Empresários da CNI ficam constrangidos com as presenças do deputado intercontinental e do réu no inquérito da trama golpista
Washington, 05 de setembro de 2025
A presença do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do comentarista político Paulo Figueiredo em um hotel em Washington causou desconforto entre empresários brasileiros que integram a comitiva da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A delegação, composta por cerca de 130 pessoas, está na capital americana para tentar negociar a redução de tarifas de 50% impostas pelo presidente Donald Trump ao Brasil, em vigor desde 6 de agosto.
Segundo a colunista Mariana Sanches, do UOL, pelo menos seis representantes setoriais relataram “certo desconforto” a “super constrangimento” com a presença da dupla, que não foi convidada pela CNI.
A comitiva, liderada pelo presidente da CNI, Ricardo Alban, buscava manter o foco em questões comerciais, evitando interferências políticas.
No entanto, Eduardo e Figueiredo, que têm pressionado a administração Trump por sanções contra o Brasil para forçar uma anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, foram vistos em um café da manhã com um suposto representante do setor da pesca.
A Abipesca, entidade do setor presente na delegação, negou qualquer convite ou encontro com a dupla.
Nos grupos de WhatsApp dos empresários, especulava-se sobre quem seriam os “anfitriões” de Eduardo, mas o mistério persistia até o início da noite de ontem.
Paulo Figueiredo afirmou que “não foi a CNI que nos chamou”, mas sim “cinco empresários”, sem revelar suas identidades para “não expor”.
Ele destacou que Eduardo condicionou sua participação a conhecer previamente a lista de presentes, o que não ocorreu, limitando a conversa a um pequeno grupo já conhecido.
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A dupla tem articulado nos Estados Unidos desde a posse de Trump, visitando 47 gabinetes de parlamentares e órgãos como a Casa Branca e o Departamento de Estado.
A tensão se intensifica com a postura de Trump, que justificou as tarifas como resposta à “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro, réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.
O presidente americano condiciona negociações comerciais à interrupção do processo judicial, o que o governo brasileiro considera uma violação da soberania nacional. Ricardo Alban reforçou que a missão da CNI foi planejada para excluir fatores políticos, rejeitando a participação de parlamentares ou membros do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
“Por que é que nós vamos perder a razão, para quê vamos misturar alhos com bugalhos?”, questionou Alban, destacando a tentativa de blindagem política.
A presença de Eduardo e Figueiredo gerou mal-estar não apenas pela surpresa, mas também pelo impacto nas negociações. A CNI teme que a atuação da dupla prejudique as tratativas com os EUA, já que Trump e seus aliados veem Eduardo como um interlocutor chave.
A delegação brasileira apresentou aos americanos o potencial do Brasil para energia renovável, visando atrair investimentos em data centers para inteligência artificial, mas as tensões políticas dificultam avanços.
A Casa Branca tem acompanhado de perto o julgamento de Jair Bolsonaro, previsto para se estender até 12 de setembro.
Fontes da administração Trump indicaram que novas sanções, como cassação de vistos ou medidas financeiras contra autoridades brasileiras, podem ser acionadas em tempo real, dependendo do desfecho do processo no STF.
A missão da CNI enfrentou outro revés ao ser informada pelo vice-secretário de Estado, Christopher Landau, que as tarifas são uma questão política e que o lobby deveria ser feito em Brasília, não em Washington.
A delegação, que inclui o ex-diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, reconheceu entraves políticos e a falta de clareza sobre as prioridades americanas.
“Eles estão assolados de coisas pra fazer”, disse Azevêdo, apontando a dificuldade de avançar nas negociações.
Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo continuam sua campanha por sanções, incluindo medidas contra o ministro do STF, Alexandre de Moraes, relator do caso de Bolsonaro.
Os EUA revogaram os vistos de Moraes, outros ministros do STF (exceto André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux) e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, intensificando a crise diplomática.







