“Com LULA a América Latina era importante. Hoje, por desgraça, não existe”, diz ex-presidente do Chile

“Tem enorme importância quem será o presidente do Brasil, do ponto de vista da política externa global”, afirmou Ricardo Lagos

Esta eleição no Brasil terá enorme impacto, porque estamos falando do país mais importante da região. Sempre digo que a América Latina existe quando Brasil, México, até ontem a Argentina e daqui para frente a Colômbia, coincidem num olhar comum, afirmou, em entrevista ao jornal O Globo, o ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos, 84 anos, que foi o primeiro líder socialista do país após a queda de Augusto Pinochet – militar do Exército que foi apontado para comandar o país por meio de uma junta militar, em 17 de Junho de 1974, após o golpe contra a democracia, apoiado pelos EUA, e que em 1981 se autoproclamou presidente da República do Chile, para um mandato de oito anos de regime militar.

Lagos, que liderou o Chile entre 11 de março de 2000 até 11 de março de 2006 e conviveu politicamente com LULA durante o início da primeira gestão do brasileiro, em 2003, disse ao jornal que “tivemos posições importantes e tivemos de dizer não ao presidente Bush e à sua guerra no Iraque [um fato que é lembrado até hoje pelo candidato do PT à Presidência da República, na eleição de outubro]”. O chileno diz que “os contatos com Lula eram importantes e, naquele momento, a América Latina era importante. Hoje a América Latina, por desgraça, não existe. Os presidentes têm dificuldades para falar entre eles, e quando falam muitas vezes não estão de acordo“.

Ricardo Lagos, que deixou seu mandato no Chile com popularidade histórica de 70%, assim como LULA (84%), acrescentou, sobre o assunto, que “antes“, com o ex-presidente brasileiro, “existia um alto grau de coincidência” ao se tratar “questões internacionais“. O chileno destacou que “a eleição no Brasil” é de extrema importância para um mundo que mudou, “da Revolução Industrial à Revolução Digital. Os conceitos de esquerda e direita têm a ver com o mundo industrial, com a dicotomia entre capital e trabalho. Essa forma de pensar acabou. Hoje temos unicórnios azuis, e o que é isso? O conceito do trabalho mudou. Nesse contexto acontece a eleição do Brasil, com dois candidatos, Lula e o presidente atual, que é um pouco diferente dos presidentes que conhecemos, para dizer o mínimo. Eu conheci o Brasil de Lula, depois do Brasil de Fernando Henrique Cardoso. E quero destacar, em todos os casos, o papel do Itamaraty“.

O ex-presidente do Chile questionou também o papel do Brasil nos Brics e o do próprio bloco: “Seria diferente o papel que teria Lula nesse grupo do que eventualmente teria, se decidisse fazê-lo, o presidente Bolsonaro. São dois mundos muito diferentes, e dois Brasis muito diferentes. Tem enorme importância quem será o presidente do Brasil, do ponto de vista da política externa global“. Para Lagos, “as democracias estão em perigo” e elas “As democracias “devem ser cuidadas e mantidas. A democracia é uma planta que devemos regar todos os dias, e isso significa entregar algo todos os dias quando o país cresce“.

Neste sentido o político afirmou que “o boom das commodities foi um verão que chegou à América Latina, mas em matéria de distribuição de renda não se avançou da mesma maneira. Normalmente, os que estão melhor não querem falar sobre como distribuir. Mas é preciso entender que se não houver uma melhor distribuição, não poderemos resolver estes problemas. O Estado de bem-estar dos europeus levou muito esforço, e foi alcançado entendendo que todos devem participar“. Isso é outro ponto da ideologia de LULA, quando o ex-presidente brasileiro afirma que é preciso “incluir o pobre no orçamento“. Em paralelo, o chileno defende que “quando o país cresce todos devem ganhar, e não apenas alguns“.

Um presidente é o principal comunicador de um país, deve saber se conectar com as pessoas e deve dizer a verdade“, afirmou Lagos, parecendo se referir ao oposto de uma das principais características de Bolsonaro. “Temos de explicar à sociedade o que podemos e o que não podemos, o que depende dos governos e o que depende de outros“, complementou o chileno.

Siga Urbs Magna no Google Notícias
Comente

Comente

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.