Análise da revista britânica The Economist revela isolamento total da Coreia do Norte sob o polêmico ditador, com execuções por conteúdo estrangeiro e alianças com Rússia e China, em meio a crise humanitária agravada
Brasília, 28 de setembro de 2025
Em um cenário de crescente isolamento global, a Coreia do Norte está aprofundando suas políticas repressivas e ampliando suas capacidades militares, tornando-se uma ameaça ainda mais aguda para a estabilidade regional e internacional.
De acordo com uma análise detalhada publicada pela revista britânica The Economist em 25 de setembro, o regime liderado por Kim Jong Un tem revertido reformas econômicas liberais, intensificado o controle sobre a população e fortalecido laços com potências como Rússia e China, em um momento em que negociações com os Estados Unidos parecem cada vez mais remotas.
O artigo destaca como o país, com 26 milhões de habitantes, vive em “absoluto isolamento” há mais de cinco anos, desde o lockdown imposto durante a pandemia de COVID-19, que nunca foi completamente revogado.
Fronteiras fortificadas, especialmente ao longo da divisa com a China, reduziram drasticamente o número de desertores: de uma média de 1.201 por ano entre 2015 e 2019 para apenas 158 anualmente de 2020 a 2024.
Leis como a “Law on Rejecting Reactionary Thought and Culture” (2020), a “Youth Education Guarantee Law” (2021) e a “Pyongyang Cultural Language Protection Law” (2023) criminalizam o consumo de mídia estrangeira, a adoção de estilos ocidentais e até o uso de gírias sul-coreanas, como “oppa”.
Estas três leis representam um esforço coordenado e drástico do regime de Kim Jong Un para eliminar a influência cultural e linguística estrangeira, especialmente da Coreia do Sul (Hallyu), e reforçar o controle ideológico total sobre a população, principalmente entre os jovens.
Essas regulamentações são consideradas “as três leis do mal” por desertores e estabelecem punições extremamente severas, que podem incluir anos de trabalho forçado ou até mesmo a pena de morte, para crimes que, em outros países, seriam meras infrações culturais.
1. Law on Rejecting Reactionary Thought and Culture (2020) Esta lei (também conhecida como Lei sobre a Eliminação do Pensamento e da Cultura Reacionários) é o pilar central da repressão à mídia externa.
➡️Objetivo: Combater o que o regime considera como “pensamento e cultura reacionários”, uma referência direta à cultura capitalista e estrangeira, com foco especial na Coreia do Sul. O regime vê a disseminação da Onda Coreana (Hallyu) como uma “ameaça” à continuidade da ideologia Juche e à lealdade ao Partido.
➡️O que Criminaliza: A lei impõe punições draconianas para:
>>>>>> Consumo e Distribuição de Mídia Estrangeira: Assistir, ouvir ou armazenar filmes, dramas (K-dramas), músicas (K-Pop), livros ou compilações de áudio/vídeo da Coreia do Sul ou de outros países considerados “hostis” (como os EUA).
>>>>>> Punições: As penalidades são severas, chegando a anos de trabalho forçado ou até mesmo a execução pública para casos considerados “mais graves” de distribuição de conteúdo “antissocialista”. O texto original da lei de 2020 mencionou explicitamente a pena capital, algo inédito em leis culturais anteriores.
>>>>>> Comportamentos Antissocialistas: Punições para estilos de vida não-socialistas, como noivos que carregam as noivas nos casamentos ou o uso de vestidos de noiva brancos e óculos de sol.
2. Youth Education Guarantee Law (2021) Esta lei de 2021 direciona a repressão especificamente à juventude, que é vista pelo regime como a mais vulnerável à “contaminação” cultural.
➡️Objetivo: Eliminar o “pensamento antissocialista e não-socialista” entre os jovens e garantir que eles sejam ideologicamente doutrinados para serem totalmente leais ao Partido e a Kim Jong Un.
➡️Foco na Juventude: A lei estabelece as “coisas que os jovens não devem fazer nos esforços para estabelecer um estilo de vida socialista” e responsabiliza legalmente os infratores. O regime utiliza essa lei para reprimir severamente qualquer desvio ideológico.
➡️Punições para a Família: Há relatos de que a lei permite que os pais e guardiões sejam punidos publicamente se seus filhos forem apanhados a consumir conteúdo sul-coreano ou a imitar o estilo de fala sul-coreano, reforçando a vigilância em casa.
3. Pyongyang Cultural Language Protection Law (2023) Esta é a lei mais recente e se concentra no esforço de purificação linguística, visando erradicar o uso de vocabulário e gírias da Coreia do Sul.
➡️Objetivo: Proteger o “munhwao” (a “linguagem culta”) baseado no dialeto de Pyongyang e erradicar o que é chamado de “linguagem de fantoche”, uma referência depreciativa ao vocabulário, estilo de fala e escrita usados na Coreia do Sul.
