?
Pesquisadores identificaram o gene ARHGAP36, localizado no cromossomo X, como o responsável pela icônica coloração laranja, incluindo os padrões manchados dos gatos tartaruga e calico.
A descoberta, que combina genética de ponta e análise epigenética, não só resolve uma questão antiga, mas também reforça o papel dos gatos como modelos para estudos científicos.
O Interruptor Genético da Cor Laranja
A chave para a cor laranja está em uma pequena alteração no gene ARHGAP36: uma deleção de 5,1 kilobases (kb) em uma região regulatória.
Essa mudança, encontrada em todos os gatos laranja analisados, altera a expressão do gene, fazendo com que as células da pele priorizem a produção de feomelanina, o pigmento laranja, em vez de eumelanina, responsável por tons pretos e marrons.
“É como se a deleção ligasse um interruptor que diz às células: ‘faça laranja!’”, explica Hiroyuki Sasaki, autor principal do estudo da Universidade de Kyushu.
Os pesquisadores sequenciaram o DNA de 67 gatos, incluindo calicos, tartarugas e gatos laranja sólidos, e confirmaram que a deleção está presente em 100% dos casos de pelagem laranja.
Surpreendentemente, a mesma alteração foi encontrada em gatos de diferentes regiões, como Japão, Estados Unidos, Europa e Oriente Médio, sugerindo que o fenótipo laranja teve uma origem única há milhares de anos, espalhando-se globalmente com a domesticação dos gatos.
Manchas de Mosaico: A Magia do Cromossomo X
Os padrões manchados dos gatos tartaruga (laranja e preto) e calico (laranja, preto e branco) são um espetáculo visual que sempre fascinou.
O estudo confirma que esses desenhos são resultado da inativação aleatória do cromossomo X (XCI), um mecanismo epigenético descoberto há mais de 60 anos pela geneticista Mary Lyon.
Como fêmeas têm dois cromossomos X, um é silenciado aleatoriamente em cada célula.
Em gatas heterozigotas (com um alelo laranja e um não laranja), isso cria um mosaico: algumas células expressam o gene laranja, outras o gene para preto.
Os pesquisadores também analisaram a metilação do DNA no ARHGAP36, confirmando que ele é sujeito à XCI aleatória em gatos, assim como em humanos e camundongos.
Um caso raro de gato calico macho, que normalmente não apresenta esse padrão, foi explicado por uma anomalia genética (XXY), reforçando a ligação entre o gene e o cromossomo X.
Uma Descoberta com Raízes Antigas
A coloração laranja dos gatos domésticos, que provavelmente descendem do gato selvagem Felis silvestris lybica há cerca de 10 mil anos, é um traço marcante.
O estudo sugere que a deleção no ARHGAP36 surgiu em um único evento genético, espalhando-se pelo mundo à medida que os gatos conquistavam corações humanos.
“Essa é uma história de evolução e domesticação escrita no DNA dos gatos”, diz Sasaki.
Além disso, o estudo revelou que o ARHGAP36 desempenha um papel único na melanogênese (produção de pigmentos) em gatos, diferente de outros mamíferos.
Tentativas de replicar o fenótipo laranja em camundongos falharam, indicando que o mecanismo é exclusivo dos felinos.
Curiosamente, a coloração laranja em hamsters dourados é controlada por um gene diferente, destacando a diversidade genética entre espécies.
Impactos Além da Curiosidade
Mais do que satisfazer a curiosidade sobre gatos laranja, a descoberta tem implicações científicas profundas.
Gatos são modelos valiosos para estudar herança ligada ao X e mecanismos epigenéticos como a XCI, que também são relevantes para doenças humanas.
O ARHGAP36, que regula vias celulares envolvidas no desenvolvimento de pelos e até em doenças de pele em humanos, emerge como um novo alvo para pesquisas sobre pigmentação e biologia celular.
O estudo também destaca a importância de plataformas colaborativas, como o 99 Lives Cat Genome Sequencing Initiative, que forneceu dados genômicos cruciais.
Financiado parcialmente por crowdfunding, o projeto reflete o entusiasmo público pelos felinos e pela ciência.
O Futuro dos Gatos Laranja
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Embora o estudo tenha identificado o ARHGAP36 como o gene por trás da cor laranja, algumas perguntas permanecem. Como exatamente a deleção altera a expressão do gene? E por que esse mecanismo é único para gatos?
Os pesquisadores planejam usar células-tronco felinas para simular a melanogênese em laboratório, o que pode esclarecer esses detalhes.
Por enquanto, a próxima vez que você acariciar um gato laranja ou admirar as manchas de um calico, saiba que está diante de um fenômeno genético com raízes de bilhões de anos.
Como diz Sasaki, “os gatos continuam nos ensinando sobre a beleza e a complexidade da natureza”.












