📷 Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante evento em Minas Gerais / Imagem reprodução Canal.Gov | Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou o termo “irmão” ao se referir ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, durante mensagem de WhatsApp em que pediu milhões de dólares para filme Dark Horse | Ao fundo, o banqueiro em foto divulgação / Banco Master
| Brasília (DF)
20 de junho de 2026
A menos de quatro meses das eleições presidenciais de 2026, o cenário político brasileiro apresenta estabilidade, mas também expõe a força da polarização.
Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (20/jun) mostra o presidente Lula (PT) com vantagem de 10 pontos sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, repetindo o placar da rodada anterior.
Os números revelam que, apesar dos escândalos recentes, ambos os candidatos seguem consolidados como os nomes fortes da disputa.
De acordo com o levantamento do Datafolha, o estadista aparece com 41% das intenções de voto no cenário mais provável do primeiro turno, ante 31% do senador.
Atrás do derrotado para o Presidente, Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) aparecem empatados com 3% cada, seguidos por Romeu Zema (Novo), Aécio Neves (PSDB), Samara Martins (UP) e Augusto Cury (Avante), todos com 2%.
O cenário de segundo turno também mostra estabilidade. Lula tem 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro, repetindo o placar da pesquisa anterior, com 8% de brancos e nulos e 1% de indecisos.
Em outros cenários testados, o presidente venceria Caiado por 47% a 41% e Zema por 48% a 39%.
A pesquisa ouviu 2.004 pessoas em 139 cidades entre os dias 17 e 18 de junho, com margem de erro de dois pontos percentuais.
A aparente estabilidade esconde uma dinâmica complexa. O senador Flávio Bolsonaro conseguiu estancar o prejuízo eleitoral causado pelo escândalo do filme “Dark Horse”, no qual foi revelado que ele pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar a cinebiografia do pai condenado.
Na pesquisa anterior, após a revelação, Lula tinha 40% e Flávio, 31%, uma vantagem de 9 pontos que agora se manteve.
Contudo, o novo levantamento capta apenas parcialmente o impacto da operação da Polícia Federal que, na quinta-feira (18/jun), mirou o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado e aliado de primeira hora de Lula.
A pesquisa, realizada na quarta e na quinta-feira, não mediu integralmente os efeitos desse desdobramento, que agora passa a ser um problema compartilhado entre as duas campanhas.
Rejeição e a polarização como motor das eleições
A pesquisa também mediu a rejeição aos pré-candidatos. Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente, como o mais rejeitado, com 48% dos entrevistados afirmando que não votariam nele “de jeito nenhum”, contra 46% de Lula.
Esse dado reforça a tese de que a eleição será decidida pela mobilização das bases e pela capacidade de cada candidato de atrair o eleitorado independente, que já se mostrou decisivo no passado.
Lula cresceu entre os eleitores independentes após o caso Master, enquanto Flávio Bolsonaro perdeu espaço nesse segmento crucial.
A estabilidade atual pode ser uma trégua temporária. O governo Lula aposta no pacote de R$ 140 bilhões e na aprovação do fim da escala 6×1 para ampliar sua vantagem.
Já a campanha de Flávio tenta capitalizar o apoio de Donald Trump e suas promessas linha-dura em segurança pública.
Segundo o Datafolha, o apoio de Trump a um candidato no Brasil não faria diferença para 65% dos eleitores, o que sugere que a interferência externa pode ter efeito limitado.
Rejeição elevada de ambos os candidatos mantém a eleição em aberto, dependendo de como cada um conseguirá mobilizar seu eleitorado e convencer os indecisos.
Família Bolsonaro não comprovou prestação de contas detalhada dos recursos de Vorcaro para o filme “Dark Horse”
Embora os filhos do ex-presidente tenham confirmado a captação de recursos junto ao banqueiro Daniel Vorcaro, o destino final do dinheiro ainda não foi devidamente esclarecido.
A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público mantêm investigações ativas sobre as movimentações financeiras que envolvem a produção do longa-metragem sobre a vida de Jair Bolsonaro.
As transações geram controvérsia devido a divergências de valores, sigilos contratuais e suspeitas de desvio, tornando o caso um dos mais polêmicos envolvendo a família Bolsonaro em 2026.
Os valores negociados e pagos
Documentos e comprovantes bancários internacionais obtidos pelo The Intercept Brasil apontam que Daniel Vorcaro enviou R$ 61 milhões (cerca de US$ 10,6 milhões) por meio de um fundo nos Estados Unidos para bancar a produção do filme.
O senador Flávio Bolsonaro, no entanto, admitiu ter procurado o banqueiro e negociado um montante total de R$ 134 milhões (US$ 24 milhões) para financiar o longa-metragem sobre a vida do ex-presidente.
Essa diferença significativa entre o valor declarado publicamente e os repasses efetivamente comprovados levanta questionamentos sobre a transparência da operação e a real destinação dos recursos captados.
Falta de comprovação clara e perícia superficial
A produtora do filme, Go Up Entertainment, e políticos envolvidos na obra (como o roteirista Mário Frias) alegaram inicialmente que não tinham acesso direto às contas de Vorcaro e recusaram-se a detalhar os investidores sob a justificativa de cláusulas de confidencialidade.
Essa postura dificultou a fiscalização e gerou ainda mais desconfiança sobre a lisura do processo.
Posteriormente, a produtora apresentou um laudo pericial privado à Justiça afirmando que o filme custou R$ 75,1 milhões.
No entanto, esse documento detalha os gastos de forma superficial, sem especificar contas bancárias de destino ou os reais beneficiários dos repasses, o que torna impossível a verificação independente dos valores.
A situação se agravou quando o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que inicialmente negou participação na gerência do projeto, admitiu ter assinado um contrato de produção-executiva e aportado R$ 350 mil próprios (que diz ter recebido de volta).
Essa mudança de versão aumentou a pressão por explicações claras sobre a gestão dos recursos.
O que a Polícia Federal investiga
A PF enviou uma representação ao Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar se parte dos R$ 61 milhões enviados por Vorcaro para os EUA serviu, na verdade, para financiar a estadia e despesas pessoais de Eduardo Bolsonaro no exterior.
Os investigadores tentam rastrear o fundo norte-americano Havengate Development Fund LP para entender a origem e o destino dos valores.
As apurações buscam determinar se o filme serviu de fachada para lavagem de dinheiro ou compra de influência política.
Além disso, os investigadores cruzam os dados com supostos desvios de contratos públicos de Wi-Fi em São Paulo geridos pela dona da produtora, ampliando o escopo da investigação para possíveis conexões com outras irregularidades.
Datafolha
A pesquisa Datafolha foi registrada no TSE sob o número BR-09956/2026
O instituto ressalta que os dados refletem a opinião dos eleitores no momento da coleta e não devem ser lidos como previsão do resultado final.
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