Cuba x Bolsonaro: ilha pede desculpa à família de cada cubano ceifado pela covid-19

03/06/2020 0 Por Redação Urbs Magna
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Et Urbs Magna – Enquanto o Brasil atravessa um vergonhosa crise de Saúde por conta da má administração do chefe do Executivo, que também desdenha da pandemia de coronavírus causando o entristecimento e revolta da população brasileira, outros países se destacam na batalha contra o vírus que transformou o comportamento da humanidade. Cuba, por exemplo, é um dos países com maior reconhecimento e melhor desempenho na pandemia. Seu governo se relaciona com seu povo de modo objetivo, verdadeiro, responsável e quase fraternal, com cada morte por covid-19 relatada no site de seu Ministério da Saúde e explicada em um minucioso relatório, algo inimaginável em nossa terra.

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O governo da ilha trava uma verdadeira batalha pela vida de cada um de seus pacientes infectados desde a sua identificação. Com uma população de mais de 11,3 milhões de habitanes, dos quais 2.107 foram infectados, 83 vieram a óbito, número proporcionalmente baixo, e 1.830 foram recuperados.

A exemplar atuação de seus profissionais de saúde, que curiosamente estão espalhados por todo o planeta (aproximadamente 28 mil) realizando missões internacionais há anos, é afinadíssima em sua relação com o governo, que se solidariza com as famílias de suas vítimas do surto de um modo responsável e quase fraternal quando a fatalidade não pode ser evitada.

Um exemplo citado pelo site Revista Ópera de como Cuba relata a morte de seu cidadão:

Faleceu cidadão cubano de 58 anos, procedente do Centro de Proteção Social do município de Cotorro. Ele tinha um histórico patológico pessoal de alcoolismo, doença pulmonar obstrutiva crônica. Ele foi internado por apresentar diarreia e cárie. O exame físico revelou acentuada deterioração física e nutricional, presença de sibilos nos dois campos pulmonares, estabilidade hemodinâmica. Apresentou repentinamente dispneia súbita, bradicardia, hipotensão e cianose. Ele teve uma parada cardiorrespiratória, foram realizadas manobras de ressuscitação cardiopulmonar que não foram eficazes. Lamentamos profundamente os eventos e transmitimos nossas sinceras condolências aos familiares e amigos.”

A matéria na Revista Ópera traduz e transcreve uma publicação do site catalão VilaWeb. Há alguns dias, o Ministério da Saúde de Cuba relatou os três medicamentos que utiliza nos casos mais graves. Eles são o antirretroviral Kaletra, o Interferon Alfa-2b e a polêmica cloroquina que, certamente, tem sua prescrição associada a um rigoroso acompanhamento médico.

A grande força do sistema cubano não é a tecnologia ou recursos de ponta, são a saúde pública, a medicina básica e a prevenção“, explica à VilaWeb a Dr.ª Tania González Vázquez, médica de atenção básica no bairro El Vedado, em Havana, e professora da Universidade de Ciências Médicas da Escola Latino-Americana:

Nós em Cuba somos fortes na prevenção, o que nos ajudou muito com a Covid-19. Usamos drogas monoclonais ou até homeopatia, algumas gotas sublinguais que estimulam o sistema imunológico e que já usávamos contra a dengue. Fazemos terapia antecipatória para impedir que os pacientes piorem, usamos retrovirais, antibióticos e o Interferon Alfa-2b por via intramuscular. Também o Oseltamivir. Tudo isso ajuda na prevenção. Porque parte do sucesso é que não esperamos os casos se agravarem. Em Cuba, por conta do bloqueio*, contamos com menos recursos ainda. A situação piorou, mas temos treinamento e estamos preparados para trabalhar sem recursos. É a população, por exemplo, que tem feito as grossas máscaras de tecido com três camadas; substituindo as luvas, muitas vezes, escassas”.

Dr.ª Tania González Vázquez

*O bloqueio citado por Vásquez se refere ao embargo comercial, econômico e financeiro imposto pelos EUA a Cuba, após a revolução liderada por Fidel Castro e Che Guevara, impedindo suas exportações à ilha desde que esta estatizou refinarias de petróleo (sempre ele) pertencentes aos EUA em seu território. Em Cuba, o embargo é chamado el bloqueo.

A Dr.ª González trabalha na policlínica de Corinthia, em Havana, que atende 22 mil pessoas com 23 escritórios. Ela pessoalmente cuida de 1.033 pessoas, das quais 342 são idosas, abrangendo 417 famílias:

“Dividimos as policlínicas em duas zonas: uma para pacientes com problemas respiratórios e outra para outras doenças. As duas zonas não se comunicam. Na nossa, tivemos nove casos e duas mortes”.