➡️O que Criminaliza: Impõe punições severas para:
>>>>>> Uso de Gírias Sul-Coreanas: Falar, escrever, enviar mensagens ou e-mails no “estilo de linguagem de fantoche”. O termo “oppa” (irmão mais velho, usado por mulheres na Coreia do Sul) é um exemplo de vocabulário visado.
>>>>>> Punições: As penas são extremamente duras, podendo variar de um mínimo de seis anos de trabalho forçado até prisão perpétua ou a pena de morte em casos considerados graves.
Em suma, as três leis trabalham em conjunto para criar um regime de controle total sobre o pensamento, a cultura, a educação e a linguagem, transformando a exposição a informações externas em um crime de estado passível das punições mais brutais.
Punições são draconianas: Sokeel Park, da organização Liberty in North Korea, descreve isso como a “North Korea-fication of North Korea”, enquanto Elisabeth Salmón, relatora especial da ONU sobre direitos humanos na Coreia do Norte, alerta para o “isolamento absoluto” da população.
Testemunhos de desertores ilustram a brutalidade do sistema. Kang Gyuri, uma jovem de 20 e poucos anos que fugiu do país, relatou a execução de três amigos, incluindo um de 19 anos, por compartilharem programas de TV sul-coreanos.
Thae Yong Ho, ex-diplomata desertor, observa que “a cultura sul-coreana é como uma droga — os jovens norte-coreanos são viciados nela”, o que aterroriza o regime quanto à lealdade da juventude.
Smartphones equipados com software orwelliano autocorrigem termos ideologicamente suspeitos e capturam screenshots para autoridades, ampliando a vigilância em todos os aspectos da vida cotidiana.
No front militar, Kim Jong Un expandiu seu arsenal nuclear e acelerou testes de mísseis desde as negociações fracassadas com Donald Trump em seu primeiro mandato.
Em setembro de 2025, ele se reuniu com Vladimir Putin, presidente da Rússia, e Xi Jinping, líder da China, em Pequim, sinalizando uma parceria estratégica.
A Rússia tem fornecido petróleo em violação a sanções da ONU, enquanto Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores russo, declarou que “respeitamos as aspirações da Coreia do Norte e entendemos os motivos para seu desenvolvimento nuclear”.
Em troca, Pyongyang apoia a guerra russa na Ucrânia com munições e tropas. Kim Jong Un afirmou que só encontraria Trump novamente se os EUA abandonarem sua “obsessão absurda com a desnuclearização”.
Sua filha, Kim Ju Ae, vista em lançamentos de mísseis e na abertura do resort de Wonsan, é vista como potencial sucessora, reforçando a dinastia.
Economicamente, o regime reverte o “socialismo de mercado” que emergiu após a fome dos anos 1990. Mercados privados (jangmadang) enfrentam inspeções surpresa, fechamentos e taxas elevadas, conforme relatado pelo site Daily NK. Kim Byung-yeon, professor da Universidade Nacional de Seul (SNU), explica que Kim Jong Un está “tentando reverter esse progresso”.
A inflação disparou, com a taxa de câmbio do won no mercado negro quintuplicando em cinco anos, e políticas como a “20×10 para desenvolvimento regional” (2024) visam construir plantas industriais em 20 cidades por ano, promovendo fachadas de progresso em Pyongyang.
Essas tendências foram corroboradas por fontes recentes que noticiaram o tema, com o relatório mais atualizado vindo da ONU em 12 de setembro.
O Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) documentou uma “década perdida” de abusos, com aumento na vigilância, trabalho forçado e execuções, incluindo por assistir a filmes estrangeiros. Volker Türk, Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, lamentou: “Se a RPDC [República Popular Democrática da Coreia] continuar nessa trajetória, a população será submetida a mais sofrimento, repressão brutal e medo que suportam há tanto tempo.”
O relatório, baseado em entrevistas com 314 desertores, confirma a operação de pelo menos quatro campos de prisioneiros políticos, onde detentos enfrentam tortura e desaparecimentos forçados.
A Human Rights Watch (HRW), em release de 16 de setembro, ecoou esses achados, descrevendo um regime de “controle total” com repressão agravada desde 2018. Lina Yoon, pesquisadora sênior da HRW para as Coreias, afirmou: “Vigilância onipresente, repressão, ameaças, fome e dor definem o dia a dia de milhões de norte-coreanos.”
A organização destacou execuções públicas e o uso de tecnologia para monitorar a vida cotidiana.
Outras coberturas recentes incluem um artigo da BBC de 12 de setembro, que detalha execuções por compartilhamento de conteúdo estrangeiro e a persistência de abusos em prisões regulares.
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A Al Jazeera, no mesmo dia, reportou o aperto do regime sob a dinastia Kim, com James Heenan, chefe do escritório da ONU para a Coreia do Norte, notando um aumento nas execuções desde as restrições da COVID-19.
A Reuters, em 12 de setembro, enfatizou a repressão aprofundada em múltiplas áreas, tornando o país o mais restritivo do mundo.
