Pensamento de filósofo italiano explica como o bolsonarismo se utiliza de narrativas para seduzir seguidores, usando a casa do povo sem legislar para o povo
Brasília, 27 de julho de 2025
O influenciador digital Pedro Ronchi afirma em sua conta no X que a “extrema direita vive de teatro para iludir trouxas“.
O geógrafo comunicador mostra duas imagens, uma do deputado federal Hélio Lopes, conhecido como Hélio Negão (PL-RJ), que usou um esparadrapo na boca enquanto acampava em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) na sexta-feira (2/jul), e outra imagem do homólogo Nikolas Ferreira (PL-MG), que utilizou uma fita preta em forma de “X” na boca durante uma sessão da Câmara dos Deputados em 8 de março de 2023, no Dia Internacional da Mulher.
Extrema direita vive de teatro para iludir trouxas. pic.twitter.com/Q9XV4rH1Rq
— Pedro Ronchi 🇧🇷 (@PedroRonchi2) July 27, 2025
O protesto de Negão, que incluiu a montagem de uma barraca, foi uma forma de manifestar apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e criticar as decisões dos ministros do STF em relação a ele.
Hélio Negão alegou estar em um “jejum de palavras” para simbolizar o que considera uma censura ou restrição da liberdade de expressão.
O acampamento foi posteriormente desmobilizado por ordem do ministro Alexandre de Moraes, que proibiu acampamentos na Praça dos Três Poderes.
Quanto ao gesto de Nikolas Ferreira, ocorreu em contemporaneidade ao discurso onde ele criticou as pautas feministas e defendeu que as mulheres “devem ser protegidas” em “sua feminilidade“.
A fita em “X” na boca visava simbolizar uma suposta “mordaça” ou “censura” que, segundo ele, a “ideologia de gênero” imporia à liberdade de expressão.
A atitude gerou grande repercussão e controvérsia, com diversas críticas de parlamentares, movimentos sociais e da sociedade civil, que a consideraram transfóbica e desrespeitosa com as mulheres.
Pedro Ronchi, ao criticar a extrema direita usando estes parlamentares, se refere aos espetáculos para enganar os seguidores do bolsonarismo. Implícito a isso está o fato de os parlamentares atuarem nas casas legislativas sem supostamente apresentar projetos concretos para a sociedade.
Em sua percepção, Ronchi quer dizer que a extrema direita utiliza estratégias performáticas ou narrativas exageradas para atrair seguidores, sem oferecer soluções práticas para questões sociais, como a pobreza.
Ele sugere que essas ações são uma forma de manipulação, apelando para emoções ou promessas vagas em vez de políticas estruturadas.
Fake news e teorias da conspiração
A visão de Ronchi ecoa outras análises sobre a extrema direita, como a do filósofo italiano Paolo Demuru, entrevistado pela Folha de S. Paulo, no ano passado. Ele aponta que esses movimentos utilizam narrativas sedutoras, muitas vezes baseadas em conspirações, para atrair o público em contextos de crise.
Demuru sugere que teorias da conspiração, o que pode ser traduzido em parte como uma produção criteriosa de fake news pela extrema direita, fornecem explicações totalizantes para eventos complexos e caóticos, conferindo-lhes um significado oculto e, para alguns, até mesmo divino.
O filósofo destaca o caráter “mágico” dessas narrativas. Ao invés de uma compreensão racional, elas propõem que forças secretas e malévolas estão agindo nos bastidores.
Isso, paradoxalmente, pode ser reconfortante para alguns, pois transforma a incerteza em uma trama com vilões identificáveis e um objetivo, ainda que nefasto.
Demuru relaciona o crescimento das conspirações ao individualismo contemporâneo. Em um mundo onde os laços sociais se enfraquecem e a sensação de pertencimento diminui, a adesão a uma teoria da conspiração pode oferecer um senso de comunidade e exclusividade.
Os adeptos se sentem parte de um grupo que “desvendou a verdade“, distinguindo-se da “massa enganada“. Mas no caso das fake news, a realidade é oposta.
O “encanto” contrasta com a desilusão Ou seja: A “ilusão do controle” que as teorias da conspiração (ou no caso das fake news) proporcionam é um ponto chave. Em vez de se sentir impotente diante da complexidade do mundo, o conspiracionista acredita ter acesso a um conhecimento privilegiado, o que lhe confere um sentimento de poder e compreensão.
Esse “encantamento” se opõe à desilusão e à falta de agência que muitos experimentam na vida moderna.
Demuru não vê as teorias da conspiração como meros erros cognitivos, mas sim como uma resposta à fragilidade da razão e à incerteza da verdade em uma era de informações pulverizadas.
Aplique-se isso às fake news da extrema direita. Elas oferecem verdades absolutas e inquestionáveis, um refúgio da complexidade e da ambiguidade do conhecimento científico e social; da realidade.
Em síntese, para Paolo Demuru, as teorias da conspiração não são apenas sintomas de irracionalidade, mas sim complexas narrativas que respondem a anseios humanos profundos por significado, pertencimento e controle em um mundo que muitas vezes parece carecer deles.
Elas representam uma forma peculiar de “reencantamento” em uma sociedade dessacralizada.