Dr.ª Tania González Vázquez

“Ficar em Cuba foi uma boa ideia”

Desde 2015, Lena Solà Nogué, nascida em Barcelona, ​​passa longas temporadas residindo em Cuba, pois trabalha no estúdio do artista plástico Wilfredo Prieto. Semanas atrás, ela teve que decidir se deveria passar a pandemia na ilha ou retornar à Catalunha: “No final, decidi ficar aqui e acho que foi uma boa ideia”, disse à VilaWeb.

“Vivo muito mais relaxada que vocês (na Espanha). Observo que há um controle muito mais rigoroso aqui e não o descontrole que tenho visto dos governos europeus. Cuba tem muitas falhas, mas, em tempos de crise ou emergências, é um país que dá bons resultados. Você vê isso com ciclones ou furacões, com poucos mortos, e agora vimos novamente. Sob esse disfarce de ruína, a saúde funciona. De outra maneira, mas funciona. As pessoas aqui têm muito mais conhecimentos médicos básicos do que nós. A população, em geral, é mais informada.”

Lena Solà Nogué

Estes são alguns aspectos-chave do sucesso da gestão da Covid-19 na ilha.

Confinamento

“As pessoas são obrigadas a ficar em casa e, se você precisar sair, terá que usar uma máscara. Por outro lado, há bairros ou edifícios isolados. Você não pode entrar nem sair, e eles são controlados pela polícia. As pessoas obedecem ao confinamento? Temos de tudo, pois não há percepção de risco. Acontece sempre. Todo mundo acredita que ‘não será a minha vez’”

Dr.ª Tania González Vázquez

“Acho que, em Barcelona, o confinamento foi feito muito tardiamente, enquanto aqui, com somente quatro casos, as coisas realmente começaram a fechar. Porém, mesmo antes que as autoridades tenham dito, todo mundo se adiantou. As pessoas pediram que as escolas fossem fechadas antes das autoridades. Caminhões com megafones alertam para que saídas desnecessárias sejam evitadas e controlam para que todos usem máscara ou saiam em grupo. A maioria não pode ir trabalhar.”

Lena Solà Nogué

Crianças

“As crianças devem estar em casa e receber as aulas pela televisão. Das 8h às 9h, são dadas as aulas de um curso; das 9h às 10h, de outro e assim por diante. E assim as aulas continuaram. Apesar de haver cada vez mais pessoas que usam telefones celulares e têm acesso à Internet por dados móveis, o que mais funciona é, principalmente, a televisão. Todo mundo a assiste. E as crianças hoje em dia acompanham seus cursos pela televisão”

Lena Solà Nogué

Pesquisas

“Vamos às casas das pessoas, pois nem todo mundo tem telefone ou celular e, sem entrar, perguntamos se têm sintomas, desconforto, quantas pessoas vivem lá, se há pessoas mais velhas ou se tiveram contato com casos confirmados. Casa por casa. Fazemos isso com toda a população. Como são muitas pessoas, não só os estudantes de enfermagem foram mobilizados, mas também a população que perdeu o emprego. Eu vou, por exemplo, junto a um trabalhador de uma companhia telefônica e um professor universitário. Ambos me ajudam com a pesquisa. Eles trabalham comigo, mas a universidade e a companhia telefônica pagam a eles 60% de seus salários”

Dr.ª Tania González Vázquez

Centros de isolamento

“Junto da atenção primária e os hospitais, existem centros de isolamento. Alguns são pequenos hotéis ou escolas que se voluntariaram. Para lá, vão pessoas que não apresentam sintomas, mas que sabemos que entraram em contato com os pacientes. Ou em contato com pessoas não infectadas, mas que, por sua vez, tiveram contato com casos confirmados. Nós as isolamos 14 dias em casas para duas pessoas e as monitoramos. Caso elas apresentem sintomas, vão para o hospital. E se não, quando saírem do centro de isolamento, eu as acompanharei em casa”.

Lena Solà Nogué

Hospitais

“Começamos a utilizar plasma de pacientes recuperados. É usado em pacientes muito graves e tem dado bons resultados. Já fizemos isso com o Ebola”.

Dr.ª Tania González Vázquez

Aeroportos

“Medimos a temperatura de todos que entraram no país e os colocamos nos centros de isolamento por 14 dias, apresentando sintomas ou não, com monitoramento diário. E, para aqueles com mais de 60 anos, damos estimuladores de células. Depois que esses viajantes recebem alta, também os monitoramos em casa”

Dr.ª Tania González Vázquez

“Os cubanos, quando entram no país, antes de pegar a bagagem, precisam passar por um check-up médico e depois são mandados a um consultório. Isso sempre aconteceu, não é de agora. Toda vez que entravam, antes de pegar suas malas, tinham que explicar onde estiveram”

Lena Solà Nogué.
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