Cristo da Mangueira: Quando absurdo é cotidiano, a verdade está no Carnaval

25/02/2020 Off Por Redação Urbs Magna
Cristo da Mangueira: Quando absurdo é cotidiano, a verdade está no Carnaval


Publicado por ET URBS MAGNA


A Estação Primeira de Mangueira trouxe um dos mais contundentes carros alegóricos da história do Carnaval carioca, na noite deste domingo (23).


por Leonardo Sakamoto


Um Jesus Cristo negro e jovem, com cabelo platinado, crucificado e crivado de balas.

Ao seu lado, um negro, um indígena, uma mulher e um representante da população LGBTQI.

“A Verdade vos Fará Livres” foi o samba-enredo.

A passagem do Novo Testamento, presente em João, capítulo 8, versículo 32, é a mesma citada – a torto e direito – por Jair Bolsonaro em sua campanha eleitoral de 2018.

Contudo, ela rareou dos discursos presidenciais na mesma proporção que os nomes do faz-tudo da família, Fabrício Queiroz, e do miliciano recém-falecido, Adriano da Nóbrega, apareciam ao lado do de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro em denúncias e investigações.

O desfile trouxe críticas não apenas ao presidente, mas também ao naco fundamentalista cristão da sociedade, que não deve ser, em hipótese alguma, confundido com a maioria dos evangélicos.

Maioria que não espera um “messias de arma na mão”.

A Verdade é que Cristo morre, todos os dias, santos ou profanos, através do genocídio de jovens negros nas periferias das cidades.

Mas também no assassinato de indígenas, camponeses e trabalhadores, no campo, e de mulheres e da população LGBTQI, em qualquer lugar.

Para o conforto de muitos dos que se autointitulam “homens de bem”.

Caso nascesse nos dias de hoje, Jesus seria qualquer um dos representados no carro alegórico acima.

E o mundo o mataria em seu nome.

Quando defendi isso neste espaço pela primeira vez, há sete anos, quase apanhei na rua (expressão que deixou de ser figurativa neste Brasil em que a intolerância saiu do armário e foi eleita) por pessoas que estão tão dentro de suas caixinhas que não conseguem perceber a beleza presente nas palavras fundadoras de sua própria fé.

Interpretam-nas usando a raiva e o rancor como decodificador, sendo que o próprio Cristo disse que a chave para entende-las seria amor.

Considerando que Jesus foi transgressor em sua época, se ele voltasse à Terra seria tudo aquilo que é considerado inferior, marginal, blasfêmico ou de segunda classe.

Ou você acha que ele viria coberto de ouro e moraria nos Jardins ou na Barra da Tijuca?

Se houver um Deus, ele ou ela não morrerá de vergonha por causa daqueles que tocam a vida da forma que os faz mais felizes.

Mas por conta dos que lançam preces e cantam musiquinhas para louvar seu nome – para, logo depois, censurar, ofender, cuspir, bater, esfolar, censurar e matar também em sua honra.

Esse Deus ou Deusa pensar que falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto.

Pois está escrito no Evangelho de João, capítulo 3, versículo 17: “Deus enviou o seu filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele”.

E como já disse aqui, se Jesus voltasse defendendo a mesma ideia central presente nas escrituras sagradas do cristianismo (e que, por ser tão simples, são descumpridas) e andando ao lado dos mesmos párias com os quais andou, seria humilhado, xingado, surrado, alfinetado e explodido.

Ele seria chamado de mendigo e de sem-teto vagabundo, olhado como operário subversivo, alcunhado como agressor da família e dos bons costumes, violentado e estuprado, rechaçado na propaganda eleitoral obrigatória em rádio e TV, difamado nas redes sociais, censurado pela Justiça.

Teria seu barraco queimado e toda sua vida transformada em cinzas em uma reintegração de posse.

Seria finalizado como comunista, linchado num poste pela população em nome da fé e das tradições.

Receberia socos e pontapés dos hoje autointitulados sacerdotes – um naco dos supostos representantes dos interesses de Deus na Terra que afirmam lutar pelo direito de expressarem suas crenças, quando querem o privilégio de vomitarem seu ódio diante daquilo que acham que pode ameaçar seu controle sobre o povo.

E, ao final, alguém ainda tiraria uma selfie ao lado de seu corpo morto para postar no Instagram.

Estudei em escola adventista por nove anos e, ao mesmo tempo, participei ativamente da vida na igreja católica perto de casa.

Carrego com carinho esses anos, pois ajudaram a formar minha visão de mundo e meu caráter.

Hoje, não sou mais abençoado pelo dom da fé.

Mas por conta do meu passado, sei razoavelmente bem o que está escrito nos evangelhos.

E o discurso de intolerância que grassa na boca de muita gente não está na bíblia cristã, mas nas interpretações que tentam transformar a base da ideia da dignidade humana em submissão.

Perfis nas redes sociais que consideram um absurdo um messias negro (como se os judeus de dois mil anos atrás fossem brancos, de olhos claros e cabelo liso…) enchem a boca para falar que a solução para a criminalidade é “Bandido bom é bandido morto” e, diante do atendimento a uma pessoa em situação de rua, grita “Tá com dó? Leva para casa”.

É, meu amigo, minha amiga. Se há um inferno, agindo assim, vocês vão me fazer companhia pela eternidade.

Como já disse aqui um rosário de vezes: se interpretássemos por uma forma mais humana o que significa amar o seu semelhante como a si mesmo, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, e todo o restante, entenderíamos que toda essa violência é estúpida.

O que significa amar alguém de verdade? E o que significa submeter alguém à minha vontade?

Achei ótima a escolha do trecho do Evangelho pela Mangueira para o seu samba-enredo.

Mas também poderia ser outro, presente no livro de Lucas, capítulo 23, versículo 34:

“Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem”.

“Eu tô que tô dependurado / Em cordéis e corcovados / Mas será que todo povo entendeu o meu recado? / Porque, de novo, cravejaram o meu corpo / Os profetas da intolerância / Sem saber que a esperança / Brilha mais na escuridão / Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem Messias de arma na mão”

Nem desenhando fica tão claro.

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