📷O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) | Foto: Ricardo Stuckert / PR | O presidente dos EUA, Donald Trump, fotografado durante reunião de Gabinete |30.5.2026| Foto: Kent Nishimura / AFP |•| URBS MAGNA
| Brasília (DF)
07 de agosto de 2026
Diplomatas brasileiros alertam que o governo de Donald Trump pode intensificar a pressão política sobre o Brasil, em meio a uma disputa que envolve a indicação de um novo embaixador americano, a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington e a articulação, nos bastidores, pela volta de sanções contra um ministro do STF.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já sinaliza que vai telefonar diretamente a Trump para tentar conter a escalada.
O estopim: uma indicação sem consulta prévia
O atrito ganhou força em 1º de junho, quando Trump indicou o deputado estadual da Flórida Daniel Perez para chefiar a embaixada dos Estados Unidos em Brasília, dentro de um pacote com dezenas de outras indicações diplomáticas enviado ao Senado americano.
A escolha ocorreu fora do protocolo habitual, sem consulta ao governo brasileiro, e reflete um padrão identificado pelo cientista político Guilherme Casarões, da Florida International University:
Trump vem usando embaixadas como recompensa por lealdade ideológica, e não por experiência diplomática, segundo apurou a Agência Pública.
Até agora, o Brasil não concedeu o agrément — o aval formal exigido pela Convenção de Viena para que um país receba um embaixador estrangeiro.
Nesta sexta-feira (07/ago), o Senado americano chegou a adiar a votação do pacote de indicações após um impasse interno.
A retaliação: visto cancelado e vistos negados
A resposta de Washington à demora veio na forma de pressão direta: o Departamento de Estado revogou o status de múltiplas entradas do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, medida que o próprio governo americano admitiu ser uma tentativa de forçar a aceitação do indicado, conforme relatou o Brasil de Fato.
Do lado brasileiro, o Itamaraty também negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado — os diplomatas Riley M. Barnes e Samuel Samson — que pretendiam visitar o TSE durante o recesso, pedido que havia sido recusado formalmente.
Mesmo assim, os dois mantiveram a viagem planejada, o que reforçou a desconfiança do governo brasileiro sobre as reais intenções da missão.
Segundo reportagem do Washington Post, citada por Lula em entrevista recente, o objetivo da viagem seria lançar dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral brasileiro.
A articulação pela volta da Lei Magnitsky
Em paralelo, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro afirma estar trabalhando nos bastidores, junto ao governo americano, pela retomada de sanções da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
As sanções haviam sido aplicadas em julho de 2025 e revogadas em dezembro do mesmo ano — um gesto lido, à época, como aproximação de Trump em relação a Lula.
Aliados de Flávio Bolsonaro avaliam que o agravamento da crise diplomática atual pode reabrir essa possibilidade, especialmente porque, segundo o grupo, a retirada anterior das sanções não teria contado com o aval do secretário de Estado Marco Rubio, considerado mais linha-dura em relação a governos de esquerda na América Latina, de acordo com o O Globo.
A resposta de Lula: telefonemas a Xi, Putin e, agora, Trump
Diante do agravamento, Lula revelou, em entrevista na quarta-feira (05/ago), que pretende telefonar a Trump depois de já ter conversado com o presidente da China, Xi Jinping, e com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, sobre a guerra na Ucrânia.
Embora o foco declarado da ligação seja a articulação de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, integrantes do Palácio do Planalto admitem que os atritos bilaterais podem entrar na conversa.
Lula classificou publicamente a revogação do visto de Viotti como “irresponsável” e “impensada”, e lembrou que o próprio governo Trump está há mais de um ano sem um embaixador em exercício no Brasil — argumento usado para questionar a proporcionalidade da pressão americana.
O presidente também revelou ter pedido a Trump que liberasse a entrada nos Estados Unidos de 11 autoridades brasileiras hoje impedidas de viajar ao país — pedido que, segundo ele, não foi atendido.
A crise atual reúne, pela primeira vez de forma simultânea, três frentes de pressão distintas — a disputa consular pelo agrément, a ameaça de sanções individuais contra um ministro do STF e a mobilização direta de opositores do governo brasileiro em Washington.
O fato de o próprio Eduardo Bolsonaro tratar a escalada diplomática como uma oportunidade para reativar sanções específicas contra Moraes, e não como um problema a ser resolvido, sugere que parte da oposição brasileira vê vantagem eleitoral na deterioração da relação bilateral — o que ajuda a explicar por que Lula optou por buscar o contato direto com Trump, tentando contornar o entorno mais linha-dura da Casa Branca.
O Senado americano deve retomar a votação do pacote de indicações diplomáticas, incluindo a de Daniel Perez, nos próximos dias.
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