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“Declaro: a Covid-19 está vencida”, diz médico em boato perigoso sobre flutamida

    Medicamento não tem recomendação de agências de saúde contra a doença e pode causar danos ao fígado; estudo mencionado em vídeo viral testou proxalutamida e ainda não foi publicado em revista científica

    É falso o discurso de um médico de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, que aponta a flutamida, um medicamento bloqueador de hormônios masculinos, como a solução da pandemia da covid-19. Em vídeo que acumulou mais de 40 mil compartilhamentos no Facebook, o profissional de saúde Luiz Maciel Cardoso disse ter recomendado o medicamento para seus pacientes e chegou a afirmar que a pandemia seria “vencida” com o remédio. 

    A eficácia e a segurança da administração do remédio contra infecções pelo novo coronavírus, entretanto, não foram confirmadas pela ciência e o protocolo não tem o respaldo de autoridades de saúde. O Facebook removeu o conteúdo original publicado por Cardoso em seu perfil na plataforma, mas algumas reproduções ainda circulam na rede social e no WhatsApp.

    O Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) afirmou em nota que a recomendação do médico é falsa, conforme transcrito a seguir:

    O Cremers recebeu denúncias, pelas redes sociais e por meio do formulário para checagem de informações e fake news, sobre vídeo publicado por um médico, do município de São Gabriel, onde informa que a flutamida seria o medicamento para a cura da Covid-19, doença que já causou a morte de cerca de 290 mil brasileiros. A informação é falsa.

    Em vídeo que circula no Facebook, um médico escreve na legenda que “a Covid-19, como conhecemos, acabou! Flutamida a partir do 7⁰-8⁰ dia, com acompanhamento médico, nos casos que não evoluem para a remissão após a primeira fase!”.

    O Cremers informa que não há evidências científicas que comprovem que o uso do medicamento seja eficiente no tratamento contra a Covid-19. Mesmo nos casos de pesquisa científica e clínica, há um rigoroso procedimento a ser seguido e que depende de autorização de diversas entidades, dentre as quais o Conselho Federal de Medicina (Resolução CFM n.º 1982/2012). Bem como outros fármacos sem comprovada eficácia, o uso do medicamento para outras indicações que não o previsto em bula pode trazer riscos à saúde da população.

    A flutamida é um fármaco cuja composição é utilizada para o tratamento do câncer avançado de próstata. Em 2004, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu alerta sobre o uso do medicamento de forma inadequada com destinação ao público do sexo feminino, para uso contra alopecia, hirsutismo e acne, causando o óbito de pacientes.

    Medicações para uso off label

    O Cremers divulgou, em julho de 2020, nota técnica que orienta sobre a viabilidade, durante a pandemia, de os médicos receitarem medicamentos para uso off label. Os princípios do Código de Ética Médica, de respeito à autonomia, de beneficência e de não-maleficência devem nortear as decisões clínicas. No entanto, o medicamento em questão já apresentou sintomas adversos que causaram o óbito de pacientes quando não usado para sua indicação medicamentosa.

    “A prescrição de medicamentos é de inteira escolha e responsabilidade do profissional médico, desde que respeitados os preceitos da autonomia, da beneficência e da não-maleficência”, reitera o presidente do Cremers, Carlos Isaia Filho.

    Tratamento experimental

    O profissional aponta um estudo da sua própria autoria, sem publicação e revisão científica, como resultado do experimento. Segundo o vídeo, 300 pacientes receberam a medicação e outros 300 um placebo, sendo que 150 dos que receberam o placebo morreram e apenas 12 entre os pacientes tratados com flutamida vieram a óbito.

    “A disseminação desse tipo de conteúdo têm preocupado a classe médica. Esse foi um tratamento experimental, não científico, que precisa ser averiguado pelos especialistas antes de informado á população sobre seu real benefício”, esclarece o vice-presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade.

    O Cremers protocolou as denúncias recebidas e dará as devidas providências sobre o caso junto ao Ministério Público Estadual.

    O Hospital Santa Casa de São Gabriel, onde Cardoso trabalha, também emitiu uma nota em que diz não reconhecer o tratamento mencionado pelo médico nas redes sociais. 

    Nota de Esclarecimento

    O Corpo Clínico da Irmandade da Santa Casa de Caridade de São Gabriel comunica a toda a Comunidade Gabrielense, que os profissionais médicos que prestam serviços a esta Instituição, estão seguindo todos os protocolos médicos oficiais emitidos pelo Ministério da Saúde para tratamento de pacientes internados com Covid-19.

    Esclarecemos que não reconhecemos o tratamento lançado em redes sociais pelo médico Dr. Luiz Cristiano Maciel, pois não há comprovação cientifica de que esta medicação cure a doença e também não há informações de que o médico tenha curado algum de seus pacientes, nas dependências da Santa Casa.

    Pedimos a Comunidade que continue seguindo as orientações emitidas pelos Órgãos Públicos, pois ainda estamos em um momento crítico, devido à elevação de casos. Devemos aguardar a vacinação da população, que no momento, é a única medida que pode diminuir as chances de contágio.

    São Gabriel, 19 de Março de 2021.

    Dr. Ricardo Coirollo
    Diretor Técnico  

    Dra. Kátia Raposo Diretora Clinica

    Conforme informou o jornal Zero Hora, o Cremers abriu uma sindicância e acionou o Ministério Público para apurar a conduta de Cardoso. O discurso do médico, vale ressaltar, foi impulsionado também por um vídeo gravado pelo vereador da cidade de Passo Fundo (RS) Rodinei Candeia (PSL). Posteriormente, o próprio parlamentar publicou uma retratação.

    A proxalutamida

    Cardoso cita no vídeo e em postagens anteriores que sua escolha pela flutamida se baseou em um estudo brasileiro conduzido no Amazonas. A pesquisa mencionada por ele é um ensaio clínico que testou a proxalutamida, medicamento do mesmo grupo da flutamida, em pacientes com covid-19 internados em enfermaria. 

    Embora a pesquisa com proxalutamida tenha indicado um impacto significativo da substância sobre a mortalidade e o agravamento da doença, os resultados do estudo foram apresentados somente em uma coletiva de imprensa. O trabalho ainda não foi publicado ou passou pela revisão de outros cientistas independentes.

    Em reportagem do Estadão Verifica, especialistas enfatizaram que é preciso ter cautela. Por enquanto, não há comprovação científica da eficácia da proxalutamida contra a covid-19, uma vez que os detalhes da pesquisa ainda não estão disponíveis e a qualidade do estudo é incerta. 

    Estadão Verifica tentou entrar em contato com Luiz Maciel Cardoso, mas não obteve resposta.

    Este boato também foi desmentido pelos sites Aos Fatos e Boatos.org.

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