Tensão diplomática marca discurso do premiê israelense em Nova York, com saídas coordenadas de representantes internacionais em solidariedade à causa palestina
Brasília, 26 de setembro de 2025
Dezenas de delegações diplomáticas, incluindo a do Brasil, abandonaram o plenário da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York na manhã desta sexta-feira (26/set), logo antes do início do discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
O ato coordenado, transmitido ao vivo pelas câmeras da entidade, esvaziou parte do auditório e foi recebido com uma mistura de vaias e aplausos isolados, destacando o crescente isolamento de Israel no cenário global em meio à guerra em Gaza e aos recentes confrontos com o Irã e o Hezbollah no Líbano.
A saída das delegações ocorreu de forma discreta, mas simbólica, assim que o nome de Netanyahu foi anunciado pelo presidente da sessão.
Representantes de nações árabes, muçulmanas, africanas e até europeias se levantaram em uníssono, muitos vestindo o tradicional keffiyeh palestino como sinal de solidariedade.
A delegação brasileira, orientada pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), foi uma das primeiras a deixar o local, reforçando a posição do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de tratar Netanyahu como “persona non grata” devido às acusações de crimes de guerra e ao descumprimento de resoluções da ONU e do Tribunal Penal Internacional (TPI).
Em seu discurso de abertura na assembleia, na terça-feira (23/set), Lula havia condenado explicitamente o que chamou de “genocídio” promovido por Israel em Gaza e no Líbano, e se reuniu com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que elogiou a “coragem” do brasileiro em defender a causa palestina.
Fontes diplomáticas confirmam que o boicote foi planejado com antecedência pela missão palestina na ONU, que enviou mensagens a aliados pedindo uma saída coletiva para enviar um “claro recado” contra o que descreveram como “genocídio e crimes de guerra” cometidos pelo governo israelense.
O gesto se repetiu de forma ainda mais intensa em comparação ao ano anterior, quando uma debandada similar ocorreu em 27 de setembro de 2024. Na ocasião, a delegação do Brasil também se retirou precocemente, mas o número de países participantes foi menor.
Desta vez, estimativas indicam que mais de 50 nações aderiram ao protesto, incluindo Irã, Qatar e vários membros da União Africana.
Durante sua fala, Netanyahu ignorou o esvaziamento do salão e adotou um tom desafiador, defendendo as ações militares de Israel como necessárias para “finalizar o serviço” contra o Hamas em Gaza.
Ele exibiu um mapa rotulado como “A Maldição”, apontando o Irã e seus aliados como ameaça existencial, e agradeceu o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamando-o de líder que “entende melhor do que qualquer outro” a ameaça comum aos dois países.
O premiê também se dirigiu diretamente aos reféns israelenses ainda mantidos pelo Hamas, prometendo “não descansar” até sua libertação, e anunciou que seu discurso estava sendo transmitido via alto-falantes em Gaza e por streaming em celulares na região – embora relatos de moradores locais indiquem que o sinal foi bloqueado ou inaudível.
“Meu país está lutando pela vida dele, mas vim aqui para esclarecer as mentiras e calúnias”, declarou Netanyahu, acusando líderes ocidentais de cederem à “pressão de ativistas e mídia enviesada” ao reconhecerem o Estado Palestino.
Ele criticou duramente decisões recentes de países como Noruega, Espanha e Irlanda, afirmando que tais medidas equivalem a “dar um Estado à Al-Qaeda a uma milha de Nova York após o 11 de setembro”.
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Apesar do apoio de aliados como os EUA, que permaneceram no plenário, o discurso foi pontuado por gritos ininteligíveis e aplausos esporádicos de convidados israelenses na galeria, incluindo o prefeito de Nova York, Eric Adams.
O boicote não apenas destacou a divisão global sobre o conflito, mas também pressionou por uma resolução urgente da ONU para um cessar-fogo em Gaza, onde mais de 40 mil palestinos já perderam a vida desde outubro de 2023, segundo dados da ONU.
A delegação palestina celebrou o ato como um “marco de vergonha” para Israel, enquanto o embaixador israelense na ONU, Gilad Erdan, minimizou o protesto como “truques baratos” orquestrados pela Autoridade Palestina.
O episódio reforça o papel do Brasil como voz progressista na diplomacia sul-americana, alinhado a nações como Colômbia e Chile, que também boicotaram a fala.
Analistas internacionais preveem que o isolamento de Netanyahu pode complicar negociações futuras, especialmente com a volta de Trump à Casa Branca, que, apesar do apoio retórico, enfrenta pressões domésticas para uma solução de dois Estados.
A assembleia prossegue até o final da semana, com foco em reformas na ONU e na crise humanitária no Oriente Médio.