Em 21 de setembro, a Reuters também cobriu declarações de Kim Jong Un à assembleia legislativa, onde ele se disse aberto a diálogos com os EUA se Washington abandonar a desnuclearização, mas reafirmou o status irreversível de seu arsenal nuclear na constituição.
A NPR, em 22 de setembro, destacou memórias positivas de Kim sobre Trump, apesar das tensões persistentes.
Esses relatórios coletivos pintam um quadro alarmante: enquanto o regime se fortalece diplomaticamente, a população sofre com fome, medo e isolamento.
A queda recente de Bashar al-Assad na Síria, citada pela The Economist, serve como lembrete de que “ditaduras brutais podem ruir rapidamente”, mas por ora, a Coreia do Norte permanece uma ameaça iminente.
Comparações Coreia do Norte x China x Rússia
China e Rússia de fato impõem restrições significativas ao conteúdo digital estrangeiro, mas a abordagem e a intensidade de cada país são bem diferentes daquelas observadas na Coreia do Norte.
Enquanto a Coreia do Norte busca um isolamento quase absoluto (como visto nas leis que proíbem gírias), a China e a Rússia aplicam um modelo de soberania digital que visa controlar o fluxo de informações para proteger o regime e promover alternativas domésticas.
China: O Grande Firewall
A China é o principal exemplo de censura digital em grande escala no mundo, através de um sistema conhecido como Grande Firewall da China (Great Firewall of China).
O objetivo não é apenas proibir, mas também substituir as plataformas globais por equivalentes nacionais sob estrito controle do Partido Comunista Chinês (PCC).
➡️Bloqueio Abrangente: O Grande Firewall bloqueia o acesso a uma vasta gama de sites, serviços e redes sociais estrangeiras, incluindo:
➡️Todos os serviços do Google (incluindo Gmail e Google Maps).
➡️Redes sociais ocidentais como Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), YouTube e WhatsApp.
➡️Mídia de notícias internacional, veículos de direitos humanos e até mesmo a Wikipédia em todas as línguas.
➡️Substituição Doméstica: A ausência dessas plataformas criou um ecossistema digital paralelo gigantesco e estritamente controlado, com empresas chinesas como Weibo, WeChat e Douyin (a versão chinesa do TikTok). Isso garante que os dados dos usuários permaneçam dentro das fronteiras e sejam monitorados pelo governo.
➡️Censura de Conteúdo Sensível: A censura é ativa e dinâmica, visando conteúdo que possa “prejudicar a honra nacional”, “perturbar a ordem econômica e social” ou “derrubar o sistema socialista”, incluindo informações sobre Xinjiang, Taiwan, Tibete ou críticas a líderes.
Rússia: A Evolução da Censura
Historicamente, a Rússia tinha um controle de internet mais brando que o da China, mas essa situação mudou drasticamente, especialmente após a invasão da Ucrânia em 2022. O modelo russo está se assemelhando cada vez mais ao chinês.
➡️Conceito de Soberania da Internet: O governo de Vladimir Putin promove a ideia de “soberania da Internet”, que confere ao Estado o poder de regular e, se necessário, isolar a internet russa (o chamado Runet).
➡️Bloqueios Seletivos e Escalada: A Rússia tem implementado bloqueios de plataformas que se recusam a cumprir suas leis, como as que exigem o armazenamento de dados de cidadãos russos em servidores locais.
➡️Plataformas como Facebook e Instagram foram bloqueadas após a invasão da Ucrânia, sendo a Meta (empresa-mãe) classificada como “extremista”.
➡️Veículos de mídia independentes e estrangeiros que publicam informações críticas ao governo ou à guerra são constantemente multados ou bloqueados.
➡️Leis de Conteúdo: O país utiliza leis para criminalizar a disseminação de “informação falsa” sobre o exército ou o governo, o que na prática restringe a liberdade de expressão e a cobertura de eventos internos e externos.
Comparação de Abordagens
| Característica | Coreia do Norte | China | Rússia |
|---|---|---|---|
| Objetivo Principal | Isolamento total e purificação ideológica e linguística. | Controle total de informação e promoção de alternativas domésticas. | Soberania digital e repressão a vozes críticas e “informação falsa”. |
| Mecanismo de Controle | Leis draconianas com pena de morte, vigilância física e tecnológica simples. | Grande Firewall (tecnologia sofisticada de bloqueio e filtragem). | Legislação de “informação falsa” e bloqueio de serviços específicos. |
| Punição para o Cidadão | Extrema: Pena de Morte por assistir a um filme estrangeiro ou usar uma gíria sul-coreana. | Concentrada no produtor/plataforma. O cidadão é punido por contornar o Firewall (usar VPN ilegalmente). | Severa, especialmente para a disseminação de conteúdo considerado “extremista” ou “antiexército”. |
Urbs Magna
Tanto a China quanto a Rússia proíbem ativamente o conteúdo digital estrangeiro que consideram uma ameaça ao regime ou à estabilidade, embora o fazem com maior sofisticação técnica do que a Coreia do Norte.







